Embora o conflito entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã tenha elevado bastante os preços de petróleo e aumentado as incertezas, o movimento de diversificação global para fora dos EUA não foi alterado drasticamente, na visão do estrategista e economista-chefe da AZ Quest, André Muller.
“O pano de fundo não se alterou dramaticamente. Tem um problema na oferta de curto prazo do petróleo. Isso pesa sobre a inflação e moedas, em um ambiente em que o posicionamento dos mercados estava numa direção oposta [apostando na alta da bolsa e recuo do dólar]. Mas o pano de fundo ainda não mudou”, observa o executivo.
Nesse sentido, Muller avalia que, se o petróleo mantiver o nível atual ou ficar um pouco abaixo, o mais provável é que investidores globais permaneçam diversificando para fora dos Estados Unidos, comprando bolsa e moedas de outros países, o que poderia beneficiar o Brasil.
“O preço de petróleo no nível atual não é alto o suficiente para causar um choque expressivo nas decisões de investimento”, resume. Ainda assim, ele afirma que o mercado fez ajustes nos últimos pregões, em virtude do posicionamento elevado dos investidores, que estavam muito comprados (apostando na alta) em bolsa e aplicados (apostando na queda) em juros.
“Ontem, eu acho que a dinâmica dos ativos sugeriu que houve uma redução do posicionamento do mercado em posições em juros e bolsa, que estavam indo numa direção contrária ao que estavam os participantes”, diz. “Maior parte dos participantes estava comprada em bolsa e aplicado em juros”, explica.
Após o forte ajuste feito ontem, Muller diz que é difícil saber se as mudanças nas carteiras em termos de redução do risco já estão completas ou não. “Agora, tem uma necessidade menor de se ajustar as posições, embora ninguém tenha muita clareza sobre a atuação do Irã no Estreito de Ormuz e de como isso vai afetar o petróleo.”
Olhando para os preços atuais do óleo bruto e para a curva da commodity, o economista defende que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central parece ter condição de realizar um corte de 0,5 ponto na reunião deste mês.
Ao tentar replicar o modelo do Banco Central, considerando que os preços de petróleo de hoje até o fim do horizonte relevante estariam entre 15% e 20% acima do cenário colocado pelo Copom na reunião anterior, o estrategista diz que a projeção de inflação subiria de 3,2%, do último encontro do Comitê, para cerca de 3,6%, se distanciando da meta.
A questão, diz Muller, é que a Petrobras tem repassado a volatilidade nos preços de petróleo para o mercado interno de forma menos “frequente” durante guerras e que, se houver o repasse, a expectativa é que ele seja gradual.
Nesse sentido, o economista acredita que o BC poderia apresentar projeções em um cenário alternativo, como fez em 2022 com a guerra da Rússia contra a Ucrânia, em que os preços de petróleo seguiriam a curva futura da commodity e que mostrariam uma estimativa ligeiramente acima de 3% para o IPCA.
“Considerando uma Selic parada de 12%, mesmo com uma hipótese de petróleo mais conservadora, com os preços da commodity ficando entre 15% e 20% mais altos do que os que o Copom usou na reunião passada, o IPCA convergiria para 3,1%”, diz. “Mesmo sendo conservador nos níveis de petróleo, o patamar de juro é tão alto que existe espaço para a calibragem dos juros para baixo e para que o ritmo seja de 50 bps [0,50 ponto]”, completa.
Levando tudo isso em conta, o executivo enxerga que o ciclo de aperto monetário do BC poderá ser de 2,50 pontos percentuais, num primeiro momento, o que levaria a Selic para o patamar de 12,5%.
Fonte: Valor Econômico