Empresas multinacionais estão migrando para o mercado de títulos da China em um ritmo recorde, enquanto buscam financiamento mais barato e proteção contra o agravamento das relações entre Pequim e os EUA.
A emissão dos chamados “panda bonds” — empréstimos em yuans por empresas estrangeiras nos mercados da China continental — alcançou 194,8 bilhões de yuans (US$ 26,5 bilhões) em 2024, o maior nível já registrado para um ano completo. No primeiro trimestre deste ano, chegou a 41,6 bilhões de yuans, sua segunda melhor emissão trimestral desde que o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento venderam os primeiros desses títulos em 2005.
Mercedes-Benz, HSBC e Trafigura estão entre os grupos estrangeiros que lideraram essa onda de captação. Muitas empresas estão ansiosas para aproveitar as taxas de juros chinesas, que são muito mais baixas do que em outros lugares, como nos EUA e na Europa.
A emissão marca uma mudança na estratégia das empresas globais, que agora buscam emitir dívidas para suas subsidiárias na China localmente, em vez de captar recursos no exterior e depois transferi-los para suas unidades chinesas. Analistas afirmam que essa estratégia “na China para a China” pode ajudar os grupos estrangeiros a reduzir os custos de transação — ou até mesmo se proteger contra possíveis restrições financeiras a suas unidades locais, caso a guerra comercial entre EUA e China se intensifique.
“As incertezas geopolíticas estão pressionando os diretores financeiros e tesoureiros globais a considerar a diversificação das moedas usadas para financiamento, o que impulsiona ainda mais a oferta de panda bonds”, disse Terry Zhang, chefe de estratégia global e gestão de negócios da CSCI Pengyuan, uma agência de análise de risco na China.
Joerg Wuttke, sócio do DGA-Albright Stonebridge Group e ex-presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, disse que emitir dívida localmente significa que os bancos chineses detêm uma parte do “risco China” de uma empresa internacional.
“Empresas europeias preferem manter a dívida registrada no balanço de seus países de origem”, acrescentou.
“A diversificação não beneficia apenas nossas operações na China, mas também alivia a pressão sobre nossos níveis de financiamento em mercados consolidados como o euro e o dólar americano”, disse um porta-voz da Mercedes-Benz.
“De modo geral, estamos tentando captar recursos nos mercados em que atuamos e apoiar seu desenvolvimento… Especialmente em tempos de tensões comerciais e volatilidade de mercado, com nossos panda bonds estamos satisfeitos por ter acesso a fontes adicionais de financiamento a taxas atraentes.”
O HSBC apontou ao “Financial Times” um comunicado divulgado em novembro de 2024, após uma emissão de 4,5 bilhões de yuans em títulos, no qual a empresa afirmou que os recursos seriam usados para “apoiar a crescente demanda das empresas por yuans e a internacionalização mais ampla dessa moeda”.
A Trafigura não respondeu ao pedido de comentário.
Os rendimentos dos títulos soberanos chineses de 10 anos estão próximos da mínima histórica atingida em janeiro, em meio a preocupações de que a economia doméstica entre em uma espiral deflacionária. Isso aumentou a diferença nos custos de empréstimos em relação aos EUA, o que, segundo os bancos de investimento, tornou os panda bonds uma rota de captação atraente.
A taxa de cupom cambial média caiu para menos de 2% no primeiro trimestre de 2025, comparados aos 3,4% em 2022, de acordo com dados da provedora Wind, o que aumentou o interesse pela emissão desse tipo de dívida.
“Há um interesse contínuo por parte de empresas estrangeiras em emitir panda bonds este ano devido às baixas taxas”, disse Zhang Xing, chefe de mercados de capitais de dívida do banco de investimentos China International Capital Corporation.
O mercado de panda bonds ainda é muito menor do que o chamado mercado de “dim sum bonds” — dívidas denominadas em yuan emitidas em Hong Kong e disponíveis para investidores internacionais.
“A emissão de panda bonds é algo que o governo chinês quer desenvolver de forma geral”, disse Christopher Li, analista da mesa de negociação de crédito da Ásia do BNP Paribas, em referência ao esforço de Pequim para desenvolver seus mercados de capitais e aumentar o uso do yuan.
“Isso dá aos emissores [estrangeiros] uma maneira alternativa de financiar [suas operações] e oferece aos investidores um rendimento mais alto do que os títulos [soberanos e corporativos] locais”, acrescentou.
Alguns governos estrangeiros também estão considerando emitir panda bonds. A Hungria afirmou no mês passado que pretendia vender dívida na China continental este ano.
A emissão de panda bonds começou a decolar após 2016, à medida que as taxas de juros de referência nos EUA e na China passaram a divergir. Em 2023, a Administração Estatal de Câmbio da China, que regula o mercado cambial, afirmou que os emissores poderiam movimentar livremente os recursos para o exterior.
Mas alguns economistas alertam que condições econômicas globais mais voláteis, provocadas pelo regime tarifário errático do presidente dos EUA, Donald Trump, podem em breve frear a emissão de panda bonds.
Alicia García Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico do Natixis, disse que a emissão provavelmente cairá nos próximos meses devido à taxa de câmbio mais volátil do yuan.
A maior parte da emissão deste ano tem vindo de empresas chinesas no exterior e de organizações multilaterais, como o Novo Banco de Desenvolvimento, acrescentou ela, com apenas algumas empresas alemãs e de outros países não chineses entrando no mercado.
Fonte: Valor Econômico

