A declaração, feita no Congresso Nacional do Povo, captou o novo caráter dePequim, estimulado pela conclusão de Xi de que a ordem mundial liderada pelos EUA está em queda e pronta para ser substituída por um sistema que atende melhor aos interesses da China.
A ofensiva de diplomacia já começou. Com o fim do autoisolamento da covid-zero, Xi fez uma visita de Estado à Rússia no mês passado, publicou um artigo sobre a paz na Ucrânia e se preparou para receber líderes europeus ansiosos por sua ajuda para pôr fim à guerra. Também convenceu Irã e Arábia Saudita a reatar relações diplomáticas, seu primeiro sucesso como mediadora no Oriente Médio.
Mais sutilmente, a China detalhou uma série de “iniciativas” de política externa para criar estruturas alternativas para a cooperação internacional, em especial com o mundo em desenvolvimento.
“A China agora está pronta para erodir gradualmente a liderança americana e promover a governança chinesa”, disse Zhao Tong, professor-visitante do think-tank Carnegie e pesquisador-visitante da Universidade de Princeton.
Para a China, o impulso diplomático é uma extensão natural de seu crescente poder econômico e visa recuperar seu papel histórico no centro da política global. Também planeja fazer frente à tentativa de Washington de “conter” a ascensão da China limitando sua capacidade tecnológica e militar.
Já para a ordem mundial liderada pelos EUA a campanha de Xi representa a seu maior desafio desde a Guerra Fria.
Desde que se tornou o líder do Partido Comunista chinês, há dez anos, Xi adotou uma posição mais assertiva nas relações exteriores. Além de chamados pelo “grande rejuvenescimento” da nação chinesa, ele militarizou ilhas artificiais no disputado Mar do Sul da China, assumiu uma postura mais agressiva com relação a Taiwan e adotou a estridente diplomacia do “lobo guerreiro” para reduzir ao silêncio os críticos estrangeiros.
Em outubro de 2017, ele disse no 19 congresso do partido: “Chegou a hora de assumirmos o primeiro plano no mundo”. Agora, Xi quer consolidar essa posição.
Em março, ele codificou a nova doutrina de política externa por meio de uma fórmula de 24 caracteres que inclui a expressão “ouse lutar”. A estrutura da sentença da fórmula espelhava a orientação deixada pelo falecido líder da era da reforma Deng Xiaoping, há mais de 30 anos, que aconselhava paciência estratégica nas relações exteriores. Mas a versão de Xi abandona esse princípio.
Um diplomata asiático disse que o discurso de Xi de 2017 já punha fim à era de Deng, em que a China “esconderia sua força e aguardaria o momento propício”. “Mas agora [Xi] substituiu oficialmente a doutrina de Deng por outra coisa muito diferente.”
Com esse espírito, a China pela primeira vez desempenhou papel decisivo como mediadora na disputa do Oriente Médio, ao convencer o Irã e a Arábia Saudita a retomar relações diplomáticas após um distanciamento de sete anos.
“No passado, declararíamos alguns princípios, tornaríamos conhecida nossa posição, mas não nos envolveríamos operacionalmente. Isso vai mudar”, disse Wu Xinbo, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Fudan de Xangai.
A China também tentou se mostrar como defensora da paz na Ucrânia, embora o Ocidente veja a posição de Pequim como de sustentação a Vladimir Putin e de reconhecimento da conquista de território ucraniano pela Rússia.
O presidente da França, Emmanuel Macron, e Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, vão visitarão o país nesta semana e abordarão o tema Ucrânia. Embora os esforços de Xi tenham sido vistos com bons olhos por Putin, o líder chinês, notadamente, não ligou para Volodymyr Zelensky, o presidente da Ucrânia, desde que seu país foi invadido.
Pequim disputa ainda a liderança do mundo em desenvolvimento. Xi vem promovendo o que chama de “modernização ao estilo chinês” como um conceito mais adequado aos países em desenvolvimento do que a ordem ocidental “baseada em regras”.
Depois do lançamento de sua Iniciativa do Cinturão e da Rota, em 2013, focada em investimentos em infraestrutura no exterior, Xi lançou a Iniciativa de Desenvolvimento Global em 2021 — outro esforço para usar o poder econômico chinês para reunir países desenvolvidos em seu entorno.
No ano seguinte, veio a Iniciativa de Segurança Global e, em março, a Iniciativa de Civilização Global, uma política que ainda permanece vaga e que parece destinada a contestar o conceito ocidental de valores universais. “As pessoas têm de… se abster de impor seus próprios valores ou modelos às outras”, disse o conselho de ministros da China sobre a iniciativa.
“Temos de encarar a política externa da China com novos olhos, porque essas iniciativas são novas”, disse Tuvia Gering, especialista em política externa e de segurança chinesa do Instituto de Estratégia e Segurança de Jerusalém.
O argumento da China de que a modernização não tem de ser sinônimo de ocidentalização será bem-recebido em muitos países em desenvolvimento, disse Moritz Rudolf, do Paul Tsai China Center, da Faculdade de direito de Yale, especialmente se lhes trouxer benefícios decorrentes do estreitamento da cooperação com Pequim.
“Esse parece ser um contra-argumento à narrativa do [presidente dos EUA] Joe Biden de autocracia versus democracia”, disse Rudolf. “É uma batalha ideológica mais atraente aos países em desenvolvimento do que as pessoas de Washington poderiam acreditar.”
Na América Latina, por exemplo, o sentimento geral para com a estratégia diplomática de Pequim foi positivo, disse Letícia Simões, professora-assistente da Universidade La Salle do Rio de Janeiro.
Um artigo de uma autoridade do PC chinês no ano passado dizia que Pequim já aprovou US$ 22 bilhões dos US$ 35 bilhões em empréstimos reservados à região.
Essa generosidade chinesa parece estar valendo a pena politicamente na América Central, onde, nos últimos seis anos, vários países, como Honduras no mês passado, romperam as relações diplomáticas com Taiwan.
“Governos de esquerda [ na América Latina] tendem a ter uma atitude mais positiva em relação à China, mas mesmo países de direita precisam de relações pragmáticas”, disse Simões, apontando o papel da China como a maior parceira comercial de muitos países.
O maior ativismo externo da China foi motivado, em parte, pelo pragmatismo, pela necessidade de proteger seus crescentes interesses econômicos globais, bem como pelo nacionalismo e pela geopolítica, segundo analistas.
“A China quer sentir que somos uma força nos assuntos internacionais, em consonância com nosso crescente poder”, disse Wu, da Universidade Fudan. “Mas outro fator são as tentativas dos EUA de conter a China. Eles querem nos isolar, abafar, demonizar e, por isso, precisamos adquirir a capacidade de resistir a esses esforços.”
A guerra na Ucrânia reforçou essa narrativa em algumas autoridades chinesas. “Eles acreditam sinceramente que a guerra foi provocada pelo Ocidente para liquidar a Rússia e que, assim que a Rússia for derrotada, a próxima será a China”, disse Zhao, do Carnegie.
Fonte: Valor Econômico

