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Desde o início da era de globalização pós-Guerra Fria, uma sucessão de choques alimenta profecias sombrias sobre seu fim. Os ataques de 11 de setembro de 2001, a crise financeira mundial de 2008, os lockdowns da covid-19, a invasão da Ucrânia pela Rússia: cada choque desses trouxe o temor de que as engrenagens do comércio internacional emperrariam.
A cada vez, o sistema sobreviveu e até prosperou. As cadeias de suprimento continuaram a circundar o mundo, enquanto a tecnologia digital abriu caminho para novas formas de globalização.
Agora, o comércio mundial depara-se com seu maior desafio até hoje, a rivalidade entre as grandes potências EUA e China. Em discurso em 2019, Kevin Rudd, ex-premiê da Austrália, alertou para os riscos de uma redução nos laços econômicos entre os dois países. Um “mundo totalmente dissociado”, disse ele, enfraqueceria “as premissas do crescimento global dos últimos 40 anos, prenunciando o retorno de uma cortina de ferro entre Oriente e Ocidente”.
Passados cinco anos, a disputa entre EUA e China agora representa uma ameaça genuína à globalização. Pequim e Washington vêm se valendo de subsídios, tarifas e controles sobre a exportação para competir por minerais cruciais e vantagens tecnológicas em todo tipo de setor, desde os de semicondutores, energias limpas e telecomunicações até os de veículos elétricos (VEs), inteligência artificial e computação quântica.
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“Estes são tempos preocupantes para o comércio global”, disse Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) em julho. “Em meio às tensões geopolíticas e ao pano de fundo da crise climática, vemos um aumento do protecionismo.” Após anos de discussões quanto a um desacoplamento, “o comércio exterior pode estar começando a se fragmentar ao longo de linhas geopolíticas”, alertou ela.
As autoridades nos EUA agora se sentem pressionadas a ser cada vez mais agressivas e a cortar laços econômicos. “Entre os que falam sobre medidas direcionadas à China, ninguém com ambição quer estar na metade moderada”, disse Larry Summers, secretário do Tesouro dos EUA de 1999 a 2001. “E isso cria uma dinâmica potencialmente muito, muito perigosa.”
Novas rachaduras vêm aparecendo na economia mundial, à medida que as tubulações que sustentam o comércio internacional – as redes que transportam cargas, commodities e informações – se tornam cada vez mais politizadas. Ainda assim, apesar dessas pressões políticas, até agora o comércio mundial tem mostrado uma resiliência surpreendente.
Vários estudos enfatizam que, mesmo com a guinada dos EUA para o protecionismo e as guerras tarifárias contra a China, as evidências de uma ruptura nos investimentos e no comércio não são, por ora, conclusivas.
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Economistas da OMC dividiram os países do mundo em dois blocos geopolíticos, um centrado nos EUA e o outro na China, e estimaram que, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, o comércio de bens entre ambos cresceu apenas 4,2%, menos que dentro deles. Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) também detectaram menos comércio e investimento estrangeiro direto entre os blocos geopolíticos do que dentro deles, mas descrevem as diferenças até agora como relativamente pequenas.
“O grau de pessimismo em relação à globalização depende muito da métrica que se utiliza”, diz Simon Evenett, professor de geopolítica e estratégia da IMD Business School, na Suíça. O comércio global de bens se recuperou do choque da covid-19, e os fluxos de dados e serviços transfronteiriços, em particular os serviços digitais, apresentam bom desempenho.
Essa resiliência se deve a dois fatores: a fluidez das multinacionais em se adaptar e o pragmatismo de governos que, por agora, evitaram escolher lados. Em desafio à turbulência geopolítica, vários países, em especial as economias de renda média, têm servido de lastro contra uma maior instabilidade.
“Diferentemente dos primeiros anos da Guerra Fria, um conjunto de países não alinhados vem ganhando importância rapidamente e servindo como ponte entre blocos”, concluiu a pesquisa do FMI. “O surgimento de conectores provavelmente trouxe resiliência ao comércio e à atividade globais.”
No momento, a rivalidade entre as grandes potências vem tomando a forma de conflitos menores em diversos setores de importância estratégica. Uma batalha já antiga gira em torno à tecnologia móvel 5G, na qual os EUA têm pressionado aliados a excluir a produtora chinesa Huawei de suas redes de comunicação por receios quanto à possibilidade de espionagem, com resultados variados.
Austrália e Japão proibiram a Huawei. O Reino Unido, inicialmente entusiasta da empresa, fez meia-volta e seguiu o exemplo de ambos. Países da União Europeia (UE) e da Ásia permitiram equipamentos da Huawei em seus sistemas em diferentes graus.
Os VEs são outra fonte de tensão. Por meio de tarifas e subsídios maciços, o governo de Joe Biden tentou criar um mercado separado na América do Norte de VEs. No início do mês, o Canadá cedeu à pressão de Washington e anunciou que igualaria a alíquota das tarifas americanas sobre os VEs chineses, de 100%.
Os chamados materiais críticos são uma terceira arena para os dois lados. A transição verde deu origem a uma corrida geopolítica pelo fornecimento de materiais como terras-raras, lítio e níquel. A China tem sido a mais agressiva e equipada nessa batalha.
No entanto, as forças de mercado e os governos mais pragmáticos continuam sendo fortes motores contra a fragmentação.
As potências comerciais vêm protegendo suas apostas e tomando decisões caso a caso. Nos VEs, por exemplo, a UE quer colaborar com as fabricantes chinesas, em vez de repeli-las, como fizeram os EUA. A UE impôs tarifas temporárias bem mais baixas sobre a importação de VEs da China e está incentivando as empresas chinesas a produzir na Europa. Países de renda média – como Brasil e Turquia – buscam ativamente investimentos chineses no setor de VEs.
Recentemente, Índia, Indonésia e Brasil impuseram tarifas sobre importações da China em setores como siderúrgico e têxtil, mas permanecem integrados a cadeias de suprimentos, dominadas pela China, de outras mercadorias. A Austrália, embora uma aliada dos EUA em política externa, retomou as vendas de carvão para a China após Pequim levantar um bloqueio a essas exportações.
Quanto aos minerais críticos, monopolizar o fornecimento de uma commodity de forma permanente é difícil, em especial aquelas com grande volatilidade. A corrida mundial pelo lítio aumentou a oferta e provocou forte queda nos preços, além de estimular pesquisas em baterias alternativas.
O poder das forças de mercado também resiste à desintegração das cadeias de suprimentos. O executivo-chefe da empresa de transporte Flexport, Ryan Petersen, diz que seu setor está aprendendo a se adaptar às mudanças geopolíticas. “Estar preparado para qualquer mudança que surja é mais valioso do que tentar ser um melhor previsor [das políticas]”, diz.
Países como México e Vietnã se tornaram intermediários entre os EUA e a China, o que pode ser menos eficiente, mas mantém a viabilidade das rotas de suprimento. As importações americanas provenientes China caíram, mas a importação de países que dependem de insumos chineses aumentou.
“Haverá mais duplicações das cadeias de suprimentos”, diz Emily Kilcrease, pesquisadora do centro de estudos Center for a New American Security. “Mas é possível que isso signifique mais competição, o que pode ser algo positivo.”
A outra esfera onde as tensões entre os EUA e a China estão se manifestando é na infraestrutura que conecta a economia mundial. As redes de comércio e comunicações – rotas marítimas, gasodutos e oleodutos, cabos submarinos e satélites -, anteriormente neutras, foram engolidas pela política.
“Os governos estão reconhecendo cada vez mais que a segurança se estende do fundo do mar até o topo dos céus”, diz Adrian Cox do Deutsche Bank. “A infraestrutura em torno dos pontos fracos da economia mundial é tipicamente remota, transfronteiriça, fisicamente frágil, difícil de acessar e difícil de reparar, e com muito pouca supervisão regulatória ou legal.”
Para comunicações no fundo do mar e no espaço, os governos relutam cada vez mais em depender de países hostis e empresas privadas instáveis. O lado positivo é que, assim como ocorre com cadeias de suprimentos duplicadas, a construção de múltiplos sistemas de comunicação pode criar capacidade extra e resiliência.
Com a intensificação da rivalidade entre os EUA e a China, os sistemas de governança estão sob forte pressão. Conseguirão os governos trabalhar juntos para impor regras que evitem a fragmentação do sistema? Ou eles na verdade estão acelerando isso ao criar blocos comerciais autônomos?
A resposta curta: provavelmente nenhum dos dois. O multilateralismo é fraco. Os EUA estão minando a OMC ao citar uma brecha na segurança nacional para quebrar as regras à vontade. A UE ganhou uma disputa contra a Indonésia sobre a proibição da exportação de níquel, mas o sistema disfuncional de solução de disputas da OMC atrasou o cumprimento.
Mas isso não significa que blocos comerciais regionais ou geopolíticos começarão a definir as regras do comércio. Os EUA falam bem sobre a construção de alianças, mas a toxicidade política dos acordos comerciais em Washington impede que o país ofereça acesso ao mercado para incentivar os países a se juntarem. A Estrutura Econômica do Indo-Pacífico, a principal iniciativa dos EUA na Ásia-Pacífico, é amplamente considerada como um sistema de penalidades sem incentivos.
Existem grupos mais informais, como o G7, dominado pelos EUA, e os Brics, liderado pela China (cujos membros originais eram Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) de países de renda média. Mas fora de algumas questões específicas, como as sanções do G7 à Rússia, eles não conseguem encontrar consenso suficiente para tomar uma ação coletiva.
O futuro de médio prazo para a globalização parece definido: uma luta entre Washington e Pequim por preeminência, ou pelo menos resiliência, que constantemente ameaça sobrepor a eficiência econômica pela segurança nacional.
O contrapeso virá do agnosticismo geopolítico de outros governos e da infinita criatividade dos gerentes de cadeias de abastecimento das multinacionais. Essas pressões liberalizantes compensatórias venceram no passado. Mas as forças centrífugas que separam o sistema comercial são, de longe, seu oponente mais feroz até agora.
Fonte: Valor Econômico

