Em meio ao bom momento dos ativos brasileiros, diversos fundos locais deram início ao mês de dezembro com apostas otimistas na queda de juros reais e nominais, na valorização do real e na alta do Ibovespa. Ainda que a proximidade das eleições e a fragilidade fiscal do país continuem no radar, a iminência dos cortes de juros pelo Banco Central (BC) e o ambiente global contribuem para que a exposição ao Brasil siga nas carteiras das principais gestoras de recursos locais.
Casas como Kinea, Ibiuna, Legacy, Occam e Opportunity manifestaram em suas cartas mensais a manutenção de posições construtivas em Brasil em seus portfólios. Vale apontar que, até o momento, poucas gestoras já publicaram seus relatórios de gestão referentes ao mês de novembro, e a lista de gestoras com apostas otimistas no mercado doméstico deve aumentar nos próximos dias.
No acumulado do ano, o IFHA — índice da Anbima que mede o desempenho dos fundos multimercados — registra valorização de 14,94%, contra um CDI de 12,96% no mesmo período.
A Kinea nota que, do ponto de vista da moeda, o real brasileiro tem exibido um carrego ajustado à volatilidade (“carry-to-vol”) crescente em relação aos pares comparáveis — México, Chile, Colômbia e África do Sul. Na bolsa, um eventual fechamento da curva de juros real poderia destravar um grande potencial de valorização às ações locais, o que dependeria de uma proposta de ajuste fiscal vista como viável.
“Uma proposta fiscalista crível — capaz de comprimir a parte longa da curva de juros — tem potencial de deslocar toda a estrutura de preços dos ativos reais. Se essa muralha for reforçada, a valorização da bolsa brasileira pode ser significativa”, aponta a gestora. Segundo os cálculos da Kinea, o potencial de valorização do Ibovespa poderia alcançar 52% caso o próximo governo seja “fiscalista”, enquanto o potencial de desvalorização de uma agenda expansionista de gastos poderia chegar aos 33%.
Nos juros, a Kinea vê possibilidade de um ciclo de cortes de extensão mais profundo do que o precificado. “Por fim, na inflação, hoje o mercado precifica que esta irá convergir para 3,3% já em meados de 2026. Estamos comprando essa inflação como proteção para nossas posições para quedas de juros no país. Afinal, se o mercado estiver certo de que a inflação irá para tão perto do centro da meta, o espaço para corte do BC deverá ser maior do que os 2,5 pontos que estão na curva de juros”, apontam.
Já a Ibiuna avalia que o nível da Selic em 15%, contracionista por período bastante prolongado, levou a gradual desaceleração da economia, apreciação do câmbio, queda de inflação corrente e lenta convergência de expectativas de inflação à meta no horizonte de 18 a 24 meses. “Em resultado, é possível vislumbrar a proximidade do início do ciclo de queda de juros. Os mercados precificam um ciclo gradual começando no primeiro trimestre de 2026 e que traria a Selic para 12,25% ao fim de 2026”, diz.
“Dado o nível elevado do juro real, o maior risco parece ser de quedas mais rápidas ou um ciclo maior do que o atualmente implícito nos preços de mercado”, aponta a gestora, ao ponderar que a combinação de juros parados nos EUA e em queda no Brasil deve erodir aos poucos o suporte recente ao real em 2026, especialmente diante de um ciclo eleitoral que pode trazer volatilidade. “Isto, junto com a perspectiva de expansão fiscal à medida que se aproxima a eleição presidencial, justifica a percepção de que o ciclo de redução de juros deverá ser conduzido com cautela pelo BC brasileiro.”
Segundo a carta, as principais posições do fundo macro da Ibiuna são “aplicadas” (que ganham com a queda) em juros nominais; aplicadas em emergentes selecionados e proteção tática via posição “tomada” (que ganha com a alta de juros) nos EUA. No livro de moedas, a gestora mantém exposição ao tema da fraqueza do dólar via moedas latino-americanas e exposição comprada na bolsa brasileira e em emergentes selecionados.
Para a Legacy, o início do ciclo de corte de juros pelo BC se dará entre janeiro e março, a depender da evolução dos próximos dados de atividade e inflação. E, do ponto de vista político, a reinserção da pauta de segurança pública no debate levou a uma melhora para a perspectiva de troca de governo no ano que vem, o que ficou refletido na dinâmica das pesquisas eleitorais. “Aproxima-se, também, o momento de definição das candidaturas de oposição, um marco que, potencialmente, representa upside para os preços de ativos domésticos”, aponta a equipe da casa. “Mantemos a exposição em ativos brasileiros — aplicados em juros reais e nominais, mirando a continuidade do cenário externo favorável, da iminência do início do ciclo de cortes de juros, e a boa perspectiva para o cenário eleitoral”, aponta o time de gestão da Legacy.
A Occam vê certa acomodação dos núcleos de inflação e das expectativas de mercado para o IPCA, que seguem acima da meta em todos os horizontes, e nota indicadores de atividade mistos, sem desaceleração significativa. “Este cenário indica que o BC deve manter um discurso conservador em sua próxima reunião, apenas com ajustes pontuais, buscando potencializar o efeito da restrição monetária já implementada.”
“No livro de juros local, diante da conjuntura de inflação cheia bem-comportada e das inflações implícitas em queda, mantemos a estratégia de posições aplicadas”, aponta.
O Opportunity destaca que o Brasil se aproxima do ciclo de cortes de juros e de um novo ciclo eleitoral e que há sinais de perda de tração da economia e continuidade no processo de convergência da inflação. No Opportunity Total, mantém posição comprada em NTN-B, além de exposição seletiva em ações domésticas. No Renda Fixa Ativa, as posições aplicadas em juros no Brasil se concentram em NTN-Bs de prazo longo e em juros nominais intermediários.
A Adam Capital surge como exceção e faz um diagnóstico cauteloso do mercado local em 2026. Segundo a gestora, em 2025, a inflação brasileira surpreendeu amplamente para baixo, mas o resultado refletiu um conjunto excepcional de choques positivos de oferta.
“Não é realista supor que esse conjunto de impulsos benéficos se repetirá de forma recorrente. O balanço de riscos para 2026 é menos benigno: trata-se de um ano eleitoral, historicamente associado a maior volatilidade cambial, reprecificação de prêmios de risco e oscilações na curva de juros. Assim, ainda que a inflação corrente tenha se beneficiado de fatores externos e transitórios, a dinâmica prospectiva dependerá cada vez mais de fundamentos domésticos — em especial política fiscal, credibilidade do arcabouço macroeconômico e sensibilidade do câmbio a choques de confiança”, diz.
Fonte: Valor Econômico
