O investidor estrangeiro já deixou claro que voltou a olhar para o Brasil com bons olhos. Ainda assim, chama atenção o entusiasmo de alguns players relevantes do mercado — caso do Goldman Sachs, que está comprado em “kit Brasil”. O banco já recomendava ações brasileiras e o real. Agora, além de reiterar essa visão, decidiu ir além e abriu posição aplicada nos juros domésticos.
Em nota enviada a clientes, a equipe de estrategistas do Goldman, comandada por Kamakshya Trivedi, revela ter aberto uma posição aplicada no DI com vencimento em janeiro de 2028, ou seja, uma aposta na queda da taxa, com alvo de 11,60%. “Há um ‘gap’ de cerca de 0,5 ponto entre o nível de juros atualmente precificado nesse contrato e o nosso modelo de valor justo”, dizem os estrategistas.
Eles lembram que, no geral, o mercado doméstico de juros mostra que posições aplicadas próximas ao início de um ciclo de flexibilização monetária tendem a superar as taxas a termo (forward), já que os ciclos de cortes normalmente são mais profundos do que o precificado no momento em que eles de fato começam.
A posição otimista com o mercado de juros, assim, casa com o tom positivo que o banco já sustentava em relação a outros mercados. No câmbio, a equipe comandada por Trivedi avalia que o real deve continuar a ser apoiado pelos preços das commodities e pelo diferencial de juros ainda bastante elevado.
“O início do ciclo de cortes deve ter impacto limitado sobre o real neste estágio: os juros reais permanecerão elevados; o BC provavelmente conduzirá os cortes com cautela; e o desempenho do câmbio também é influenciado por outros fatores, incluindo o dólar global e a precificação do ciclo econômico internacional”, apontaram os estrategistas do Goldman no fim de janeiro.
Para eles, contudo, o possível aumento de volatilidade depois do Carnaval deve ser relevante para as métricas de “carry-to-vol” (carrego ajustado pela volatilidade), ao se ter em vista a perspectiva de retomada mais forte das discussões eleitorais nos mercados.
Quanto à bolsa, o Goldman Sachs mantém uma recomendação “overweight” (exposição acima da média do mercado) para as ações brasileiras, ao enxergar potencial adicional de valorização, “já que quase metade dos ganhos deste ano veio de setores ligados a commodities, que podem continuar firmes no curto prazo”.
Para o banco, os setores cíclicos domésticos ainda parecem baratos: tirando commodities, as ações brasileiras negociam a 9,7 vezes lucro (P/L), o que, na avaliação do Goldman Sachs, “não reflete plenamente o potencial de alta associado ao início do ciclo de cortes de juros, que deve começar na próxima reunião de política monetária, em março”.
Os profissionais lembram que, historicamente, as ações brasileiras têm um desempenho robusto em ciclos de flexibilização monetária. Desta vez, contudo, eles avaliam que a magnitude da valorização “pode ser limitada pelo aumento da volatilidade à medida que o mercado se aproxima das eleições gerais do quarto trimestre de 2026”.
Na prática, o banco monta um “kit Brasil” completo: aplicado na curva, construtivo com o real e “overweight” em bolsa, ainda que esteja de olho em um aumento da volatilidade com o calendário eleitoral.
Fonte: Valor Econômico
