Por Liane Thedim — Do Rio
13/07/2023 05h01 Atualizado há 5 horas
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A demora no início do ciclo de cortes da Selic, a taxa básica de juros, combinada com uma inflação já em trajetória de queda, levou o ganho médio real dos fundos de renda fixa em 12 meses até junho ao maior patamar desde julho de 2017, segundo levantamento da plataforma Comdinheiro feito a pedido do Valor. O retorno acima do IPCA ficou em 8,95%. Os multimercados não foram tão longe: garantiram o maior ganho desde novembro de 2022. Mas os fundos de ações, com o rali das últimas semanas na bolsa, chegaram ao maior patamar desde junho de 2021, com retorno real médio de 14,54% em 12 meses.
Segundo Clayton Calixto, especialista de portfólio da Santander Asset, mesmo com a expectativa de início do ciclo de corte da Selic, hoje em 13,75% ao ano, em agosto, o momento ainda é muito favorável para a renda fixa. Ele destaca que a classe de fundos está agora em seu melhor ponto – em junho o IPCA caiu 0,08%, após alta de 0,23% em maio, a primeira deflação em nove meses e a menor variação para o mês desde 2017, com alta acumulada de 3,2% em 12 meses. Mas ele lembra que ainda haverá a janela de julho para bons retornos.
A instituição projeta um IPCA de 0,1% em julho, chegando a 3,81% no acumulado em 12 meses. “Não vai ser um ganho tão grande, mas ainda há uma janela”, explica. Para o ano, a projeção é de inflação a 4,9% e Selic a 12% em dezembro. “Ou seja, o ganho seguirá sendo muito expressivo”, acrescenta.
Desde o ano passado, os fundos de renda fixa vêm amargando vários meses de resgates, mas este ano a situação foi fortemente agravada pela crise do setor de crédito privado, depois dos casos rumorosos de Americanas e Light. Em 2023 até junho, a captação líquida está negativa em R$ 109 bilhões, enquanto no mesmo período de 2022 era positiva em R$ 101,9 bilhões, segundo dados da Anbima.
Na direção contrária, cresceram os títulos emitidos por bancos, principalmente as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA), cujo estoque cresceu neste ano 67% e 57%, respectivamente, de acordo com a B3. Além de não terem o risco dos papéis de empresas, são isentos de Imposto de Renda e têm cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
“O investidor se assustou, mas em maio e junho já vemos uma redução forte no volume de resgates dos fundos de crédito”, diz Calixto. Para ele, a melhora na percepção de risco por parte do investidor fará a balança começar a se inverter e o dinheiro, a sair desses produtos bancários. “Inclusive porque os bancos precisam de lastro para emitir esses títulos e isso está começando a perder fôlego.”
O movimento de retorno também é esperado para multimercados e ações. “A percepção de que o risco diminuiu vai demorar um pouco, mas, à medida que os mercados se comportem bem, essas aplicações vão receber mais recursos”, avalia Pedro Serra, chefe de pesquisas da Ativa Investimentos. Nesse cenário de “descompressão”, que inclui ainda a tramitação no Congresso do arcabouço fiscal e da reforma tributária, o Ibovespa fechou junho com alta de 9%.
De acordo com Igor Cavaca, head de asset management da Warren Investimentos, “a política monetária conservadora com nível mais alto de juros” garantiu o controle da inflação, mas levou à queda das ações, devido à expectativa de um ambiente econômico desafiador. “A perspectiva de reversão disso tem gerado expectativas positivas e valorização dos ativos de risco, especialmente ações.”
No caso dos multimercados, que investem em juros, bolsa, moedas e commodities no Brasil e no exterior, a oportunidade agora é capturar o movimento da queda dos juros no mundo, prevê Luca Spigonardo, analista da Arton Advisors. “A grande geração de resultado em 2021 e 2022 foi a subida das taxas. Bons gestores vão montar posições para capturar a queda. Vamos começar a ver mudanças nos portfólios, que vêm apresentando baixo nível de risco.” Ele explica que é preciso ter horizonte de tempo maior: “Nos últimos 11 anos, em sete os multimercados ficaram acima do CDI.”
O apetite maior por risco, porém, ainda vai demorar a chegar à massa de investidores, segundo Tatiana Guedes, head de previdência da InvestSmart, o maior escritório de assessores de investimentos da XP. “É muito característico do brasileiro entrar na bolsa quando ela já está em alta recorrente, o que não é recomendado. Mas ainda vejo o investidor muito pautado na renda fixa.”
Diretor da Comdinheiro, Filipe Ferreira frisa que é importante não cair no comodismo diante dos juros altos. “É preciso sempre estar atento à gestão da própria carteira. Muita gente espera os juros baixos para migrar para renda variável ou um multimercado e acaba perdendo o ciclo de oportunidades. Quem lá atrás, quando a inflação apontava para cima e os juros ainda estavam sem perspectiva de queda, se posicionou em fundos mais sofisticados surfou melhor essa onda.”
Fonte: Valor Econômico
