A Berkshire Hathaway voltou a recomprar suas ações pela primeira vez em 22 meses, enquanto seu novo executivo-chefe, Greg Abel, mobiliza uma reserva de caixa recorde, de quase US$ 400 bilhões. As recompras, iniciadas na quarta-feira, são as primeiras autorizadas por Abel desde que ele sucedeu Warren Buffett como presidente da empresa, no início do ano, e são um sinal de que há uma convicção de que as ações estão sendo negociadas a um preço menor do que seu valor intrínseco.
O conglomerado de US$ 1,1 trilhão, que abrange empresas dos setores de seguros, ferrovias e industrial, não costuma anunciar que está no mercado para recomprar suas ações. O normal é que as recompras sejam divulgadas como parte de seus informes trimestrais, e as últimas registradas foram concluídas em maio de 2024.
“No interesse de assegurar a transparência em nossa transição de liderança, estamos comunicando que começamos a recomprar ações”, avisou a Berkshire em um informe à SEC (comissão de valores mobiliários dos EUA).
A ascensão de Abel marca um momento crucial para a gigante dos investimentos, já que acionistas buscam indícios de como ele mudará a empresa, assim como ter uma visão clara sobre sua sagacidade para investimentos.
Em sua primeira carta anual aos acionistas, no fim de semana, o executivo de 63 anos afirmou que considera a recompra de ações uma “opção importante de alocação de capital”, junto com investimentos em ações negociadas em bolsa e aquisições diretas. “Vamos recomprar ações da Berkshire quando elas forem negociadas abaixo de nossa estimativa do seu valor intrínseco, determinada de forma conservadora, de modo a garantir que as recompras aumentem o valor por ação para os acionistas que as mantém”, escreveu.
Abel acrescentou que as compras permitem que os acionistas “detenham uma parte progressivamente maior nos negócios da Berkshire, sem precisar investir mais capital próprio”.
No ano passado, antes de Abel assumir o comando, a empresa alterou seu programa de recompra de ações. A nova política permite que ele inicie recompras de ações depois de consultar Buffett, que há muito tempo tem poder de decisão sobre recompras.
Acionistas buscam indícios sobre como Greg Abel mudará gestão da Berkshire, além de informações sobre investimentos
Buffett e Abel não divulgaram a fórmula específica que é usada para avaliar o valor intrínseco da Berkshire ao cogitar um plano de recompras. Em seu lugar, os investidores acompanham a relação entre o preço das ações e o valor contábil da empresa, uma medida de como sua capitalização de mercado se compara ao valor dos ativos que possui.
Bill Stone, diretor de investimentos da Glenview Trust, investidora da Berkshire Hathaway, afirmou que a última vez em que Buffett fez recompras foi quando as ações eram negociadas entre 1,4 e 1,5 vez acima do seu valor contábil em 2024.
“Com o desempenho lateral recente das ações, a avaliação em pouco mais de 1,5 vez começa a se aproximar de um nível em que as recompras podem ser retomadas”, disse Stone. “Mesmo assim, o entendimento de Greg Abel sobre seu valor intrínseco em comparação com outros usos de capital pode diferir da simples relação preço/valor contábil.”
As reservas da Berkshire em dinheiro e bônus de curto prazo do Tesouro dos EUA subiram para US$ 373 bilhões no fim de 2025. É um recorde se for excluído o valor da dívida do governo dos EUA que ela tinha comprado, mas ainda não quitara.
Essa quantia não é uma reserva infinita que Abel pode destinar para investimentos ou recompras de ações. Grande parte dela é mantida para cobrir passivos que as subsidiárias da Berkshire na área de seguros podem ter de pagar no futuro.
A empresa também mantém grandes níveis de dinheiro vivo para atender a exigências regulatórias, dado que suas seguradoras investem em ações negociadas em bolsa, e não em investimentos que os reguladores consideram menos arriscados, como bônus do governo ou títulos lastreados em ativos.
A Berkshire não respondeu a um pedido de comentários.
Fonte: Valor Econômico
