Por Adriana Cotias — De São Paulo
18/07/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
Os fundos de investimentos líquidos perderam mais de 138 mil cotistas no primeiro semestre. Esse é um reflexo de resgates contínuos desde o ano passado, mas é uma fração para uma indústria que tem pelo menos 24,5 milhões de contas de investidores em multimercados, ações, renda fixa e cambiais. Com as taxas de juros altas e a balançada de carteiras tidas como conservadoras com crédito privado no começo do ano, tem havido migração para títulos de emissão bancária tradicionais e para papéis isentos de imposto de renda.
Conforme levantamento da plataforma Trademap, antecipado para o Valor, dentre as classes avaliadas, só os portfólios de renda fixa ganharam novos investidores, com um acréscimo de 616,8 mil contas. Os multimercados tiveram diminuição de 398,6 mil cotistas; as carteiras de ações, de 347,7 mil, e, os fundos cambiais, de 8,5 mil.
Os dados diferem dos apresentados pela Anbima, que representa o mercado de capitais e de investimentos, que agrega também os fundos estruturados. O mapeamento da Trademap contempla apenas portfólios debaixo da antiga Instrução 555 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – revisada na 175, que começa a valer em outubro -, explica Einar Rivero, que compilou os números da base da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Tanto em um caso quanto outro, pode haver duplicidade de CPFs ou CNPJs se o mesmo investidor tiver aplicação em mais de um produto.
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Quando se olha para as gestoras que mais perderam investidores, a liderança fica com a Nu Asset, com diminuição de 393,7 mil cotistas; seguida pela Itaú Asset, com uma redução de 136,7 mil. A BB Asset, maior patrimônio da indústria, com R$ 1,46 trilhão, aparece em terceiro lugar, com 57 mil investidores a menos. A Vitreo Gestão de Recursos (atual Empiricus) teve uma subtração de 48,7 mil investidores.
Em comum, algumas casas do topo do ranking têm fundos que tinham exposição às debêntures da Americanas, que revelou um furo bilionário em seu balanço em janeiro e entrou em recuperação judicial. O episódio foi seguido por outros eventos que afetaram a marcação dos ativos de crédito de uma maneira geral, penalizando até os fundos considerados como porto seguro para abrigar a reserva de emergência dos investidores.
Na ponta das assets que mais ganharam investidores no primeiro semestre aparecem XP (213,8 mil, somando XP Allocation e XP Gestão), Inter Asset (161,2 mil), Órama (125,9 mil), Caixa (91 mil) e BNP Paribas (74,8 mil). Das gestoras ligadas aos grandes bancos de varejo, só a Bradesco Asset aparece entre as dez que mais ganharam investidores, com adição de 71,6 mil.
“Foi o pior primeiro semestre em 21 anos para a indústria, em meio à combinação de aversão a risco com outras oportunidades [na renda fixa], quando acontece isso a liquidez é drenada”, resume Luiz Sorge, CEO da BNP Asset Management, ao se referir a resgates líquidos de R$ 205 bilhões dos fundos de janeiro a junho. O executivo, também diretor da Anbima, diz que desde 2002, ano em que o setor financeiro passou a atualizar os ativos em carteira pelo valor de mercado, é que não se via tamanho encolhimento. “Em linha com 2022, este ano ainda teve o dissabor de ter a migração de produtos de maior valor agregado para a renda fixa, não só fundo, mas para papel, para os incentivados.”
O executivo diz que “mais por juízo do que por sorte”, a gestora do grupo francês no Brasil estava pouco exposta a crédito privado quando estourou o caso Americanas. Com a filosofia de privilegiar ativos de maior qualidade (“high grade”) em lugar dos de maior retorno (“high yield”), o estresse no mercado secundário acabou tendo influência limitada na sua oferta. Com cerca de R$ 80 bilhões sob seu mandato, ele diz que sem um canal cativo, as plataformas de terceiros têm tido papel fundamental no crescimento da base, com mais de 50 acordos, incluindo plataformas de investimentos independentes, bancos e gestoras de fortunas familiares
A BB Asset observou uma redução de cotistas em fundos de ações e multimercados, enquanto na renda fixa houve uma adição de quase 80 mil, diz Isaac Marcovistz, gerente-executivo de produtos e marketing da instituição. Pelo monitoramento que faz internamente, enxergando a base como um todo e tirando efeitos de dupla contagem, houve um acréscimo de quase 54 mil CPFs de janeiro a junho. Ao limpar os números, o total orbita em 2 milhões de investidores.
“O cotista buscou uma posição de maior segurança para o seu patrimônio e também o perfil de geração de renda”, diz Marcovistz, referindo-se aos estruturados listados, como o veículo dedicado à cadeia do agronegócio (Fiagro) e o fundo de fundos imobiliários, que tiveram um incremento de 1,6 mil investidores – não capturados pelo mapeamento da Trademap.
A percepção do executivo é que o fluxo para carteiras de maior risco não vai se inverter tão imediatamente, algo que tende a aparecer entre o quarto trimestre e a virada para 2024. Na medida em que o Banco Central (BC) comece a reduzir a taxa Selic dos 13,75% ao ano atuais e a rentabilidade mensal da renda fixa decline, daí o investidor se move, porque perde aquela âncora dos 1% ao mês. Ele cita que só o BB Renda Fixa High, um dos mais tradicionais da gestora, atraiu 44 mil investidores neste ano.
“Cotista buscou maior segurança para o seu patrimônio e também o perfil de geração de renda” — Isaac Marcovistz
A gestora da XP conseguiu liderar a atração de cotistas nos fundos líquidos e também contribuiu para aumentar o bolo do mercado nos alternativos, conta Bruno Castro, CEO da XP Asset. Na família de carteiras macro, que encolheu na indústria, a gestora captou R$ 1,2 bilhão, trazendo cerca de 25 mil investidores. “Em números absolutos, pode não ser tão grande, mas é expressiva quando se olha o que aconteceu entre os pares”, diz.
Os fundos passivos soberanos, especialmente aqueles com mandato pós-fixados, foram os que mais tiveram ingressos, com a migração de investidores machucados em carteiras com crédito privado. Nessas estratégias, Castro diz que entraram cerca de R$ 5 bilhões no ano, salvando a captação líquida no primeiro semestre. O patrimônio total somava cerca de R$ 155 bilhões ao fim de junho. No universo dos alternativos, o XP Private Equity II trouxe R$ 1,7 bilhão, de mais de 16,5 mil investidores.
Com cerca de R$ 8 bilhões e uma distribuição 100% dentro do banco, a Inter Asset tem controle na qualidade da oferta, sem se render “a produtos da modinha”, diz o diretor da gestora Felipe Bottino. “A gente costuma acompanhar os movimentos de manada e conseguiu evitá-lo, mesmo passando por um teste de estresse porque não está imune ao mercado de crédito”, diz. “Com dez anos de histórico, a asset tem as suas cicatrizes e ostenta isso com orgulho de mostrar que já errou, acertou, já teve perda, cota negativa, vai ter de novo, mas na média supera o CDI e ganha consistência.”
O executivo diz ver com preocupação os grandes deslocamentos de recursos, como a recente corrida para a renda fixa conservadora. A Inter Asset até criou um fundo para acomodar títulos de emissão bancária com classificação de risco a partir de “AA+” – que atraiu cerca de R$ 200 milhões -, mas Bottino pondera que o investidor vai acabar perdendo uma das melhores safras de crédito corporativo. Cita ver certificados de crédito imobiliário (CRI) de boa qualidade pagando CDI mais 3% a 4% ao ano, o tipo de oportunidade que a gestão profissional consegue capturar sem concentrar o risco. E é com educação financeira que diz que dá para sair da “armadilha de olhar para a performance de curto prazo”.
A gestora da Órama perdeu cerca de 15% do seu patrimônio no acumulado de 2023, para um patrimônio de R$ 750 milhões, mas ganhou novos cotistas graças à parceria fechada com o Mercado Pago, banco digital do Mercado Livre, em 2022, para oferta de produtos de investimentos, conta o sócio e gestor Mateus Bartolomeu.
Os tíquetes médios são baixos, de R$ 500, mas o acordo já trouxe mais de 100 mil investidores para a asset, com R$ 70 milhões. “A ideia foi dar acesso a clientes que nunca investiram. Houve plataforma de grande alcance com perda de número de clientes. A gente já teve alocação em debêntures e em papéis que sofreram remarcação, mas conseguiu encerrar as posições, não sensibilizou os fundos.”
Teve investidor que experimentou estratégias mais arrojadas após estourar a pandemia de covid-19, “no oba-oba dos juros baixos, se posicionou em ativos de risco, muitas vezes em posições que não estava de acordo com o perfil”, diz Rodrigo Knudsen, executivo-chefe de investimentos (CIO) da Empiricus Gestão. “Com a má performance, acabaram sacando.”
Como a grade da Empiricus é formada principalmente por fundos de risco, incluindo carteiras temáticas de tecnologia, commodities, cannabis, além de ações e hedge funds, a casa sofreu o efeito da debandada do investidor. “Na corretora, enxergamos a migração direta, principalmente para os incentivados como LCI e LCA [letras de crédito imobiliário e do agronegócio], em que o investidor compra tanto os pós-fixados quanto prefixados e IPCA+, com taxas ótimas”, diz Knudsen.
Na gestora, ele afirma que o patrimônio diminuiu neste ano em R$ 580 milhões, para R$ 7,1 bilhões, mas no conjunto a plataforma conseguiu manter o dinheiro dentro de casa. Em julho já começa a observar captação para fundos de “small caps”, de empresas de menor capitalização na bolsa, algo que tende a se intensificar quando a queda da Selic se materializar.
Desde o segundo trimestre, quando o mercado começou a mostrar sinais de recuperação, a Nu Asset apresenta um número estável de cotistas, com mais de 1,8 milhão. “O movimento de resgates de investimentos em fundos com exposição a crédito privado tem sido observado em todo o mercado brasileiro”, afirma, em nota, citando saques de R$ 141,8 bilhões neste ano em fundos com exposição a crédito privado.
A casa ressalta que as carteiras com maior número de cotistas já voltaram a apresentar retorno acima do CDI, caso do fundo de renda fixa Nu Reserva Imediata (102% do CDI) e do multimercado Nu Seleção Cautela (107%).
A Itaú Asset respondeu em nota que os cotistas que deixaram a gestora no primeiro semestre representam só 3,5% da sua base.
Fonte: Valor Econômico

