Em quatro semanas de conflito no Oriente Médio, enquanto gestores locais reduziam posições e acumulavam caixa, o investidor estrangeiro foi na direção oposta — e com força.
O Brasil entrou na guerra com R$ 35 bilhões de posição comprada de estrangeiros em bolsa. Quando a poeira baixou, o número havia saltado para R$ 48 bilhões. Os gringos colocaram mais R$ 13 bilhões em pleno caos geopolítico.
“A historinha da América Latina continua, e a magnitude não diminuiu muito”, disse Christian Keleti, CEO da Alpha Key, que acompanhou de perto o movimento pelo fluxo do mercado à vista.
Para ele, o dado é revelador: mesmo com uma guerra em curso, o capital externo não só não recuou como acelerou. “Olha, começou a guerra e o gringo continua comprando. Essa é a mensagem.”
O contraste entre o comportamento do investidor local e o estrangeiro foi o centro do debate no Aftermarket, do Stock Pickers, com apresentação de Lucas Collazo, reunindo Keleti, Leonardo Linhares, head de Ações da SPX Capital, e Andrew Reider, sócio e gestor do WHG Long Biased.
O problema, apontou Keleti, é que quem vendeu para o estrangeiro foi principalmente o fundo local — e esse estoque de venda está se esgotando.
“A indústria de fundo independente local soma cento e poucos bilhões em ações. Desses 35, 40 bilhões que foram vendidos, fomos nós”, disse. “Meu receio é que se der uma melhorada no geopolítico, o gringo vai continuar comprando e o local não tem mais R$ 35, R$ 40 bilhões para vender.”
O local viu resultado ruim. O gringo nem olha para isso
A leitura de Keleti é que a venda dos fundos locais foi disciplinada — e justificada pelos fundamentos. “Foi o pior trimestre de resultado dos últimos anos”, afirmou.
O gestor listou um cardápio extenso de setores sofrendo: varejo de vestuário com vendas fracas no quarto trimestre, varejo de alimentos vendendo abaixo da inflação, industriais pressionadas de ponta a ponta — de Randon (RAPT4) a Fras-le (FRAS3), de homebuilders a empresas com dívidas em situação delicada, como CSN (CSNA3), Cosan (CSAN3) e Oncoclínicas (ONCO3).
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“Você via as industriais sofrendo, como poucas vezes eu vi aqui, de A a Z”, disse Keleti. “Esse fluxo de gringo veio para distorcer um monte de valuation histórico.”
Bancos negociando acima do que o histórico sustentaria, múltiplos esticados — o gestor avalia que a entrada maciça de capital externo criou uma distorção de preços que o local enxergou e o estrangeiro ignorou.
A razão para essa diferença de leitura foi explicada por Linhares. “O local é muito mais sensível à discussão de política monetária do que o estrangeiro”, afirmou.
Enquanto o gestor brasileiro compara o retorno da ação com o rendimento do título público atrelado à inflação — e encontra o prêmio historicamente apertado —, o estrangeiro chegou sem sequer saber soletrar NTNB.
“Tive que soletrar NTNB para um gestor de US$ 5 bilhões porque ele não fazia ideia do que era”, relatou Collazo, descrevendo uma reunião em Nova York.
Fonte: InfoMoney
