Por Yuka Hayashi, Jason Douglas e Chao Deng — Dow Jones Newswires
18/04/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
A guerra na Ucrânia está dificultando para muitos países emergentes a tarefa de pagar a dívida externa. Isso alimenta preocupações sobre a possibilidade de ocorrência de crises, que poderão abalar os mercados e enfraquecer a recuperação econômica global.
Muitos desses países acumularam dívidas ao longo dos últimos dez anos, quando as taxas de inflação e de juros eram baixas, e nos dois últimos anos para financiar os gastos emergenciais da covid-19.
Depois disso, a invasão da Ucrânia pela Rússia e as sanções do Ocidente fizeram os preços dos alimentos, da energia e de outros produtos disparar, em um momento em que bancos centrais das principais economias elevam os juros para controlar a inflação.
Agora, de Islamabad ao Cairo, passando por Buenos Aires, governos enfrentam dificuldades diante do aumentos dos preços dos produtos importados e das dívidas a pagar, que vêm se somar à persistente pandemia.
Na terça-feira, o Sri Lanka disse que suspenderia os pagamentos da dívida externa e que solicitou assistência financeira emergencial ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Seu Ministério das Finanças disse que a guerra na Ucrânia e a pandemia prejudicaram a receita com o turismo, deixando o país sem ter como honrar sua dívida.
“Haverá calotes. Haverá crises. Quando somos atingidos por choques como este, tudo é possível”, disse o economista Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, durante recente discussão promovida pelo FMI. “O que pesa contra a possibilidade de ter algum problema sistêmico no momento é a permanência global das taxas de juros em níveis baixos… mas isso é cada vez menos verdadeiro no caso dos mercados emergentes e das economias em desenvolvimento.”
Embora o FMI não antecipe uma crise da dívida global neste momento, “esse é um risco que nos preocupa muito”, disse Ceyla Pazarbasioglu, diretora de estratégia, política e revisão do FMI.
Descobrir como expandir e acelerar um marco regulatório para a resolução da dívida de países em desenvolvimento em dificuldade será uma prioridade para o G-20, que reúne as principais economias globais e cujos ministros das Finanças e presidentes dos bancos centrais participarão das reuniões do encontro do FMI e do Banco Mundial que começam hoje em Washington, disse Pazarbasioglu.
O total da dívida global de governos, empresas e famílias deu um salto de 28%, para 256% do PIB em 2020. Trata-se do nível mais alto desde as duas guerras mundiais, segundo Pazarbasioglu.
Enquanto os países ricos têm poucos problemas em quitar suas crescentes dívidas graças às taxas de juros ainda baixas e ao sólido crescimento da economia, muitos países em desenvolvimento estão sob pressão. Cerca de 60% dos países de baixa renda – definidos como as cerca de 70 nações que foram beneficiadas por um programa global de suspensão do serviço da dívida durante a pandemia – enfrentavam alto risco de ficarem inadimplentes ou já estavam insolventes em 2020, em relação aos 30% nesta condição em 2015, segundo o FMI.
Os esforços para ajudar países devedores problemáticos são dificultados pelo ingresso de novos e menos experientes credores nos últimos anos. Na tentativa de usufruir de fartos retornos em um mercado de juros baixos, investidores como fundos de pensão e de private equity, além de entidades financeiras controladas por governos, compraram dívidas governamentais de alto rendimento.
A participação da China na dívida externa de 73 países altamente endividados saltou de 2% em 2006 para 18% em 2020, enquanto os empréstimos concedidos pelo setor privado aumentaram de 3% para 11% no mesmo período segundo o FMI. Por outro lado, a participação dos credores tradicionais – instituições multilaterais como o FMI, Banco Mundial e o Clube de Paris, formado, principalmente, por governos ocidentais ricos – caiu de 83% para 58%.
“Se você não tem uma boa compreensão de quem detém a dívida, fica muito difícil fazer uma reestruturação eficiente, trazer todas as pessoas para a mesa de negociação”, disse Sonja Gibbs, do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), que representa os bancos globais.
Dois dos exemplos mais perfeitos dos riscos enfrentados pelos países em desenvolvimento são Sri Lanka e Paquistão. Ambos os países estão envolvidos em crises políticas desde a invasão da Ucrânia. As reservas externas desses dois países minguaram ao ponto de cobrirem só um ou dois meses de importações, segundo dados dos BCs, de analistas e do FMI.
O colapso da economia de Sri Lanka desencadeou manifestações contra a inflação recorde, blecautes escalonados e escassez de produtos básicos, como medicamentos e gás de cozinha. Segundo a provedora de dados CEIC, a inflação anual do país alcançou 17,5% em fevereiro. A dívida pública vinculada a projetos de infraestrutura disparou nos últimos dez anos. O serviço da dívida neste ano totaliza US$ 7 bilhões, com US$ 1 bilhão em bônus por vencer em julho, mas as reservas internacionais do país somam só US$ 2,3 bilhões.
O programa de assistência do FMI ao Paquistão está em suspenso após o ex-premiê Imran Khan ter anunciado, em fevereiro, planos de conceder um subsídio de US$ 1,5 bilhão para combustível e energia elétrica sem a aprovação da instituição. Khan foi afastado no dia 9 pelo Parlamento em meio ao crescente custo de vida e uma inflação anual de 12,7% em março.
A economia do Egito também enfrenta dificuldades com o impacto da pandemia sobre seu setor de turismo e, agora, com a alta da inflação e a saída do investimento externo desde a invasão da Ucrânia. O BC do Egito desvalorizou a moeda do país em 14% em março para abrir o caminho para obter ajuda do FMI. O governo mantinha a moeda valorizada para atrair os investidores estrangeiros.
“A guerra na Ucrânia foi a gota d’água”, diz James Swanston, da consultoria Capital Economics de Londres. “Eles realmente precisavam desvalorizar a moeda para ganhar alguma competitividade externa e conseguir exportar mais.”
O Egito enfrenta desafios econômicos de longo prazo, entre os quais o crescimento da pobreza e a queda da participação na força de trabalho. O país tomou emprestados quase US$ 20 bilhões do FMI desde 2016, o segundo maior devedor da instituição depois da Argentina. Em 2020 e 2021, o Egito gastou mais de 40% de sua receita na amortização de sua dívida, e deverá fazer o mesmo em 2022.
Logo após a desvalorização da moeda egípcia, os países do Golfo Pérsico prometeram US$ 22 bilhões em ajuda do país, enquanto a União Europeia deu € 100 milhões para o país combater a disparada dos preços dos alimentos decorrente da guerra na Ucrânia. Economistas dizem que o Egito deve buscar mais ajuda do FMI.
A Tunísia é outra economia em dificuldade, com escassez de produtos básicos e atraso nos pagamentos dos funcionários públicos. O governo obteve um financiamento de US$ 400 milhões no mês passado do Banco Mundial e espera obter um empréstimo do FMI.
“Quase todo [país] soberano tem mais dívida agora do que teve em 2008”, durante a crise financeira daquele ano, disse Roberto Sifon-Arevalo, da S&P Global Ratings. “Temos uma iminente crise da dívida? Eu não diria isso. Mas há alguns [países] soberanos que estão realmente em uma posição muito difícil mesmo.”
Fonte: Valor Econômico
