Por Álvaro Campos e Sérgio Tauhata, Valor — São Paulo e New York
15/05/2024 11h19 · Atualizado há 49 minutos
O diretor de política monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, reconheceu que “ganha-se muito, ao reduzir o ritmo”. A decisão que prevaleceu na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) foi a reduzir o ritmo de corte das taxas de juros para 0,25 ponto em lugar de manter o “guidance” de redução de 0,5 ponto. A decisão foi dividida e Galípolo foi um dos integrantes do colegiado a votar pelo corte de 0,5 p.p. que acabou não prevaleçendo. “Votar por um corte de 0,25 foi algo que cogitei em vários dos diálogos [com os colegas da diretora do BC]”, afirmou.
“Estaria hoje muito confortável em apresentar todos os argumentos de o porquê votar em 0,25, mas eu entendo que o ponto mais importante na mudança de meio para 0,25 era sinalizar um tom adicional de preocupação para o mercado para além daquilo tudo que está registrado em consenso entre os membros do Copom.” Segundo o diretor, “[não seguir o guidance], porém tinha um custo [em termos de credibilidade para a autoridade monetária]”. O diretor do BC, no entanto, ponderou haver percepções diferentes em relação a cada um dos integrantes do colegiado.
“A partir do processo de autonomia [do BC] cada diretor vai ser cada vez mais analisado individualmente no seu comportamento”, avaliou. “Realmente entendo que pode existir um peso distinto para diferentes diretores sobre o custo de largar esse guidance”, acrescentou.
Galípolo ressaltou que o trabalho dos BCs estão muito ligados à credibilidade, que depende da coerência entre “aquilo que se fala e se faz”, mas também “é uma função do tempo”. Segundo o diretor de política monetária, “os diretores que já estão há mais tempo [na autoridade] conquistaram essa credibilidade perante o mercado”. Na visão de Galípolo, “quando você ganha credibilidade, você ganha graus de liberdade, inclusive para eventualmente não entregar um guidance e, mesmo assim, não gerar uma dúvida no mercado sobre qual é a sua função de reação”. O representante do BC podenrou ser “absolutamente normal que diretores que chegaram mais recentemente, como eu sejam mais demandados para explicar [suas posições]”, disse, em referência aos questionamentos sobre os motivos pelo qual fez parte do dissenso na última reunião do Copom.
De acordo com o diretor do BC, “quem veio acompanhando todas as minhas falas não só ao longo deste ciclo de Copom, mas desde que eu entrei, dificilmente vai argumentar, que se surpreendeu com o meu voto”. Galípolo enfatizou vir “reforçando a comunicação oficial, [ressaltando] a parcimônia e serenidade, que a barra pra largar o guidance é alta, que não há uma relação mecânica entre o fiscal, a política monetária norte-americana, o câmbio e a nossa política, que é [preciso] não se emocionar com dados de alta volatilidade”.
No Brasil, a taxa a taxa terminal nas expectativas da pesquisa Focus, do BC, “subiu bastante e a desancoragem permanece ou até andou e esse é o ponto que nos incomoda”. O diretor ponderou ver “muito valor em passar essa noção de preocupação ao reduzir o ritmo, como foi proposto pelos cinco colegas que que que votaram em 0,25”. Galípolo, porém, justificou a decisão de votar pelo corte de 0,5 ponto como forma de manter a coerência diante de sua comunicação prévia.
“Realmente, do meu ponto de vista particular, me preocupava muito qual era a função ou reação que eu poderia passar ao dar um pivô e meia volta em cima de toda a comunicação que eu vinha fazendo”, disse. “Se eu quero com o tempo ganhar credibilidade, eu preciso ter coerência entre a minha fala e as minhas ações”, ponderou.
Fonte: Valor Econômico

