Por Gregory Meyer, Kaye Wiggins e Lauren Fedor, Financial Times, Valor — de Nova York e Washington
Empresas multinacionais com funcionários estrangeiros nos Estados Unidos estão buscando assessoria jurídica e suspenderam algumas viagens após as autoridades americanas prenderem centenas de trabalhadores sul-coreanos em uma fábrica de baterias para carros elétricos na Geórgia na semana passada.
A detenção de 475 pessoas, em sua maioria cidadãos sul-coreanos, na fábrica da Hyundai-LG Energy Solution em construção na cidade de Ellabell representou uma nova frente na ampla repressão do governo de Donald Trump à imigração ilegal.
Um vídeo divulgado pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA (ICE) mostrou pessoas algemadas nos tornozelos, pulsos e cintura do lado de fora da fábrica, que faz parte dos esforços da administração Trump para expandir a manufatura dentro do país.
O ICE afirmou que, ao executar um mandado federal, encontrou indivíduos que estariam “usando vistos de visitante de forma fraudulenta”. “Os clientes estão inundando nossas caixas de entrada perguntando se também estão expostos,” disse Matthew Dunn, chefe de imigração corporativa nos EUA da HSF Kramer. “Eles perguntam se a matriz deve se preocupar, se os gerentes nos EUA estão em risco, e se os trabalhadores estrangeiros com vistos de trabalho patrocinados serão alvo do governo.”
”Outros advogados de imigração disseram acreditar que muitos dos detidos entraram nos EUA com vistos B-1, geralmente usados para reuniões de negócios, ou com isenção de visto relacionada. Muitos dos detidos trabalhavam para empresas terceirizadas.”
No entanto, as regras em torno desses termos de entrada nos EUA têm sido ambíguas. “Pode ter sido um uso agressivo da categoria B-1 para reuniões de negócios, ou pode ter sido um exagero do ICE, que talvez tenha adotado uma interpretação mais restrita do que é permitido como visitante de negócios do que o que consta nos regulamentos,” disse Dan Maranci, sócio do escritório de advocacia WR Immigration.
Charles Kuck, sócio fundador do escritório Kuck Baxter, sediado em Atlanta, disse estar representando algumas das pessoas presas em Ellabell. Segundo ele, muitos dos trabalhadores coreanos estavam nos EUA sob uma cláusula de visto que permite a fornecedores auxiliarem na instalação de equipamentos em empresas americanas.
“Dois outros clientes corporativos me ligaram no sábado — são investidores estrangeiros com grandes instalações nos EUA — perguntando como devem se preparar caso o ICE apareça na fábrica.”, afirmou Kuck.
Tami Overby, consultora de comércio internacional no DGA Group e ex-presidente do Conselho Empresarial EUA-Coreia, afirmou que grandes empresas estrangeiras suspenderam algumas viagens aos EUA enquanto analisam as implicações legais da operação na Geórgia.
“Quando isso aconteceu, foi totalmente inesperado e chocante ver centenas de trabalhadores coreanos sendo tratados como criminosos,” disse ela. “Esses vídeos e fotos circularam não só na Coreia, mas também no Japão, em Taiwan e em outros parceiros comerciais dos EUA que também têm grandes investimentos no país”, afirmou.
Em entrevista à “CNN” no domingo, o czar da imigração de Trump, Tom Homan, afirmou que haveria “muito mais operações de fiscalização em locais de trabalho”, dizendo que contratar estrangeiros ilegalmente prejudica os salários dos americanos.
A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, disse na segunda-feira que a operação não deve desestimular investimentos nos EUA. Em Londres — onde participava de uma reunião do grupo “Five Eyes” com ministros do Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia — ela afirmou que “essa é uma ótima oportunidade para garantir que todas as empresas saibam quais são as regras do jogo ao virem para os Estados Unidos.”
Segundo Tami Overby, os setores mais expostos a ações semelhantes envolvendo vistos de negócios são aqueles que dependem fortemente de mão de obra estrangeira — especialmente onde há escassez de trabalhadores americanos qualificados, como fabricação de baterias, construção naval e semicondutores.
Fontes próximas à TSMC disseram que a operação contra a Hyundai é vista como um “caso especial”, e que a empresa não estaria em risco de ações semelhantes. A TSMC não quis comentar.
No entanto, executivos taiwaneses disseram que a operação causou insegurança na comunidade empresarial estrangeira. “Talvez Trump tenha feito isso por algum motivo político, para enviar uma mensagem ao governo da Coreia do Sul,” disse um executivo. “O governo dos EUA se tornou muito diferente e imprevisível agora.”
Ola Kallenius, diretor-executivo da Mercedes-Benz, que possui fábricas nos EUA, disse na segunda-feira que não está preocupado com impactos maiores da operação: “É preciso respeitar as leis e regulamentos. Nós fazemos isso e continuaremos investindo [nos EUA]”, disse ele.
Robert Loughran, advogado de imigração na Foster Global, no Texas, afirmou que a operação terá um “efeito inibidor” nas fábricas. Mas observou que isso ocorre após um período de aplicação frouxa das regras:“
Houve períodos de quatro anos em que o ICE foi orientado a ficar sentado em suas mesas, a menos que fosse em resposta a uma denúncia específica,” disse Loughran. “Agora temos o oposto. Agora há unidades do ICE incentivadas a ir a campo e encontrar violações da lei de imigração. E, francamente, é um ambiente cheio de alvos.”
Fonte: Valor Econômico
