A presidente do México, Claudia Sheinbaum, durante abertura do G20 — Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O México respondeu às ameaças de tarifas do presidente eleito dos EUA Donald Trump com palavras duras nesta terça-feira, embora a queda do peso mexicano tenha mostrado como o país latino-americano é vulnerável a uma guerra comercial contra o vizinho.
Altamente dependente do comércio exterior com os EUA e dos investimentos do país, sofrendo com uma onda de violência ligada ao tráfico de drogas e sob o comando de uma presidente recém-empossada, o México depara-se com um enorme desafio ao lidar com o presidente eleito dos EUA.
A ameaça de tarifas de Trump feita na segunda-feira, que na prática rasgaria o acordo de livre comércio dos EUA com o vizinho do sul e imporia um imposto de 25% sobre as exportações do México, foi suficiente para derrubar o peso mexicano em 1,7% em relação ao dólar na manhã de terça-feira. No acumulado desde abril, a queda é de quase 20%.
Cerca de 83% de todas as exportações do México são destinadas aos EUA — em sua maioria, carros, caminhões e produtos eletrônicos —, com o vizinho do norte também investindo US$ 236 bilhões na economia mexicana. Em 2023, as remessas enviadas por mexicanos dos EUA somaram US$ 63 bilhões.
Apesar das altas apostas em jogo, Claudia Sheinbaum, a nova presidente do México, decidiu, basicamente, confrontar o presidente eleito dos EUA ao ler, em sua entrevista coletiva matinal de terça-feira, uma carta dirigida a Trump que ela ainda não havia enviado.
O texto insinuou retaliações, acusou Trump de “provavelmente não estar ciente” do trabalho realizado pelo México em relação à migração e atacou os EUA por suas exportações ilegais de armas.
O tom firme de Sheinbaum contrastou com a abordagem conciliadora do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau. O país também foi ameaçado com uma tarifa de 25% e Trudeau conversou com o presidente eleito dos EUA por telefone na segunda-feira.
As diferenças de abordagem ressaltaram as preocupações dos analistas sobre a capacidade do México de lidar com um segundo mandato de Trump nos EUA.
“Não acredito que eles estivessem preparados para as realidades da agenda de Trump”, disse Andrés Rozental, ex-vice-ministro das Relações Exteriores do México. “Eles estavam num mundo de fantasia, esperando que as ameaças constantes de Trump e sua equipe não fossem sérias e que, de qualquer forma, ele seria neutralizado pelo lobby empresarial dos EUA.”
Apesar de, nos estágios finais de sua campanha eleitoral, o presidente eleito ter ameaçado impor uma tarifa de 25% sobre o México, o novo governo mexicano, que assumiu o cargo em outubro, parecia não tê-lo levado a sério.
Sheinbaum minimizou a importância da retórica, dizendo aos mexicanos que eles não tinham nada a temer e que as relações com Washington seriam boas.
Em vez disso, na segunda-feira, Trump criticou o México por não controlar o fluxo de imigrantes ilegais e de drogas pela fronteira sul dos EUA, ameaçando impor tarifas até a situação ser resolvida.
“Claudia vive no mundo acadêmico, enquanto Trump vive no mundo das negociações imobiliárias de Nova York”, disse Ernesto Revilla, economista-chefe para a América Latina do Citigroup.
William Jackson, economista-chefe para mercados emergentes da firma de análises econômicas Capital Economics, disse que, se Trump impusesse tarifas de 25% ao México, o peso poderia desvalorizar-se até 25%, embora ressaltando que, diante de tantas incertezas, é difícil fazer previsões.
Ao que parece, Sheinbaum nutria a esperança de manter a abordagem de seu mentor e antecessor, Andrés Manuel López Obrador, que construiu uma amizade improvável com Trump, apesar de estarem em extremos opostos do espectro ideológico.
López Obrador respondeu às ameaças do primeiro mandato de Trump negociando um acordo: o México controlaria a migração ilegal de seu território para os EUA, e os americanos o deixariam em paz em outros assuntos.
A migração diminuiu e a ameaça de tarifas foi retirada, com Trump assinando um acordo de livre comércio reformulado entre EUA, México e Canadá, em 2020. Em 2023, o México ultrapassou a China e se tornou o maior parceiro comercial dos EUA.
No entanto, a migração irregular para os EUA disparou. Durante o governo Biden, quase 6 milhões de migrantes foram interceptados na fronteira com o México ou deportados entre 2021 e 2023, em comparação com 1,6 milhão nos primeiros três anos da presidência de Trump. As mortes americanas pelo opioide sintético fentanil, quase inteiramente importado do México, ultrapassam 80 mil por ano.
Uma das primeiras medidas de Sheinbaum ao assumir o cargo foi um orçamento que cortou em cerca de 35% os gastos com segurança — exatamente a área na qual Trump gostaria de ver o México fortalecendo suas ações.
Ela também avançou com planos para eliminar reguladores independentes nos setores bancário, de telecomunicações e de concorrência, entre outros, além de permitir que eleitores escolham todos os juízes, inclusive os do Supremo Tribunal — medidas que, segundo especialistas, podem infringir o acordo comercial com os vizinhos.
Para agravar ainda mais as dificuldades de Sheinbaum, sua equipe parece mal preparada para lidar com o enorme desafio representado por Trump.
A presidente mexicana ainda não nomeou um embaixador para Washington, e o atual, Esteban Moctezuma, de perfil discreto, teve pouco impacto no Congresso dos EUA nos últimos seis anos.
O ministro das Relações Exteriores, Juan Ramón de la Fuente, tem experiência nos EUA apenas na ONU em Nova York, e não em Washington. Marcelo Ebrard, ex-ministro das Relações Exteriores e, agora, ministro da Economia, concorreu contra Sheinbaum pela nomeação presidencial, e os dois não têm uma relação próxima.
López Obrador, que Trump chamou em 2023 de “um sujeito fantástico”, foi hábil em usar a questão dos migrantes para pressionar os EUA, lembrando aos americanos de que tinha o poder de restringir o fluxo de pessoas pelo México rumo à fronteira.
Mas com as ameaças do presidente eleito de concluir a construção do muro na fronteira e usar os militares para deportar imigrantes ilegais, Revilla, do Citigroup, diz que “desta vez (será) muito mais difícil para o México”.
(Colaborou Christine Murray, da Cidade do México)
Fonte: Valor Econômico
