O ataque de Donald Trump ao Irã causará um impacto maior nas economias europeias e asiáticas do que na dos próprios Estados Unidos, que será protegida do golpe, em parte, pelo tamanho de sua indústria local de fontes de energia, segundo analistas.
Em termos líquidos, os EUA são exportadores de gás natural desde 2017 e de petróleo desde 2020, segundo dados oficiais, de forma que seu próprio setor de energia se beneficia da alta das cotações, apesar de que o aumento na gasolina será um grande golpe para o consumidor médio americano.
Em contraste, as economias europeias e asiáticas que dependem de importações de fontes de energia, deparam-se com a perspectiva de um aumento muito maior na inflação, em parte porque os preços do gás natural nesses países, que já deram um salto, são mais voláteis do que nos EUA – e porque o combustível é uma fonte crucial em seus mercados locais de energia.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/A/D/Xt2TIuQkuymtXLLljY8w/arte11esp-102-economia-a18.jpg)
“Os EUA estão protegidos, mas não imunes aos danos”, disse James Knightley, do ING Bank. Isso porque os EUA não sofrerão interrupções na oferta de commodities-chave como se verá em outros lugares, argumentou.
David Aikman, chefe do National Institute of Economic and Social Research (Niesr) concorda. “Todos vão estar em pior situação, porque o fundamento [econômico] disso é que você terá tornado um fator-chave de produção mais caro”, disse. “Mas isso terá impactos desiguais nos países”.
O petróleo Brent deu um salto para quase US$ 120 na segunda-feira, mas recuou para menos de US$ 90 após Trump sugerir que a guerra acabaria em breve. Ainda assim, o salto em relação aos preços de antes da guerra é superior a 30%, enquanto os preços do gás europeu encerraram a semana passada em alta de 70%.
A volatilidade continua sendo impulsionada pelo medo quanto a uma interrupção prolongada nos embarques que passam pelo Estreito de Ormuz, uma artéria fundamental para o tráfego de fontes de energia, e pela redução da produção em outros países do Oriente Médio.
Caso os preços se mantenham em patamares mais altos, isso vai empurrar a inflação para cima, restringir o poder de compra dos consumidores e prejudicar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) das economias pelo mundo. Os bancos centrais podem se ver forçados a manter as taxas básicas de juros por mais tempo ou até elevá-las, ao mesmo tempo em que os governos se depararão com mais pressões no campo fiscal se decidirem intervir nos mercados de energia para amortecer o impacto nos eleitores.
Mudanças nos preços da energia atuam como um “mecanismo poderoso de redistribuição de renda entre os países””, disse Qian Wang, economista-chefe para a região da Ásia-Pacífico na gestora de investimentos Vanguard. Os exportadores de petróleo pouparão uma maior parte do que arrecadarem a mais, mas os consumidores tendem a cortar os gastos de imediato e os mercados financeiros, a sofrer um tombo, de forma que a demanda mundial será prejudicada.
A gravidade do impacto dependerá não apenas das altitudes que os preços venham a atingir, mas também de quanto tempo permanecerão nesses patamares e do que os governos tentarão fazer para aliviar o peso sobre os consumidores.
O aumento nos preços do gás superou o do petróleo. Isso terá custos para economias europeias como a Itália, Alemanha e Reino Unido, que dependem muito das importações de gás.
Uma análise sobre 15 países feita pela Oxford Economics indica que o salto nos preços da energia deixará sua maior marca na Itália, onde a inflação no quarto trimestre de 2026 poderia ser mais de 1 ponto percentual maior do que indicavam as projeções prévias da firma de consultoria.
Todos vão estar em uma pior situação porque a guerra tornou um fator-chave de produção mais caro”
A região do euro como um todo e o Reino Unido terão um aumento de mais de 0,5 ponto em relação à inflação que vinha sendo projetada até agora. Em contraste, a inflação dos EUA no quarto trimestre será impulsionada em apenas 0,2 ponto, enquanto o Canadá será o menos afetado, de acordo com a análise.
China, Índia e Coreia do Sul são grandes importadoras do petróleo e gás do Golfo Pérsico, o que também os deixa vulneráveis. A China, por exemplo, importa entre 70% e 75% do seu consumo de petróleo. Uma grande parte de suas importações provenientes do Oriente Médio passa pelo Estreito de Ormuz.
A China, entretanto, pode recorrer a seus grandes estoques de petróleo e pressionar as refinarias a suspenderem as exportações para proteger os suprimentos do país. Também tem a opção de recorrer às importações russas.
Wang argumentou que o governo chinês também pode ter condições de intervir para limitar a transmissão do preço do petróleo para o da gasolina no varejo e que uma inflação um pouco mais alta pode até ser bem-vinda, tendo em vista a persistente “pressão deflacionária” no país.
A alta do dólar que se seguiu ao início dos ataques dos EUA também pode aliviar parte da pressão de valorização sobre o yuan.
Grandes exportadores de fontes de energia, como Noruega e Canadá, terão efeitos “mais inequivocamente positivos”, uma vez que se beneficiam dos preços mais altos e também conseguem evitar as ameaças à produção e à receita enfrentadas pelos fornecedores do Oriente Médio, como o Catar, segundo analistas da Capital Economics.
A revolução do petróleo de xisto transformou os EUA em uma superpotência energética nos últimos 20 anos e no maior produtor de petróleo e gás do mundo.
Dessa forma, os produtores americanos vão colher os benefícios dos preços mais altos, em especial se o conflito se prolongar e os preços permanecerem altos.
O mercado acionário dos EUA tem sofrido menos pressão que o de alguns países na Europa e na Ásia desde o início do conflito, sinal de que alguns investidores apostam em um impacto menor no PIB da América do Norte do que em outras grandes economias.
A alta produção dos EUA oferece uma proteção parcial para os consumidores, em especial no caso do gás natural, cujo mercado global é mais fragmentado. Enquanto os preços do gás natural europeu e asiático decolaram na semana passada, os preços nos EUA subiram apenas um pouco.
Além disso, a falta de capacidade ociosa de liquefação e exportação de gás natural liquefeito (GNL) limitará a capacidade dos produtores dos EUA de exportar gás a outros mercados, o que ajudará a conter os preços americanos do gás, disse David Oxley, da Capital Economics, descrevendo os EUA como uma “ilha do gás”.
Já no caso do petróleo, cujo mercado é mais global, os consumidores americanos provavelmente sentirão o aperto. Na semana passada, o West Texas Intermediate (WTI), referência do petróleo dos EUA, registrou seu maior aumento semanal na história dos registros, que remontam a 1983.
Isso provocou um salto nos preços da gasolina nos EUA, que atingiram US$ 3,54 por galão (3,785 litros) ontem, o maior nível desde 2024, de acordo com o Automóvel Clube Americano, acima dos US$ 2,98 de uma semana antes.
Na segunda-feira, os preços do petróleo deram um salto, chegando a atingir máximas intradiárias de US$ 119,50 para o tipo Brent, referência internacional, e de US$ 119,48 para o WTI. Ambos, porém, fecharam com altas mais modestas, em US$ 98,96 (+6,76%) e US$ 94,77 (+4,26%) após sinalizações de que os países estavam prontos para apoiar a oferta com a libertação de reservas. Depois, com as declarações e Trump de que a guerra estava “praticamente concluída”, as cotações de ambos voltaram a recuar ontem, para US$ 87,80 e US$ 83,45, respectivamente, ainda bem acima dos patamares anteriores à guerra.
O Goldman Sachs advertiu que, se a crise se arrastar durante todo o mês de março, os preços do petróleo “provavelmente” excederão seus picos de 2008 e 2022, quando o Brent ultrapassou os US$ 147 por barril e a gasolina passou os US$ 5 por galão, respectivamente.
O aumento dos preços representa um risco para Trump e ameaça piorar uma crise inflacionária que se tornou seu maior ponto fraco perante os eleitores antes das importantes eleições de meio de mandato em novembro. Muitos estudos mostram que o aumento dos preços da gasolina impacta com mais força os americanos pobres, pois eles tendem a trabalhar em empregos que exigem mais viagens rodoviárias e gastam uma proporção maior da renda com combustível.
Os livros de economia indicam que as autoridades monetárias podem “ignorar” os aumentos nos preços da energia, com base na ideia de que eles desencadeiam aumentos apenas temporários nos preços ao consumidor, mas esse ponto de vista perderia força se as expectativas de inflação das famílias já tiverem se aprofundado muito. Ao reduzir os orçamentos das famílias, os aumentos nos custos da energia acabam resultando em uma demanda mais fraca, o que pode ajudar a conter a inflação.
No entanto, a recente experiência com os altos índices de inflação depois da pandemia de covid-19 e da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia fez com que as expectativas de inflação das famílias ficassem mais altas em alguns países. Os trabalhadores pediram acordos salariais mais altos no período pós-pandemia e pós-invasão russa e as empresas reformularam suas estratégias de preços.
Desse modo, segundo Michael Saunders, da Oxford Economics, agora, a “cartilha atualizada” das autoridades monetárias passou a ser que, se houver um choque nos preços da energia, “esteja pronto para conter os riscos das expectativas inflacionárias mais altas e da inflação persistente por meio de uma linguagem mais dura e de uma política monetária mais apertada ou de cortes nos juros menores do que os esperados”.
Isso já se refletiu nos mercados monetários. Os investidores agora não apenas preveem a manutenção dos juros básicos pelo Banco da Inglaterra em 19 de março, em 3,75%, como também passaram a indicar apenas uma redução até o fim de 2026, e ainda assim nem esse corte é levado em conta integralmente nos preços. Antes do conflito, os contratos de swaps sinalizavam totalmente dois cortes de 0,25 ponto ainda em 2026.
Enquanto isso, na região do euro, os investidores já começam a levar em conta nos preços a possibilidade de uma elevação dos juros básicos do Banco Central Europeu em resposta à nova ameaça de inflação, embora as autoridades insistam em dizer que é cedo demais para tirar conclusões.
Nos EUA, o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, já havia indicado que a instituição provavelmente manteria as taxas no curto prazo – uma posição que provavelmente será reforçada diante do potencial de um aumento inflacionário.
As previsões de corte de juros no mercado futuro perderam força. Agora, os operadores apostam em um a dois cortes em 2026, em vez de dois a três, com o primeiro esperado para setembro, em vez de julho.
“No nosso ponto de vista, o Fed […] tem tempo para ‘esperar para ver’ no que se refere ao Irã e aproveitará isso ao máximo”, disse Krishna Guha, chefe da área de economia da Evercore ISI. (Tradução de Sabino Ahumada) (Com agências internacionais)
Fonte: Valor Econômico
