O Ibovespa, principal índice da bolsa, vai dando a volta por cima em 2025. Mas a volta dada pelos fundos de ações chega a ser cinco vezes maior. No primeiro semestre, o principal índice da bolsa acumulou ganhos de 15%, deixando apenas na memória um ano para ser esquecido. Os fundos, no mesmo intervalo, chegaram a oferecer aos seus cotistas nada menos do que 77% de valorização.
O segredo? Surpreende ainda mais.
No ano passado, foram os riscos nacionais os maiores responsáveis por fazer a bolsa brasileira comer uma poeira danada dos recordes colecionados em Nova York. Já na primeira metade deste ano, são justamente os papéis ligados à economia brasileira os maiores responsáveis pelo êxito de gestores.
Não que aqui esteja às mil maravilhas. Acontece que o ambiente global incerto e volátil, sob a batuta de Donald Trump, força investidores do mundo a diversificarem. Assim sendo, todos os caminhos que levavam à bolsa americana ganharam novas esquina. Dentre as quais, a bolsa brasileira e os descontos aprofundados depois de um 2024 para lá de negativo.
Apesar dos pesares internos, as quedas colecionadas pelas ações brasileiras muitas vezes não condizem com as qualidades procuradas pelos brasileiros – portanto, são “baratas”. Papéis não apenas com liquidez, mas de companhias sólidas a ponto de resistirem bem à escalada recente da alta da Selic rumo aos 15% ao ano, pressão relevante aos negócios mais endividados.
Nesse ambiente, os gestores exploraram, sobretudo, setores como varejo, energia e construção. E, passado o primeiro semestre, seguem otimistas. Esperam por cortes de juros, que cedo ou tarde podem impulsionar a bolsa mesmo sob as atuais tensões entre Estados Unidos e Brasil.
Fundos de Zenith e Alaska alcançaram impressionantes remunerações de mais de 70% nos primeiros seis meses deste ano. Um fundo da Polo atingiu 57%; e um da BB Asset, 45%.
Fundos de ações mais rentáveis do 1º semestre de 2025
| Fundo | Retorno no ano, em % | Retorno em 2024, em % | Retorno em 12 meses, em % | Risco | Patrimônio, em R$ milhões | Cotistas |
| Zenith Hayp | 76,68 | -16,09 | 65,72 | 45,52 | 68 | 158 |
| Alaska Black BDR Nível I | 70,19 | -57,15 | 9,06 | 43,54 | 856 | 7.041 |
| Polo I | 56,60 | -28,49 | 35,12 | 33,76 | 297 | 18 |
| BB Construção Civil | 45,01 | -26,00 | 29,64 | 25,95 | 132 | 9.193 |
| Stoxos | 44,04 | -12,71 | 65,52 | 43,54 | 92 | 1.508 |
| Caixa Construção Civil | 42,33 | -26,25 | 27,19 | 25,74 | 150 | 4.598 |
| CL4 Capital | 38,18 | -28,98 | 18,32 | 25,54 | 107 | 64 |
| Alaska Institucional | 36,59 | -32,89 | 10,13 | 26,29 | 929 | 37.118 |
| Alpha Key Ações | 36,45 | -0,30 | 40,84 | 20,11 | 114 | 356 |
| Moat Capital | 36,42 | -32,03 | 11,80 | 28,59 | 67 | 591 |
| Ibovespa | 15,44 | -10,36 | 12,06 |
Fonte: Estudo elaborado por Marcelo d’Agosto, consultor financeiro responsável pelo Guia de Fundos do Valor e blogueiro do Valor Investe, com base em dados da plataforma Morningstar
Esses fundos lideraram o ranking dos mais rentáveis na primeira metade deste ano entre os acompanhados pelo Guia de Fundos do Valor. O levantamento foi realizado por Marcelo d’Agosto, consultor financeiro responsável pela ferramenta, com base em dados da plataforma Morningstar. Mais abaixo, dá para entender a metodologia do ranking tim-tim por tim-tim e por que nem todos os produtos do mercado aparecem nessa lista.
Embora o ranking se refira à primeira metade deste ano, não significa necessariamente que esses são os melhores fundos para investir neste momento. Os especialistas aconselham analisar três anos, no mínimo, de remuneração e a qualidade da gestora antes de escolher onde investir. Esse ranking, portanto, é meramente informativo e não é uma indicação.
Os fundos de ações são uma forma mais prática e diversificada de acessar a bolsa, delegando a escolha para gestores, porém com um custo mais alto. Eles são aconselhados para quem busca rendimento por prazo de no mínimo cinco anos. Por outro lado, a classe oferece riscos maiores em comparação aos investimentos de renda fixa, que estão bastante atrativos com elevados juros neste momento.
Nesse ambiente, os investidores resgataram R$ 43,6 bilhões dos fundos de ações no primeiro semestre. Contudo, os cotistas que debandaram deixaram de aproveitar boas remunerações, prova que diversificar a carteira independentemente do momento, pensando em prazos longos, é uma estratégia boa.
Construção, energia e shopping são setores preferidos
A Polo Capital acertou com uma carteira diversificada com entre 70 e 80 papéis, somando vendidos (quando o gestor aposta na baixa do papel) e comprados (quando o gestor aposta na alta). A ação que mais ajudou no desempenho do fundo foi a Tenda, construtora da qual a gestora é a maior acionista.
“A Tenda teve um sério problema de orçamento em 2022 e em geral o mercado tem preconceito com esse nome” diz Carlos Alves, sócio e gestor de fundos de ação da Polo Capital. “Mas a empresa passou por um processo de reestruturação e as margens estão estáveis atualmente, muito próximas das referências do setor, a Direcional e a Cury.”
Ações de companhias de energia também deram uma… energia e tanto ao fundo (com o perdão do trocadilho), com destaque a Serena e Copel. Agora, as maiores posições do portfólio estão em Brava, Copel e Eletrobras, além da construtora Tenda.
O pano de fundo atual dos pregões preocupa o gestor da Polo.
De acordo com ele, tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras anunciada por Trump, que pode vigorar em 1º de agosto, agrava as incertezas sobre o rumo da bolsa. Mas não só por efeitos econômicos, também políticos. A popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ganhar fôlego, o que já começou a acontecer. Aumentaria a chance, portanto, de ele ser reeleito em 2026, favorecendo uma política fiscal, sob a ótica da média dos investidores, inflacionária.
Daí a importância de ter uma carteira de ações bastante diversificada, diz Alves. “Já existia uma incerteza natural em relação à eleição de 2026, que aumentou agora. Não acho que os estrangeiros sairão vendendo as ações brasileiras de forma generalizada, mas no mínimo vão refletir sobre o Brasil. Estamos esperando as próximas semanas para saber o que acontecerá dessa história.”
Entre as construtoras, destaques no primeiro semestre, há outras preferidas entre gestores além da Tenda. Em geral, o setor está sendo impulsionado pelo programa de incentivo do governo Minha Casa Minha Vida e pela perspectiva de redução de juros no fim deste ano ou no próximo.
Um fundos favorecido por esse momento é da BB Asset, a gestora de fundos do Banco do Brasil. Na carteira do fundo, estão majoritariamente construtoras e shoppings. As ações que mais ajudaram no desempenho do fundo no primeiro semestre e com a maior exposição na carteira atualmente são Allos, Cyrela, Direcional e Multiplan.
Ambos os setores sofrem pressão da Selic em alta por causa do custo de financiamentos. Contudo, as construtoras ligadas ao Minha Casa Minha Vida são menos sensíveis a esse fator. Além disso, a criação de faixa nova no programa serviu de gatilho para ganhos, ajudou bastante a impulsionar esse segmento, afirma Guilherme Novaes, executivo de fundos multimercado e ações da BB Asset.
“Continuamos muito otimistas com esse setor. Estamos convictos que chegamos no limite da Selic e que o próximo movimento será de cortes. Historicamente nesses momentos, as ações das construtoras e de mais setores tendem a performar muito bem”, diz. “Queremos surfar bastante nessa história do Minha Casa, Minha Vida. As companhias ligadas ao programa têm bastante para andar ainda.”
Um fundo da Caixa se destacou também buscando acompanhar a carteira do Índice Imobiliário da B3 (IMOB), com os principais negócios do mercado imobiliário que estão na bolsa. As ações que mais ajudaram no desempenho do fundo no primeiro semestre foram Allos, Cyrela e Multiplan e esses papéis seguem com o peso maior no fundo.
“Esses ativos se beneficiaram de uma combinação de melhora operacional consistente, mudanças positivas de projeções e redução nas perspectivas para os juros, que favoreceu o setor como um todo”, afirma Humberto Magalhães, diretor-presidente da Caixa DTVM. Ele diz que a bolsa brasileira continua com potencial de subir, assim como as ações ligadas ao mercado imobiliário.
“O fluxo estrangeiro, aliado a fundamentos sólidos das empresas, pode impulsionar os preços à medida que o cenário macroeconômico evolua”, diz. “Para o setor imobiliário, esperamos uma continuidade do bom momento, com lançamentos robustos, resiliência operacional e crescimento sustentado pelo Minha Casa Minha Vida”.
A CL4 Capital acertou aumentando a exposição aos papéis de empresas dependentes da economia local também, principalmente de construtoras, empresas de energia e varejistas, entre as mais descontadas. A Tenda foi a ação que mais ajudou no desempenho do fundo, mas a maior posição era Sabesp.
“Trabalho no mercado de ações brasileiras há 20 anos e só tinha visto as ações tão baratas como estavam no começo deste ano na crise financeira de 2008 e na pandemia”, afirma Maurício Jonas de Oliveira, gestor da CL4 Capital. “As empresas estavam com operações muito boas, não estavam endividadas e estavam muito baratas. Como compramos para o longo prazo, investimos porque em algum momento os papéis subiriam muito.”
Agora, ele continua muito otimista com a bolsa brasileira. “A vinda dos investidores estrangeiros para o Brasil, a eleição em 2026 e as ações baratas de companhias crescendo e pouco endividadas ajudam a bolsa brasileira”, afirma. As maiores posições do fundo atualmente são Hapvida, Sabesp, Smartfit, Stone e Vivara.
Fundos long biased
Muitos fundos de ações com a estratégia long biased deram remunerações muito boas no primeiro semestre também. Os gestores desses fundos apostam não apenas na alta das ações, mas também na baixa em cenários determinados. É uma estratégia para minimizar os recuos em ambientes de baixa da bolsa.
Um fundo se destacou bastante, da gestora Versa, com impressionantes 147% de retorno no primeiro semestre. Enquanto isso, um produto da XP rendeu 37%; e um da Encore, 36%.
Fundos long biased mais rentáveis do 1º semestre de 2025
| Fundo | Retorno no ano, em % | Retorno em 2024, em % | Retorno em 12 meses, em % | Risco | Patrimônio, em R$ milhões | Cotistas |
| Versa Long Biased | 147,40 | -63,78 | 32,16 | 124 | 77 | 738 |
| XP Investor Long Biased 30 | 37,41 | -24,99 | 20,57 | 26 | 131 | 2.596 |
| Encore Long Bias | 36,58 | -13,40 | 24,32 | 26 | 60 | 2.309 |
| AtlasOne Long Bias | 32,65 | -12,42 | 31,60 | 19 | 106 | 30 |
| Squadra Long Biased | 30,65 | -20,51 | 9,54 | 21 | 844 | 354 |
| Sharp Long Biased Feeder | 29,80 | -16,69 | 10,68 | 20 | 192 | 206 |
| Truxt Long Bias Advisory | 28,93 | -3,88 | 34,19 | 16 | 72 | 1.493 |
| Ibiuna Long Biased | 28,11 | -9,14 | 31,94 | 18 | 113 | 2.139 |
| Mantaro LB | 27,03 | -16,76 | 16,15 | 18 | 106 | 718 |
| Absolute Pace Long Biased | 25,82 | -4,75 | 21,48 | 15 | 1.301 | 5.132 |
| Ibovespa | 15,44 | -10,36 | 12,06 |
Fonte: Estudo elaborado por Marcelo d’Agosto, consultor financeiro responsável pelo Guia de Fundos do Valor e blogueiro do Valor Investe, com base em dados da plataforma Morningstar
Metodologia dos rankings
Os fundos que integram as listas desta matéria estavam acessíveis em bancos e corretoras e têm, no mínimo, 12 meses de histórico e R$ 50 milhões de patrimônio. Os fundos são acompanhados pelo Guia de Fundos do Valor. A ferramenta agrupa as carteiras em categorias que possuem um significado prático para o investidor diversificar as suas aplicações.
Os produtos são organizados em 16 categorias: renda fixa DI, prefixados renda fixa ativo, juro real, crédito privado com até 15 dias para o resgate, crédito privado a partir de 16 dias para resgate, debênture incentivada, multimercado baixa volatilidade, multimercado, long & short, long biased, ações índices, ações, investimento no exterior, ações no exterior, alocação multimercado e alocação ações.
Alguns fundos podem não estar nos rankings porque não estavam em corretoras e bancos, não têm, no mínimo, 12 meses de histórico e R$ 50 milhões de patrimônio, não são acompanhados pelo Guia de Fundos do Valor ou integram outras categorias.
Como escolher fundos de investimentos
Fundos de ações continuam indicados para diversificar a carteira e ganhar mais que o Ibovespa, focando em no mínimo cinco anos. O conselho dos especialistas para escolher os produtos que conseguem entregar rendimentos altos e consistentes ao longo do tempo é analisar como o fundo se comportou durante diferentes momentos no passado e onde os profissionais trabalharam.
Casas com mais idade e volume de recursos sob gestão, acima de alguns bilhões, contam com mais confiança do mercado. Além disso, é um bom indicativo se a gestora possui um grande número de pessoas e se elas trabalham lá desde o começo.
Alguns produtos correm mais riscos e, por isso, tendem a ser mais voláteis, mas às vezes as gestoras têm fundos parecidos que correm menos riscos e tendem a ser menos voláteis. É aconselhado escolher os que mais combinam com o perfil e objetivos do investidor.
Fonte: Valor Investe
