Por Edward Luce, Valor — Financial Times
23/08/2023 15h02 Atualizado há 23 horas
Embora Aspen se localize a 2,4 mil metros de altitude, fazia um calor insuportável na cidade do Colorado. Christo Grozev, o principal investigador sobre a Rússia do “Bellingcat” — o coletivo investigativo on-line que desmascarou várias conspirações e assassinatos russos —, se desculpa pelo atraso de 20 minutos, após ter dirigido por cinco horas desde Denver.
Diz que esse foi o primeiro “tempo significativo” que passou com sua família desde fevereiro, quando foi obrigado a sair de Viena, após autoridades da Áustria lhe terem dito que não poderiam mais garantir sua segurança. Grozev, que é búlgaro, foi condenado pelo Judiciário de Vladimir Putin como “agente estrangeiro” — essencialmente um inimigo e alvo preferencial de possível execução pela Rússia. Após avaliar outras opções europeias, Grozev concluiu que os EUA eram o lugar mais seguro para estar. Sua família continua morando na Europa.
Grozev mantém um cavanhaque ligeiramente grisalho que combina bem com seus 54 anos. Pergunto-lhe em que região do EUA fixou residência.
Revelar os métodos de Vladimir Putin tem sido o ponto forte do Bellingcat. Grozev fez parte da equipe que ganhou um Oscar neste ano por “Navalny”, um documentário sobre a tentativa de assassinato do principal opositor de Putin, Alexei Navalny, atualmente detido.
Ao explorar a corrupção da Rússia, Grozev teve acesso a manifestos de voo, passaportes falsos emitidos pelo órgão de inteligência e dados de domínio público para provar que Navalny foi envenenado com novichok — uma grupo de agentes químicos desenvovido na era soviética —, quase certamente por ordem de Putin.
O Bellingcat também investigou o assassinato de Boris Nemtsov, outro dissidente russo, e expôs como agentes da GRU (o órgão de inteligência militar russo) tentaram, em 2018, matar Sergei Skripal, um ex-agente russo, e sua filha, na casa deles em Salisbury, Reino Unido, com o mesmo agente neurotóxico.
Sugiro a possibilidade de que Putin não dure muito tempo. O recente golpe tentado por Yevgeny Prigozhin, (conhecido como ‘ex-chef’ de Putin, por ser dono de restaurantes e empresas de alimentação que forneciam serviços ao Kremlin), cujo império comercial incluía o grupo mercenário Wagner, foi previsto por Grozev. “Eu disse em janeiro passado que Prigozhin se voltaria contra Putin dentro de seis meses – e isso simplesmente ocorreu, e perfeitamente dentro do meu prazo”, diz ele.
Grozev suspeitou na noite anterior que a tentativa de golpe de 23 de junho estava vindo porque, diz ele, houve uma explosão de tráfego telefônico entre o alto escalão militar russo – uma mina de dados que o Bellingcat às vezes acessa mediante pagamento (embora Grozev insista que o grupo sempre exige uma segunda fonte, a título de confirmação). Ao ter, até agora, aparentemente deixado Prigozhin a salvo de enfrentar um destino mais cruel, será que Putin agora não parece fraco? “Putin foi à TV e chamou Prigozhin de traidor”, responde Grozev. “Todo mundo sabe o que eles fazem com ‘traidores’ e que Putin não fez isso. Ele quer vê-lo morto. Ele não pode fazer isso. Dentro de seis meses Prigozhin ou estará morto ou haverá um segundo golpe. Tenho dúvidas entre as duas, mas não consigo prever a ocorrência de qualquer dessas possibilidades.”
Grozev estaria prevendo que uma ou a outra dessas possibilidades vai acontecer? “Sim, garanto, você vai ver”, responde.
Pelo fato de Grozev falar russo fluentemente e conversar com fontes russas todos os dias, fico curioso sobre de onde ele acha que o próximo golpe virá. “Acho que nenhuma parcela da elite, com exceção do complexo industrial militar, vê qualquer sentido para ela nessa guerra”, diz ele. “Mas eles não vão dizer isso abertamente porque se trata de um dilema do prisioneiro. Eles não querem ser os primeiros nem os únicos a fazer alguma coisa.” Ele menciona um general russo, Ivan Popov, que recentemente criticou a “operação militar especial” de Putin e, desde então, desapareceu. “Ando realmente preocupado com o destino dele”, diz Grozev.
Mas qual poderia ser o catalisador da próxima tentativa de derrubar Putin? “Pode ser um destes dois”, diz. “Ou o dilema do prisioneiro poderá ser rompido ou eles simplesmente vão se livrar dele por meio de um golpe mais bem-coordenado. Por enquanto não se tem isso ainda entre os oligarcas, ou com qualquer dos ministros, ou com o FSB (o serviço de segurança da Rússia]. Mas é impalatável para o restante da elite viver em uma Coreia do Norte 2.1 com suas contas bancárias congeladas. Outros gatilhos podem acontecer. Digamos, uma reviravolta do destino na linha de frente.”
Pergunto quais outras investigações Grozev tem no prelo. Normalmente há 50 mais ou menos por vez, diz ele. Entre as histórias mais exóticas do Bellingcat está a descoberta de uma agente russa que foi localizada e capturada por meio de seu gato. Ela era, em suas palavras, uma “joalheira incrível” que morava perto do escritório da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental) em Nápoles e tinha muita atuação em uma entidade assistencial voltada para crianças carentes instalada perto do prédio da Otan. Muitas das mulheres de generais graduados pertenciam à entidade. Como também seus maridos, com os quais ela manteve muitos casos.
Grozev acabou conseguindo localizá-la por meio do microchip implantado em seu gato por um veterinário italiano. Após ter localizado seu número de identificação exclusivo nos registros italianos, Grozev cruzou a informação do nome do gato com a conta dela na rede social russa. “Você precisa ter um objeto fixo: sem o gato, nunca a teríamos encontrado”, diz ela. “Ela espalhava amplamente seus afetos, mas seu único amor verdadeiro era o gato.”
Pergunto: e o que há pela frente? Grozev diz que tem várias histórias por vir sobre “ilegais” russos – “espiões-reservas” de longo prazo, acantonados muito tempo antes de entrar em ação – lotados no Ocidente. Encontramos desses espiões-reserva na Europa e nas Américas”, diz ele. Você já viu alguma vez, pergunto, um drama de TV de várias temporadas sobre um casal de espiões russo que se instala em Washington durante a Guerra Fria? Grozev me olha como se eu fosse um E.T. “Ah, faça-me o favor!”, responde. “Com certeza!”
Depois de condenado pela Rússia, Grozev voltou à Áustria por duas vezes sob pesada proteção. Na segunda visita, em março, após a morte de seu pai, a polícia disse ser perigoso demais que ele fosse ao enterro. Ele foi autorizado a se reunir com a família apenas por pouco tempo, com um acompanhante da polícia, em uma casa em Viena.
Será que a Áustria é o país europeu menos seguro? “Sim”, responde. “Enquanto nós [o Bellingcat] investigávamos os austríacos, eles estavam me vigiando e eu não sabia disso na época. Estavam fazendo isso explicitamente a pedido dos russos.”
Ele disse que os alemães o aconselharam a não se fixar na Alemanha. A última vez em que esteve na Alemanha foi em 2020, sob pesada proteção, como testemunha de acusação de um russo que tinha assassinado um exilado checheno. “Também estamos investigando exemplos de penetração, por serviços de segurança russos, em círculos políticos alemães”, diz. “Na França eu não confiaria: eles nem sequer confiam em si mesmos. O único lugar na Europa ao qual posso ir com segurança atualmente é o Reino Unido.”
Ele ainda está com raiva, no entanto, da Polícia Metropolitana de Londres por cancelar a presença dele e de sua família na cerimônia de entrega dos prêmios cinematográficos Bafta neste ano. “Saber disso pela ‘rádio-peão’ foi revoltante”, diz. “Se há também risco à minha família, eles deveriam me dizer diretamente.”
Ocorre-me que Grozev enfrenta potencialmente um dilema do tipo do de Salman Rushdie — o escritor de “Os Versos Satânicos” sentenciado à morte à revelia pelo regime do Irã.
“Eu sei quando estou sendo vigiado, mas não vou entrar em detalhes”, responde. “O que me ajuda é a minha imprevisibilidade: não tenho uma agenda fixa para nenhum dia determinado. Isso dificulta a vida das pessoas dedicadas à vigilância.”
Observo que o Bellingcat tem sido alvo da extrema-direita e da extrema-esquerda, que parecem encarar com desconfiança quase idêntica o apoio do Ocidente à Ucrânia.
“O Kremlin descobriu muito tempo atrás que podia explorar essa ‘coalizão ferradura’ [em que os extremos se tocam] pelo ofuscamento do fato de que Moscou tem um governo de extrema direita e que o socialismo da Rússia é zero”, diz Grozev. “Os socialistas do mundo inteiro parecem estar desatentos a isso. Portanto, estão disponíveis de graça. Nós só temos de subornar a extrema-direita no Ocidente, porque a esquerda é de graça. Eles ainda são nossos ingênuos úteis.”
(Tradução de Rachel Warszawski)
Fonte: Valor Econômico