Quase dois anos após o início do ciclo de aumento das taxas de juros, o Banco Central Europeu (BCE) realizou nesta quinta o seu primeiro corte. A redução de um quarto de ponto porcentual, de 4% para 3,75%, que a presidente Christine Lagarde havia preparado nos últimos meses, dará algum alívio aos tomadores de empréstimos europeus. O BCE cumpriu o que havia sinalizado, o que é importante para a credibilidade da instituição. Ele também tomou uma atitude pragmática e preventiva.
A atividade de banco central diz respeito a avaliar riscos. Desde a pandemia, o receio é que a alta da inflação se intensifique se as taxas de juros não forem restritivas o suficiente. Lentamente, a dinâmica mudou. Agora, com a inflação em tendência de queda e se aproximando dos 2% nas economias avançadas, o impacto do custo elevado do crédito sobre a atividade econômica está recebendo mais atenção. As taxas continuam altas demais, por tempo demais, e a inflação poderá cair demais — e levar consigo o crescimento.
Na zona do euro, a inflação vem descendo suavemente em direção aos 2% durante todo o ano, com um pequeno soluço no mês passado. Os indicadores futuros parecem promissores. Pesquisas sobre as expectativas de preços de vendas das empresas apontam para um enfraquecimento de componentes do núcleo da inflação à frente, tal como a queda dos salários anunciada em postagens monitoradas pelo Indeed, um quadro do mercado de trabalho.
Os sinais de que a tendência de desinflação continuará, combinado com 18 meses de crescimento econômico trimestral fraco, são uma razão suficientemente decente para remover o nível máximo de restrição das taxas. Embora os indicadores recentes pareçam mais otimistas para a atividade econômica, as condições de crédito restritivas e o declínio dos planos de contratação sugerem que essa permanece reprimida.
Lagarde ainda foi sensata ao manter-se calada sobre as movimentações posteriores do BCE. O aumento da inflação na zona do euro em maio combinado com a incerteza econômica global — inclusive sobre as cadeias de abastecimento e os regimes tarifários — demonstra que ainda há risco de os preços subirem. Assim, o corte de 25 pontos-base, que mantém a política do BCE relativamente restritiva, deve ser visto como um passo calibrado para aliviar a pressão sobre a economia da zona do euro, e não como o começo de um ciclo rápido de flexibilização.
Os bancos centrais das economias avançadas estão cada vez mais cientes de que esperar até que a inflação chegue aos 2% antes de cortar os juros pode ser tarde demais. Na quarta-feira, o Banco do Canadá fez o seu primeiro corte. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) e o Banco da Inglaterra também terão de fazer suas próprias avaliações dos riscos nas próximas semanas.
Até recentemente, o forte crescimento econômico e um processo de desinflação intermitente aumentaram a possibilidade de o Fed adiar os cortes nas taxas de juros ainda mais para frente no ano. Mas uma série de dados, incluindo uma perspectiva desanimadora para a indústria, mais sinais de desaquecimento do mercado de trabalho e uma retomada da tendência de queda no núcleo da inflação em abril — embora ainda muito acima da meta — encorajaram os defensores de uma abordagem mais cautelosa a pedirem um primeiro corte preventivo. Os dados mais recentes das folhas de pagamento, que serão divulgados hoje, fornecerão um quadro mais claro.
No Reino Unido, a inflação teve uma redução poderosa em abril para apenas 2,3% e ainda assim os juros continuam em seu pico neste ciclo. O desemprego vem aumentando e a atividade de contratação está enfraquecendo, embora os defensores de uma política mais restritiva apontem para alguns riscos de persistência nos preços.
Após vários meses ultrapassando suas metas de inflação, as autoridades monetárias estão compreensivelmente preocupadas com a possibilidade do aumento dos preços voltar a se impor. Mas eles também precisam estar atentos à mudança no equilíbrio dos riscos, à medida que equilibram a inflação e o crescimento. Outros bancos centrais poderão considerar que não precisam copiar a decisão do BCE imediatamente, mas é pouco provável que estejam longe de fazer isso.
Fonte: Valor Econômico
