Por Laurence Fletcher — Financial Times
26/05/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
Fundos hedge que empregam computadores potentes para administrar suas carteiras estão tendo enormes ganhos na turbulência do mercado deste ano. Esse sucesso representa um renascimento para um setor que tenta se recuperar de um longo período de desempenho fraco.
Fundos seguidores de tendências, que usam modelos matemáticos para tentar prever movimentos do mercado, tiveram anos de dificuldade em um período dominado por compras de bônus pelos bancos centrais – uma ferramenta de incentivo responsável por eliminar boa parte da volatilidade que é base de sua prosperidade. Mas o setor, que movimenta US$ 337 bilhões, vê agora seus maiores ganhos desde a crise financeira de 2008, segundo a provedora de dados HFR.
Fundos quantitativos lucraram especialmente ao apostar contra os bônus governamentais, que foram sacudidos por expectativas de que o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) manterá a alta agressiva de juros para combater a inflação. Eles também se beneficiaram da disparada dos preços de energia e commodities, alimentados por gargalos na cadeia de suprimentos e pela invasão da Ucrânia pela Rússia.
“Estamos passando agora por um daqueles momentos de 2008 em que todo mundo [que segue tendências] voltou a se sair bem. As tendências estão mais claras”, disse Leda Braga, fundadora da Systematica Investments e ex-diretora da BlueCrest. “O tema subjacente é o fim da década favorável que vivenciamos”, acrescentou Braga, cujo fundo BlueTrend subiu 26% em 2022, seu melhor desempenho dos últimos 14 anos. “Agora há mais volatilidade.”
Entre os vencedores está a BH-DG Systematic, joint-venture entre David Gorton e o fundo hedge Brevan Howard. Ele lucrou 32% no ano. A Aspect Capital, cofundada por Martin Lueck, um dos três fundadores originais da divisão AHL do Man Group, contabilizou ganho de 29,2% em seu fundo Diversified.
Esses fundos quantitativos ganharam, em média, 15,1% nos quatro primeiros meses do ano, segundo a HFR, o que os define como a categoria de melhor desempenho de fundo hedge durante um período em que gestoras famosas computaram prejuízos de dois dígitos e o S&P 500 caiu 13%. O setor de fundos hedge como um todo caiu 1,9% nos quatro meses encerrados em abril.
Esses fundos quantitativos, também conhecidos como fundos de futuros gerenciados, podem ganhar a partir do atrelamento a tendências de preços persistentes, tanto de mercados em alta quanto em baixa, o que muitas vezes lhes permitiu lucrar em períodos de estresse do mercado. Em 2008, por exemplo, eles lucraram com uma alta acentuada, seguida por um colapso dos preços do petróleo, ao mesmo tempo que com a acelerada venda em massa de ações, do período em que a crise financeira atingiu seu ponto mais baixo.
A significativa alta do desempenho em 2022 ocorre após anos de retornos frequentemente medíocres, com os seguidores de tendências tendo perdido dinheiro em seis de oito anos-calendário entre 2011 e 2018, segundo a HFR. O período após 2010 “foi uma década perdida” para seguidores de tendências, disse um graduado executivo do setor.
A espera por uma recuperação se revelou longa demais para alguns fundos. O bilionário David Harding, outro ex-cofundador da AHL que criou a empresa quantitativa Winton na década de 1990, causou polêmica no setor anos atrás, quando afastou seu principal fundo do acompanhamento de tendências, argumentando que a estratégia não ganhava o suficiente para justificar a administração de um grande fundo hedge.
“Foi impossível captar dinheiro na época” após a iniciativa de Harding, disse um gestor que continuou a apoiar o acompanhamento de tendências. A GSA Capital fechou no ano passado seu fundo Trend após descobrir que reunir-se com investidores do fundo tinha se tornado fonte de confusão mental para seus pesquisadores.
No entanto, uma grande aceleração da inflação nos EUA no ano passado, inicialmente subestimada por dirigentes do Fed, catalisou as altas das taxas de juros e a retirada do afrouxamento quantitativo. Isso tirou apoio dos preços de ativos nos mercados tradicionais, fazendo bônus e ações despencarem.
“Os bancos centrais têm de focar em combater a inflação apesar do custo aos preços dos ativos”, disse Philippe Jordan, presidente da empresa de fundo hedge quantitativo CFM, sediada em Paris, cujo fundo de tendências IST subiu 16,5% neste ano. “É um cenário positivo para tendências, porque cria impulso.”
O rendimento do bônus de 10 anos do Tesouro americano subiu de 1,51% para um pico de 3,2% neste ano, enquanto o retorno do Bund, seu congênere alemão, que ficou negativo em 2019, saltou de – 0,18% para nada menos que 1,19%. Os rendimentos variam em direção contrária à dos preços.
“Se você olhar o bônus alemão de 10 anos, houve uma variação espantosa para algo que não fazia absolutamente nada por um longo período”, disse Kenneth Tropin, presidente do conselho de administração da Graham Capital, sediada em Conecticut, cujo fundo K415 subiu 41,7% no ano, enquanto o Tactical Trend ganhou 33,4%.
“Em vista do que aconteceu com as taxas [de juros], as commodities e as moedas, os fundos futuros gerenciados estão felizes da vida”, disse Andrew Beer, membro de gestão da empresa americana de investimentos Dynamic Beta Investments, cujo fundo DBMF teve alta de 22,4% no ano.
Após um período relativamente pobre para o setor, os gestores acham agora que a mudança do regime do mercado permite concluir que as tendências poderão durar algum tempo. “A mudança das expectativas inflacionárias é como uma grande barcaça, e vai levar muito tempo para dar uma reviravolta”, disse Braga, da Systematica, apontando para a descarbonização e para mudanças nas cadeias de suprimentos como forças inflacionárias. “Parece haver um ciclo mais longo pela frente e suspeito que as tendências persistirão por um tempo.”
Fonte: FT / Valor Econômico
