A área mais aquecida do mercado de fundos hedge sofre com fugas de capital pela primeira vez em sete anos, em um indício de que os investidores que antes corriam para ter acesso aos chamados fundos multigestores podem finalmente ter começado a perder o interesse por esses produtos.
Introduzidos por empresas como a Citadel, de Ken Griffin, e a Millennium, de Izzy Englander, os fundos hedge multigestores abrigam dezenas, se não centenas de equipes de negociação, conhecidas como “pods” (módulos em inglês), que operam uma variedade de estratégias de trading em ações, commodities, câmbio, crédito e outros mercados.
Esses fundos atraíram dezenas de bilhões de dólares de grandes investidores nos últimos anos, graças a controles de risco rigorosos e retornos consistentes, mesmo em mercados de ações com tendência de baixa, como se viu em 2022.
Mas um relatório do Goldman Sachs ao qual o “Financial Times” teve acesso mostra que essas empresas sofreram retiradas líquidas de clientes de mais de US$ 30 bilhões nos 12 meses até o fim de junho, a primeira vez que tiveram saídas de capital desde 2016.
A mudança foi classificada como uma “virada significativa na maré” pelo relatório do Goldman Sachs. “Houve uma reviravolta no sentimento do alocador e o panorama dos fluxos reflete esse interesse reduzido.”
Os dados foram compilados pela principal divisão de corretagem do Goldman Sachs – que empresta dinheiro a grandes investidores, como fundos hedge, para que estes façam apostas no mercado – e se basearam em uma amostra de 53 empresas com US$ 366 bilhões em ativos. Cerca de um terço do valor de US$ 30 bilhões em retiradas líquidas se refere a fundos hedge que optaram por devolver capital aos investidores.
O maior fator por trás da redução da demanda dos investidores é que, depois de anos em que só ampliaram seus investimentos nesse segmento, alguns alocadores, como fundos de pensão, decidiram que agora já investiram o suficiente, segundo o Goldman.
Mas os retornos mais fracos no ano passado também tiveram impacto no entusiasmo dos investidores e criaram um fosso entre as empresas maiores e mais consolidadas, como Citadel e Millennium, e as menores, algumas das quais conseguiram pouco mais do que o retorno equivalente a manter os recursos em caixa. No fim do último ano, a Balyasny Asset Management, de Dmitry Balyasny, e a Schonfeld Strategic Advisors ganharam 2,7% e 3%, respectivamente.
“O retorno médio dos multigestores em 2023 foi quase idêntico à taxa livre de risco do ano”, apontou o relatório do Goldman.
Os dados compilados pelo banco mostraram que, ao longo do último ano, houve uma diferença de desempenho de 13% entre alguns dos gestores com os melhores e os piores desempenhos.
Nos últimos anos, alguns dos maiores gestores do setor, como Millennium e Citadel, estiveram praticamente fechados para novos investidores, embora neste ano a Millennium tenha participado de negociações para levantar um valor que poderia chegar a bilhões de dólares para uma reserva de dinheiro adicional que a empresa poderia usar quando desejasse, de acordo com uma fonte com conhecimento do assunto.
O banco também atribuiu a queda do interesse dos investidores ao aumento das taxas no setor.
A ascensão dos fundos hedge multigestores foi alimentada pelo chamado modelo de repasse de taxas, em que todos os custos, como atendimento ao cliente, aluguel de escritórios e bônus, são cobrados diretamente dos investidores, acrescidos de uma taxa por desempenho. Isso pode levar a comissões anuais que variam de 3% a 10% sobre o valor dos ativos. Em contrapartida, em média, os fundos hedge cobram uma taxa de administração de 1,35% para cobrir seus custos, mais uma comissão por desempenho, de acordo com o grupo de dados HFR.
As taxas altas permitiram que essas empresas oferecessem alguns dos acordos de pagamento mais lucrativos do setor, o que provocou uma guerra cada vez mas intensa por talentos, mas também pôs esses fundos hedge sob pressão para que continuassem a oferecer retornos que acompanhassem seus custos.
Em uma indicação sobre o crescimento rápido do setor, o Goldman descobriu que, nos últimos 12 meses, os fundos hedge multigestores conseguiram cerca de 2,4 mil novas contratações, com aumentos de 19% e 13% no número de equipes não ligadas a investimentos e ligadas a investimentos, respectivamente.
O ano passado foi bastante heterogêneo em termos de desempenho, mas este ano o cenário tem sido muito mais cor-de-rosa, com empresas como Balyasny e Schonfeld capazes de entregar retornos melhores.
O banco acrescentou que, embora o sentimento pareça estar mudando para pior, o segmento multigestores não tem “mostrado nenhum sinal de que perdeu importância e relevância” na indústria de fundos hedge.
Fonte: Valor Econômico
