Por Fábio Couto e Gabriela Ruddy — Do Rio
01/03/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
As indicações do governo para o conselho de administração da Petrobras sinalizam que o Planalto pretende assumir protagonismo maior nas decisões da estatal, especialmente sobre preços de combustíveis e investimentos, de acordo com especialistas ouvidos pelo Valor. Os nomes, em geral, foram bem aceitos pela capacidade técnica, mas a percepção é de um perfil mais político do que empresarial. Os nomes passarão pelos crivos internos da Petrobras antes de serem eleitos em assembleia prevista para abril. As checagens internas da estatal incluem verificações de conformidade e adequação.
No fim da noite da segunda-feira (27), o Ministério de Minas e Energia (MME) anunciou o nome do atual secretário de petróleo, gás natural e biocombustíveis da pasta, Pietro Mendes, e ratificou o de Jean Paul Prates, atual presidente e já integrante do conselho. Além deles, foram indicados os nomes de Wagner Victer, Suzana Kahn, Carlos Eduardo Turchetto Santos, Vitor Eduardo de Almeida Saback, Eugênio Tiago Chagas Cordeiro e Teixeira e Sérgio Machado Resende.
Para o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, os nomes indicados vieram em linha com o esperado, pois, apesar de terem componentes políticos, também têm experiência no setor. “Essa é uma diferença em relação aos governos anteriores do PT, em que a questão política era mais forte. Dessa vez, os nomes são de executivos que têm alguma ligação com o setor de petróleo e gás, mas que, em maioria, fizeram carreira em órgãos públicos”, diz. O consultor e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) David Zylbersztajn afirmou que os nomes que ele conhece – Wagner Victer, Suzana Kahn e Jean Paul Prates – são conhecedores do setor de petróleo e qualificados para exercer os cargos. “Os três podem contribuir, têm grande experiência no setor, não têm nenhum estranho no ninho”, disse Zylbersztajn.
Para David Zylbersztajn, não há “estranho no ninho” entre nomes indicados pelo governo ao conselho da estatal
A indicação da vice-diretora da Coppe-UFRJ, Suzana Kahn, que já participou do primeiro mandato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, significa um claro aceno para a transição energética, especialmente diante das declarações constantes de Prates de que a empresa precisa elevar investimentos em projetos ligados à descarbonização, segundo as fontes ouvidas. Caso seja eleita, Suzana Kahn seria uma das duas mulheres do conselho, junto com Rosângela Buzanelli. A atual composição do conselho conta com duas mulheres: Buzanelli e Iêda Cagni.
Para uma fonte que pediu reservas, é possível que o Comitê de Elegibilidade (Celeg) da Petrobras faça ressalvas ao nome de Victer, que foi presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) durante a gestão do ex-governador Sérgio Cabral no Estado do Rio, além de ter atuado como secretário estadual de energia, indústria naval e petróleo em governos anteriores. Cabral foi preso por envolvimento nos escândalos da Operação Lava-Jato. Já a indicação do empresário Carlos Eduardo Turchetto Santos, executivo do setor sucroalcooleiro, é considerada positiva. Ele é CEO da Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA) e, por isso, vai ter ressalvas a eventuais alterações na política de preços da Petrobras que afete a indústria de biocombustíveis, avalia uma fonte.
Para um especialista que falou na condição de anonimato, a escolha de Pietro Mendes para presidir o conselho da Petrobras causa estranheza. Isso porque apesar de ser conhecido no mercado – ele é servidor de carreira da ANP, cedido ao MME – Mendes não tem experiência empresarial e ser colocado no comando do conselho da maior empresa do país, segundo a fonte, é sinal claro da intenção do governo de atuar mais diretamente na empresa.
Da mesma forma, o viés político estaria presente na indicação de Victer para o conselho, dado ao seu perfil, ainda que conhecedor do mercado. Porém, outro executivo do setor, que também falou na condição de anonimato, considerou adequada a escolha de Mendes para presidir o conselho da companhia, por ser um técnico de carreira com mais de 20 anos de atuação no serviço público.
A percepção de maior ação política sobre a Petrobras pode ter se tornado algo mais concreto após a fala do ministro Alexandre Silveira, segundo a qual o governo vai atuar “de forma contundente” para que a Petrobras “exerça papel social previsto na Constituição e na Lei das Estatais”, respeitada a autonomia e a governança da companhia. Para Silveira, a Petrobras deverá ser mais “transparente” com a política de preços.
As indicações do MME, entretanto, não agradaram a Federação Única dos Petroleiros (FUP), para quem a lista de indicados ao conselho traz nomes ligados ao bolsonarismo, ao mercado financeiro e favoráveis às privatizações. “O MME, de forma unilateral, elaborou a lista de nomes para o CA [conselho] da Petrobras sem discussão prévia”, disse em comunicado o coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar.
O conselho de administração da Petrobras tem hoje onze integrantes, sendo seis indicados pelo acionista controlador, que é a União. Uma dessas vagas é ocupada pelo CEO, Jean Paul Prates. As demais cinco vagas são distribuídas entre a representante dos empregados, Rosângela Buzanelli, e os indicados dos acionistas minoritários, Marcelo Gasparino, José João Abdalla Filho, Marcelo Mesquita e Francisco Petros.
Os últimos dois foram eleitos pelo voto em separado da União em abril de 2022. Já Gasparino e Abdalla Filho foram escolhidos pelo mecanismo de voto múltiplo em agosto passado e devem passar por nova eleição. A Petrobras ainda não confirmou os indicados pelos minoritários para a próxima assembleia. A expectativa é que, com a convocação do voto múltiplo pelos acionistas minoritários, o governo consiga eleger apenas seis dos oito executivos que indicou.
Fonte: Valor Econômico


