Por Martin Wolf
27/04/2022 05h02 · Atualizado
As guerras são também grandes choques econômicos. A guerra do Vietnã desestabilizou as finanças públicas dos Estados Unidos. A guerra da Coreia de 1950-53 e a guerra do Yom Kippur de 1973 desencadearam grandes aumentos nos preços de commodities essenciais
Desta vez também, uma guerra envolvendo diretamente um grande exportador de energia, a Rússia, e um importante exportador de muitas outras commodities, especialmente cereais, a Ucrânia, está levando a um aumento da inflação e provocando grandes reduções na renda real dos consumidores.
A previsão do FMI assume que a guerra se restringirá à Ucrânia, que sanções contra a Rússia não serão mais fortes, que uma forma mais letal da covid não surgirá, que o aperto financeiro será modesto, sem grandes crises financeiras. Qualquer uma dessas esperanças (ou várias) poderá dar errado
Mas o mais importante é que a guerra vem contribuindo para tensões já generalizadas nas economias, nas relações internacionais e na governança global. A retirada em protesto de ministros e banqueiros centrais ocidentais da reunião do G-20 na semana passada, conforme afirmou a delegação russa, foi um lembrete preocupante de nosso mundo dividido.
Mesmo antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, o mundo não havia se recuperado dos custos da covid-19, quanto mais de seus amplos efeitos sociais e políticos. As interrupções no abastecimento foram generalizadas e a inflação subiu a patamares não esperados.
A política monetária foi ajustada para um grande aperto. O risco de recessão, agravado por inadimplências e distúrbios financeiros, é alto. A isso deve-se acrescentar as crescentes tensões entre a China e o Ocidente e suas políticas divergentes para o combate à covid.
Esta guerra segue-se à peste e ameaça trazer a fome. Juntos, estes são três das quatro sentenças “terríveis” do Senhor, segundo o livro do apocalipse. Infelizmente, a quarta, a morte, segue as outras três.
Em resumo, a guerra é um multiplicador da ruptura em um mundo já perturbado. Economicamente, isso funciona por meio de cinco canais principais: preços mais altos das commodities; interrupção do comércio; instabilidade financeira; o impacto humanitário, sobretudo milhões de refugiados; e a resposta política, notadamente sanções. Todas essas coisas também aumentam as incertezas.
Em sua mais recente avaliação da economia mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu pontualmente as perspectivas de crescimento econômico e elevou suas expectativas de inflação pela segunda vez seguida. Após o entusiasmo com a recuperação inesperadamente rápida das recessões induzidas pela covid-19 em 2020, a decepção se instalou.
As previsões para o crescimento econômico global deste ano foram reduzidas em 1,3 ponto percentual desde outubro de 2021. Para os países de alta renda, a previsão foi reduzida em 1,2 ponto percentual e para os países emergentes e em desenvolvimento, em 1,3 ponto percentual. As estimativas do PIB potencial também estão no geral abaixo das expectativas pré-pandemia.
As previsões de inflação também aumentaram acentuadamente. Agora acredita-se que ela será de 5,7% nas economias de alta renda e de 8,7% nos países emergentes e em desenvolvimento. Isso não é resultado apenas dos preços mais altos das commodities, nem da escassez da oferta. Conforme insiste Jason Furman, da Kennedy School da Universidade Harvard, essa inflação é “movida pela demanda e persistente”. Assim como aconteceu na década de 70, a forte demanda poderá sustentar uma espiral dos preços e dos salários, à medida que os trabalhadores tentam manter sua renda real.
O FMI argumenta, contra isso, que o petróleo é bem menos importante do que já foi, os mercados de trabalho mudaram e os bancos centrais são independentes. Tudo isso é verdade. Mas a interação entre os erros de política e os choques de oferta ainda poderá criar estragos estagflacionários.
Não é difícil imaginar resultados muito piores que os sugeridos pelo FMI em sua previsão inicial, uma vez que ela assume que a guerra permanecerá restrita à Ucrânia, que as sanções contra a Rússia não serão mais endurecidas, que uma forma mais letal da covid não surgirá, que o aperto da política monetária será modesto e que não haverá grandes crises financeiras. Qualquer uma dessas esperanças financeiras (na verdade várias) poderá dar errado.
Um grande problema para o bem-estar humano, se não para a economia mundial, é a probabilidade de problemas financeiros em países emergentes e em desenvolvimento, especialmente aqueles também afetados pelos preços mais altos das commodities.
Conforme aponta o Relatório de Estabilidade Financeira Global, um quarto dos emissores de dívida em moeda forte já estão com obrigações sendo negociadas como “distressed”. O Ocidente agora precisa ajudar muito mais os países emergentes e em desenvolvimento atingidos pela crise do que ajudou na luta contra a covid.
O único ponto positivo dos desastres recentes é que a ditadura absoluta está sendo desacreditada. A concentração de poder nas mãos de um ser humano falível é um risco alto, na melhor das hipóteses, e catastrófico, na pior. O regime de Putin é um lembrete terrível do que pode acontecer nesse plano.
Mas a tentativa de Xi Jinping de eliminar um patógeno altamente contagioso, mas não particularmente perigoso, de seu país é outro sinal do que o poder desmedido pode trazer. A democracia não se cobriu de glória, mas seus líderes podem ser removidos.
No entanto, infelizmente compartilhamos o planeta com esses regimes e especialmente com o da China. Ao contrário da Rússia, a China é uma superpotência, e não apenas uma potência em declínio com um ressentimento sem fim e milhares de ogivas nucleares. No mínimo, o Ocidente terá que cooperar com a China na gestão de sua dívida soberana (de país em desenvolvimento).
Mas o mais importante é que precisamos de paz, prosperidade e proteção do planeta. Isso não pode ser alcançado sem algum grau de cooperação. As próprias instituições de Bretton Woods são um monumento à tentativa de se conseguir isso. Vinte e cinco anos atrás, muitos acreditavam que estávamos no caminho que a humanidade precisava seguir. Agora, infelizmente estamos novamente em um caminho descendente para um mundo de divisões, rupturas e perigos.
Se não ocorrerem mais choques, as perturbações atuais deverão ser superadas. Mas fomos lembrados de que grandes choques são possíveis e também de que quase sempre eles são negativos. É preciso resistir à Rússia. Mas se não conseguirmos sustentar níveis mínimos de cooperação, o mundo que acabaremos compartilhando não deverá ser o mundo em que queremos viver. (Tradução de Mário Zamarian).
Martin Wolf é editor e principal analista de economia do Financial Times
Fonte: Valor Econômico
