A Publicis Health, uma divisão da agência listada na Bolsa de Valores de Paris, trabalhou com a fabricante de opióides Purdue Pharma de 2010 a 2019
Por Adrienne Klasa, Financial Times — Paris
02/02/2024 14h51 Atualizado há 2 diasPresentear matéria
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O grupo francês de propaganda Publicis pagará US$ 350 milhões a estados dos Estados Unidos para por um fim a alegações de que o trabalho de sua divisão de saúde agravou e lucrou com a crise dos opióides na América.
O acordo, anunciado na noite de quinta-feira, é o primeiro firmado por promotores dos EUA com uma agência de propaganda por seu suposto papel na crise dos opióides, que matou centenas de milhares de pessoas nas duas últimas décadas e dizimou muitas comunidades.
A Publicis Health, uma divisão da agência listada na Bolsa de Valores de Paris, trabalhou com a fabricante de opióides Purdue Pharma de 2010 a 2019, criando campanhas publicitárias e materiais de promoção de opióides como OxyContin, Butrans e Hysingla.
“Durante uma década, a Publicis ajudou fabricantes de opióides como a Purdue Pharma a convencer médicos a receitar opióides, alimentando diretamente a crise dos opióides e causando devastação em comunidades do país todo”, disse em um comunicado a procuradora-geral de Nova York Letitia James, que liderou uma coalizão de 50 procuradores-gerais estaduais na ação contra a Publicis.
A Publicis disse que o acordo “não é de forma alguma uma admissão de irregularidades ou responsabilidade. Iremos, se necessário, nos defender contra qualquer litígio que esse acordo não vier a resolver”, acrescentou a companhia.
A Publicis pagará US$ 343 milhões aos estados dos EUA para financiar programas de alívio aos danos causados pelos opióides, enquanto US$ 7 milhões cobrirão os custos legais. O Estado de Nova York receberá US$ 19 milhões do total, que serão destinados ao tratamento do vício em opióides e trabalhos de prevenção, disse o escritório da procuradora-geral. Após o pagamento do seguro, o grupo francês irá contabilizar uma despesa não recorrente de US$ 213 milhões antes dos impostos no quarto trimestre de 2023.
Os opióides são altamente viciantes, mas foram amplamente prescritos como analgésicos nos EUA, alimentando uma crise de dependência que matou mais de 645 mil pessoas entre 1999 e 2021, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças.
A Purdue Pharma, que é controlada pela bilionária família Sackler, vem sendo alvo de vários processos, inclusive criminais, por promover o uso generalizado e a segurança dos opióides que ela fabricava, como o OxyContin.
Durante o período em que trabalhou para a Purdue, a Publicis Health produziu material de propaganda que promovia o OxyContin como “seguro e impossível de ser usado de forma abusiva, muito embora essa afirmação não fosse verdadeira”, disse o escritório da procuradora-geral de Nova York. A agência também trabalhou com a consultoria McKinsey em estratégias para aumentar as vendas de opióides visando os médicos e os encorajando a aumentar as dosagens dos pacientes, afirma o comunicado.
A Publicis foi a terceira maior agência de propaganda do mundo em receitas em 2022, atingindo um valor de mercado de 23,79 bilhões de euros.
Ela afirmou que a maior parte do trabalho com a Purdue e outras fabricantes de opióides foi feito pela Rosetta, uma agência que ela adquiriu em 2011 e que fechou há uma década. “O trabalho para as companhias farmacêuticas considerado nesse acordo esteve sempre em total conformidade com a lei”, disse a Publicis.
No entanto, “reconhecemos o contexto mais amplo em que esse trabalho legítimo ocorreu… É por isso que trabalhamos para chegar a esse acordo e porque também estamos reafirmando nossa decisão de longa data de recusar quaisquer trabalhos futuros relacionados aos opióides”.
(Tradução de Mario Zamarian)
Fonte: Valor Econômico