Depois de registrar um forte desempenho em 2024, os fundos de crédito privado iniciaram 2025 com retornos mais discretos. A compressão dos spreads e a manutenção da taxa de juros em patamar mais alto foram alguns dos fatores responsáveis pela redução dos ganhos de capital que haviam impulsionado o setor no ano passado.
Conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os fundos de duração média e crédito livre registraram rentabilidade de 95% do CDI em setembro e outubro deste ano, ficando abaixo de 100% pela primeira vez desde dezembro do ano passado.
Já os fundos de duração livre registraram redução de ganhos ainda mais expressiva. Em outubro, esse tipo de fundo registrou rentabilidade de 72% do CDI, ante os 160% registrados em setembro.
Os fundos de duração baixa e de duração alta não ficaram abaixo de 100%, mas também demonstraram desaceleração nos ganhos. Em ambas as categorias, outubro representou o mês de menor rentabilidade no último semestre, a 113% do CDI.
Apesar das dificuldades vivenciadas pelo setor, gestores continuam vendo a classe como peça importante nas carteiras, tanto pela consistência no longo prazo quanto pela diversificação que oferece frente a outras classes de ativos.
Nos últimos meses, episódios envolvendo grandes empresas, como Braskem, Ambipar e Raízen, também voltaram a acender o alerta no mercado de crédito. Mas para Petrônio Cançado, head e gestor de crédito privado da Occam, os casos foram pontuais e não indicam deterioração estrutural.
“Os juros altos, por mais que imponham um custo elevado a todas as empresas, não foram o principal fato gerador dos eventos de crédito ocorridos. A Ambipar padece por governança, a Braskem por governança e pelo desastre ambiental em Alagoas, e a Raízen possui sócios com grande capacidade de levantar recursos, mas recentemente deram declarações de que não estariam dispostos a capitalizar a companhia que se encontra bastante alavancada”, analisou Cançado. “Ou seja, cada caso tem uma causa diferente e esperar um novo evento no curto prazo nos parece uma má aposta.”
Ainda na visão do especialista da Occam, mesmo diante dessas ocorrências, o mercado tem se mostrado eficiente ao refletir o risco nos preços. “Sinais de deterioração no crédito de uma contraparte são refletidos com bastante velocidade aos preços”, disse.
Ele também destaca que hoje há uma diferenciação “bem mais clara de spreads e riscos que no passado”, com emissores de menor rating negociando com prêmios muito mais altos que os de empresas AAA.
A realização de preços registrada em outubro pressionou momentaneamente os resultados — mas, para o gestor da Occam, esses movimentos não costumam durar muito. “Aproveitamos a realização para comprar alguns títulos que devem trazer bons resultados no futuro”, afirmou. “Meses com retornos muito elevados ou com retorno abaixo do CDI devem ser tratados como exceção.”
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Cançado também lembra que os fundos de crédito de baixo risco vinham de um ano atípico. “Os spreads de títulos AAA estavam muito elevados no início de 2024. Houve uma redução ao longo deste ano que elevou o retorno dos fundos”, disse.
Agora, com spreads mais próximos do valor justo, a expectativa é de rendimentos “mais próximos às metas de retorno, que são um pouco acima do CDI”, complementou ele.
Para Marcelo Peixoto, gestor de crédito privado da Trígono Capital, o ambiente atual ainda favorece o crédito high grade, mesmo com a perspectiva de queda gradual da Selic apenas a partir de 2026.
“Os títulos high grade continuam bastante atrativos quando a gente pensa o retorno nominal diante da inflação”, afirmou. “É claro que com os cuidados necessários nesse contexto de juros elevados e o impacto nas empresas, seja em despesas financeiras, seja também na primeira linha, no top line.”
Peixoto avalia que, embora parte dos investidores possa migrar para outras classes de ativos quando a tendência de corte de juros ficar mais clara, o movimento não deve ser significativo.
“Eu não acredito em migração massiva para outras classes de ativos”, disse. “Os fundos de crédito ganharam uma profundidade muito grande, é um diversificador de risco nos portfólios dos investidores, dada a baixa correlação com outras classes de ativos.”
O gestor da Trígono também classificou os eventos recentes de crédito como pontuais e destacou que o mercado tem reagido com racionalidade. “Quando o mercado vê exageros, parece que ocorre uma pausa, e a gente vê essas pequenas correções”, afirmou. “Toda vez que tiver exageros de nível de fechamento de taxa, acho que o mercado pisa no freio e a gente vê esses eventos pontuais.”
Mesmo com retornos contidos, cenário dos fundos de crédito é saudável
Os retornos menores observados em 2025, ainda segundo Peixoto, são consequência direta da compressão dos spreads e da fase mais madura do ciclo de crédito.
“Os spreads se comprimiram e os ganhos foram expressivos por fechamento de spread”, explicou. “Daqui para frente, obviamente, a possibilidade de ganhar desse fechamento é menor, porque o mercado em si está muito mais comprimido em termos de spread de crédito.” Mesmo assim, ele considera que o momento é saudável e que os gestores estão mais seletivos.
“Chega um nível que o gestor prefere não aplicar. Se vem uma emissão primária muito fechada, o gestor prefere não participar. Ele fica com caixa, esperando o momento de entrar no papel, de entrar no emissor, e taxas mais adequadas ao nível de risco. Isso é muito importante de ver no nosso mercado, e isso está acontecendo, que é racionalidade, disciplina.”
Fonte: Capital Aberto
