Por Stella Fontes — De São Paulo
05/01/2024 05h00 Atualizado há 5 horas
Um estudo qualitativo da Cambridge Family Enterprise Group (CFEG) mapeou os principais fatores para que empresas familiares brasileiras prosperassem além da terceira geração e concluiu, a partir da análise de 12 famílias cujos negócios têm entre 90 anos e 150 anos, que valores e respeito ao legado, capacidade de tomada de decisão de seus líderes e adoção de estruturas de governança, em boa medida inovadoras, são comuns aos casos de sucesso.
Pesquisas realizadas pela CFEG no mercado americano indicam que apenas 15% das empresas de perfil familiar acabam sobrevivendo à terceira geração – a conhecida “maldição da terceira geração” é um fenômeno comum a diferentes culturas.
Seguindo essa tendência, há no Brasil uma lista pequena, porém conhecida, de empresas e grupos que venceram os 100 anos sob os mesmos sobrenomes. Entre eles estão Klabin (124 anos), Suzano (100 anos neste mês), Gerdau (123 anos), Votorantim (105 anos), Lorenzetti (100 anos), Pernambucanas (115 anos), Cedro Cachoeira (151 anos) e Catupiry (112 anos). A consultoria não informa se esses nomes participaram do estudo devido a um acordo de confidencialidade.
Referência no mundo em conteúdo e serviços para famílias empresárias, a CFEG buscou, com a pesquisa, entender quais são as particularidades do Brasil no que diz respeito à longevidade dos negócios familiares. Foram analisados documentos e conduzidas entrevistas com as famílias, sob a condição de anonimato.
“A pesquisa foi feita com muito critério acadêmico, com o objetivo de focar nas famílias empresárias e não nas empresas, até porque os negócios não necessariamente permanecem os mesmos. Há várias empresas centenárias que mudaram de mãos, mas são poucas as famílias que continuaram juntas”, diz a consultora sênior associada à CFEG Renata Barbieri, que assina o estudo junto com Flávia Cavazotte e Ana Carolina Martini.
“Tem de haver união de propósito (nas famílias), não apenas afetiva” — Celia Picon
Entre as 12 famílias analisadas, metade possui hoje um único negócio e metade é dona de um grupo de empresas. Oito têm capital fechado, quatro são de capital aberto. Em todos os casos, seus líderes foram capazes de tomar decisões acertadas em relação ao negócio, à sociedade e à família propriamente.
“Os familiares têm diferentes perfis e nem todos estão preparados da mesma forma. O importante é que se alinhem no propósito: tem de haver união de propósito, não apenas afetiva”, explica Celia Picon, sócia da CFEG Brasil e uma das mais respeitadas especialistas em sua área no país. “É preciso coragem e legitimidade para tomar essas decisões”.
A pesquisa identificou que, nas famílias que permaneceram juntas à frente do negócio por ao menos um século, são comuns a busca contínua de aprendizado e desenvolvimento de habilidades, além de determinados valores como devoção ao legado construído (não necessariamente apego), valorização do trabalho e respeito ao próximo, ao meio ambiente e às práticas de negócio (ESG, na linguagem atual).
Conforme o estudo, empresas e grupos brasileiros longevos já faziam, há muito tempo, o que a grande maioria sabe hoje que é importante, num aprendizado que veio também por causa de crises. Nesses momentos críticos, segue o estudo, o orgulho de pertencer acabou funcionando como “a cola da família que se perpetua no negócio”, cujo “capital é paciente”.
Ao mesmo tempo, essas famílias sabem que não vão dispor de todas as competências para tocar o negócio. Disso vem também a clareza de quando devem sair de determinado mercado ou segmento. “Sobretudo em grupos empresariais, mudar de negócio é um grande desafio porque existe apego à história. O grande segredo é equilibrar emocional e racional”, afirma Barbieri.
Em todos os casos, trabalhar a governança dentro da empresa, um assunto que parece novo a muitos, é fator crítico, mostra a pesquisa. Definir papéis e responsabilidades contribui para a escolha de sucessores e planejamento, em lugar das escolhas muitas vezes feitas de forma intuitiva, também é um ingrediente importante para a longevidade.
Fonte: Valor Econômico
