Em sua última aparição pública como ministro da Defesa da Rússia, na última quinta-feira, em uniforme de general, cheio de medalhas, Sergei Shoigu saudou o presidente do país, Vladimir Putin, perto do mausoléu de Vladimir Lenin na Praça Vermelha, em Moscou.
Andrei Belousov, nomeado ontem como seu sucessor, é de uma estirpe bem diferente. Economista de formação soviética, Belousov nunca serviu um dia sequer no Exército e trabalhou para Putin em vários cargos, como assessor civil em assuntos econômicos.
A surpreendente escolha feita por Putin, de colocar Belousov para comandar o Ministério da Defesa, indica que o presidente quer grandes mudanças na condução de sua invasão à Ucrânia, que já dura dois anos, de acordo com fontes que conhecem os dois e com analistas russos.
Belousov é um defensor de políticas setoriais estatistas e um tecnocrata sem base própria de poder. Sua nomeação indica que Putin quer um maior controle sobre os gastos militares, atualmente em nível recorde da Rússia, de 10,8 trilhões de rublos russos (US$117,2 bilhões) — e um oficial maleável e pragmático para exercê-lo, segundo fontes próximas dos dois.
“Ele absolutamente não é corrupto. E isso será muito diferente do que temos agora no Ministério da Defesa. Shoigu e todos ao seu redor eram realmente pessoas interessas em negócios”, disse uma fonte que conhece Putin e Belousov há décadas.
“Belousov […] não vai fingir liderar o exército como um general com todas essas medalhas. Ele é um ‘workaholic’. Ele é um tecnocrata. Ele é muito honesto, e Putin o conhece muito bem”, acrescentou a fonte.
Filho de um destacado economista soviético, Belousov trabalhou no setor acadêmico antes de ingressar no governo em 1999. Ele ocupou cargos como os de ministro do Desenvolvimento Econômico, assessor econômico de Putin e, mais recentemente, primeiro vice-primeiro-ministro.
Ao longo desse tempo, Belousov defendeu de forma consistente um papel forte do Estado na economia e estimulou a expansão dos gastos por meio de investimentos estatais, baixos juros e políticas fiscais e de crédito expansionistas.
Com frequência, isso o colocou em atrito com outros tecnocratas de alto escalão, como a presidente do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiullina, e o ministro das Finanças, Anton Siluanov, cujas políticas monetárias e fiscais de linha mais dura ajudaram a Rússia a enfrentar as sanções ocidentais.
“Belousov estava entre aqueles que consideravam o Estado como o principal motor de tudo — e, ao mesmo tempo, ele analisava os mesmos dados como nós analisamos, diferentemente da maioria dos economistas pró-Estado, que simplesmente faziam malabarismos com abstrações”, disse Konstantin Sonin, economista e professor da Universidade de Chicago.
Quando Belousov ingressou no serviço público, “o soldado de Putin” tomou o controle do “macroeconomista” que havia nele, segundo Sonin, que está na lista de procurados do governo russo por suas críticas ao Kremlin e que conhece Belousov há mais de 20 anos.
À medida que se tornava mais influente, Belousov se destacava como defensor de medidas como controles de capital e impostos extraordinários sobre empresas russas exportadoras de commodities, em especial, na indústria de metais.
“Ele não é bobo. Ele tem uma mente matemática, mas sua mentalidade é bem soviética. Ele tem essa ideia tola sobre o que é justo. Se alguém ganha muito dinheiro, então você tem que tirar. É um pouco [demais] como a China, para meu gosto”, disse um antigo alto oficial do Kremlin.
Muitos da comunidade patriótica, conhecida como os “blogueiros Z”, e entre os correspondentes de guerra pró-Kremlin da imprensa estatal, que denunciaram regularmente a corrupção no exército durante o primeiro ano da guerra na Ucrânia e atribuíram a culpa de muitas das falhas na linha de frente russa à má gestão, receberam bem a notícia da nomeação de Belousov. Eles elogiam sua experiência econômica e o descrevem como uma figura que limparia o Ministério da Defesa.
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Andrei Belousov, novo ministro da Defesa da Rússia — Foto: Kremlin/Sergey Gunev
“Belousov realizará uma auditoria de todo o bloco financeiro-econômico do Ministério da Defesa”, escreveu o repórter de guerra russo Yuri Kotenok, no aplicativo Telegram. “Ele conhece isso muito bem. Um economista profissional do mais alto nível […] e um estadista.”
Konstantin Malofeyev, um magnata cristão ortodoxo devoto que apoia unidades de voluntárias lutando na Ucrânia, disse que os pontos de vista estatistas de Belousov farão com que o Kremlin tenha mais sucesso na produção de armas para a guerra na Ucrânia. “O setor de defesa está se tornando uma prioridade absoluta para toda a política estatal. Como deveria ser. E com o planejamento correto, que é o que nosso novo ministro da Defesa apoia, teremos tanto armas quanto alimentos”, escreveu Malofeyev no Telegram.
Embora Shoigu tenha mantido seu cargo após fracassos no campo de batalha, sua função passou recentemente a sofrer mais pressões, após escândalos de corrupção em compras militares.
Em abril, serviços de segurança russos prenderam um dos colaboradores mais próximos de Shoigu, o vice-ministro da Defesa, Timur Ivanov, por acusações de corrupção, sinal de que os dias de Shoigu no cargo estavam contados.
Alexandra Prokopenko, ex-funcionária do Banco Central, disse que a nomeação de Belousov significa que o gabinete ministerial e o Ministério da Defesa coordenarão os gastos de forma mais próxima. “Com Shoigu, parecia que Sergei Kuzhegetovich [Shoigu] simplesmente ia ao gabinete e saía com dinheiro”, disse Prokopenko.
“Belousov será diferente. Mas, em vez de diminuir, os gastos militares podem aumentar. Belousov é um defensor proeminente do papel da indústria na economia, portanto ele é totalmente a favor de injetar dinheiro na economia por meio do setor de defesa.”
fonte: valor econômico
