Os fundos de private equity estão mantendo mais tempo suas investidas no portfólio como um reflexo direto de mais desafios para os desinvestimentos e maior seletividade das gestoras. Se historicamente esses fundos mantinham as empresas no portfólio por um tempo médio de quatro a cinco anos, o prazo já subiu para mais de seis anos.
Estudo da consultoria Bain & Company, em parceria com a Abvcap, mostra que no intervalo entre 2018 e 2022 a média de manutenção dos ativos na carteira era de cinco anos e três meses, prazo que subiu para o seis anos e três meses entre 2023 e 2025. O levantamento, enviado com exclusividade ao Valor, foi o primeiro da Bain focado no mercado brasileiro. O levantamento global, por sua vez, está em sua 17ª edição.
Para se ter uma dimensão, em 2020 a fatia de empresas desses fundos investidas há mais de seis anos era de 24% do total. No ano passado, havia subido para 29%. Na contramão, as empresas investidas há menos de dois anos viram a participação cair de 35% do total em 2020 para 22% em 2025, o que também reflete a maior seletividade na hora dos investimentos.
O responsável por private equity da Bain & Company na América do Sul, Gustavo Camargo, diz que hoje o estoque de investimentos dos fundos é grande. Isso se repete em outras geografias, não é exclusividade do Brasil. Segundo ele, os investimentos demonstraram melhora ano passado, tendência que deve se manter em 2026.
A estimativa do executivo é que as saídas pelos fundos também cresçam, não só por conta de um mercado mais positivo mas também por decisão estratégica de algumas gestoras. Por fim, como resultante, se espera a retomada das captações.
“Essa é uma situação do mercado global, que está com dificuldade de fazer desinvestimentos e retornar capital. Isso trava as engrenagens seguintes”, afirma Camargo em entrevista ao Valor. Ele diz que o dilema dos gestores no momento está entre segurar os investimentos, focando na geração de valor e aguardando uma janela de venda positiva mais à frente, ou vender ativos, mesmo que o preço não esteja no patamar desejado. Camargo frisa que existe intenção dos investidores de ter exposição no Brasil, não só por conta da necessidade de diversificação regional, mas também pelos retornos esperados.
Historicamente fundos mantinham empresas no portfólio por quatro a cinco anos; esse prazo subiu para mais de seis anos
A dificuldade de saída dos investimentos também tem sido um dos principais desafios enfrentados pelos private equity que atuam no Brasil, conforme estudo da Bain. No ano passado foram 11 vendas de ativos, o menor número em dez anos. As saídas representaram apenas 4% do portfólio dos fundos, a menor fatia desde 2021, de acordo com essa métrica.
A despeito dos desafios, o número de firmas no país está estável desde 2022, com 63 casas. O pico ocorreu em 2021, na pandemia, exatamente no período de ampla liquidez global. Camargo aponta que as gestoras de private equity que operam no Brasil aprenderam a lidar com a economia local e seu juro alto, usando pouco a alavancagem em suas compras, distribuindo ao longo do tempo os aportes e as retiradas de capital. Os fundos também se especializaram em setores, focando suas empresas investidas em crescimento de receitas e melhoria de margens.
Globalmente, em 2025 o private equity voltou a ganhar tração e o movimento deverá seguir de recuperação ao longo de 2026, conforme a 17ª edição do Global PE Report da Bain & Company. O estudo sinaliza, contudo, que ainda é necessária cautela.
Um dos pontos que o estudo traz é que, apesar do aumento dos desinvestimentos pelos fundos no âmbito global, os retornos distribuídos aos investidores continuam abaixo do esperado, o que limita a plena retomada dessa indústria. O principal indicador – distribuições aos cotistas como percentual do valor patrimonial líquido – permanece abaixo de 15% há quatro anos consecutivos, mostra o levantamento, um recorde para o setor. Segundo a Bain, esse “engarrafamento de liquidez” ocorre em um momento em que a indústria acumula, globalmente, cerca de 32 mil empresas ainda não vendidas, avaliadas em aproximadamente US$ 3,8 trilhões.
A tendência mundial também é de mais tempo dos investimentos nas carteiras. Nos fundos o prazo médio de permanência dos ativos até o desinvestimento está em torno de sete anos, acima da média histórica de cinco a seis anos entre 2010 e 2021.
Fonte: Valor Econômico
