Grandes investidores recorreram ao ouro e ao dólar americano em vez da segurança tradicional dos títulos dos Estados Unidos ou de outros governos de economias desenvolvidas, à medida que cresce a ansiedade em relação a um choque inflacionário ameaçado pela guerra no Irã.
O ouro disparou para perto de uma máxima histórica, subindo 2,5%, para mais de US$ 5.400 a onça-troy, enquanto ataques com drones às instalações de gás natural do Catar aumentaram os temores de uma nova crise energética. Mais tarde, desacelerou e encerrou o dia em alta de 1,21%, a US$ 5.311.
Mas os títulos de governos, normalmente um porto seguro em mercados turbulentos, enfraqueceram conforme os investidores se preparavam para um aumento da inflação, elevando o rendimento dos títulos públicos alemães de dois anos em 0,07 ponto percentual, para 2,08%.
“Estamos vendo os títulos novamente falhando em fornecer proteção contra eventos de aversão a risco, mesmo com o ouro se valorizando”, disse Seb Barker, estrategista-chefe da gestora de fundos hedge Marshall Wace. Ele afirmou que os eventos no Golfo “reforçam” a necessidade de aumentar as alocações para o que ele chamou de “ativos de refúgio seguro que não sejam títulos”.
Analistas do BlackRock Institute disseram que a reação do mercado mostrou que “os títulos do governo de longo prazo não são um lastro confiável para portfólios, dados os potenciais riscos de estagflação decorrentes de uma escalada deste último conflito no Oriente Médio”.
Robert Tipp, chefe de renda fixa global da PGIM, disse que o ouro estava se beneficiando de um “prêmio de incerteza global” que questiona: “O que é um porto seguro no ambiente atual? O que é um ativo neutro?”
À medida que o Irã ampliava seus ataques contra a infraestrutura energética do Catar à Arábia Saudita, alguns investidores se preparavam para um conflito prolongado. “As guerras sempre duram mais do que imaginamos”, disse um operador sênior de um grande banco de Wall Street, destacando o dólar e o ouro como os principais ativos de refúgio.
No fim do dia, o índice DXY, que mede a força do dólar ante uma cesta de moedas de países desenvolvidos, subia 0,85%, desempenhando seu papel típico de porto seguro nos mercados cambiais em momentos de tensão que não se concentram nos EUA.
A crescente incerteza levou algumas grandes gestoras de ativos a reduzir suas participações em ações.
A gestora francesa Carmignac vem reduzindo sua exposição a ações, inclusive no Japão, e estava considerando fazer o mesmo com ações ligadas ao petróleo que dispararam, disse Kevin Thozet, membro de seu comitê de investimentos. Ele acrescentou: “Estamos reduzindo um pouco o risco, porque… a gama de possibilidades é bastante ampla.”
Além de comprar opções de venda (“put”) do S&P 500 para se proteger contra possíveis quedas no índice de ações de primeira linha, Thozet disse que a Carmignac estava mantendo parte do dinheiro que havia retirado de ações em caixa, dados os riscos que um aumento da inflação representaria para os títulos do governo.
Beata Manthey, chefe de estratégia global de ações do Citi, disse que o banco rebaixou as ações japonesas de acima da média do mercado (“overweight”) para abaixo do média (“underweight”), dada a exposição particular desse mercado aos preços mais altos do petróleo, e elevou a recomendação para as ações do Reino Unido, que são fortemente concentradas nos setores de defesa e energia.
“Se a situação piorar, os investidores reduzirão o risco onde puderem, então haverá uma liquidação mais coordenada”, acrescentou. “Por enquanto… ainda é relativamente seletiva.”
O ouro se beneficiou da liquidação generalizada de ativos e agora recuperou a maior parte das perdas sofridas durante a forte queda em janeiro. “O ouro tem defendido repetidamente seu papel como o porto seguro definitivo em períodos de crescente incerteza e riscos”, disse Imaru Casanova, gestor de portfólio de metais preciosos da VanEck.
Analistas da Natixis afirmaram que um conflito prolongado no Irã poderia adicionar até 15% ao preço do ouro, com grande parte desse impacto provavelmente sendo sentido nas primeiras semanas.
As implicações inflacionárias dos preços mais altos da energia — o gás natural subiu quase 50% na Europa durante o pregão de segunda-feira — levaram os investidores a reduzir suas expectativas de cortes nas taxas de juros, elevando os rendimentos de títulos globais.
Para o Reino Unido, dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa de juros pelo Banco da Inglaterra não estão mais totalmente precificados até o final deste ano, de acordo com contratos de swap, que agora implicam uma probabilidade de cerca de 60% de um segundo corte. Os rendimentos dos títulos de dois anos, que são sensíveis às expectativas de taxas de juros, subiram até 0,14 ponto percentual.
Na zona do euro, a probabilidade de outro corte de 0,25 ponto percentual este ano caiu para cerca de 10%, ante aproximadamente 55% na semana passada.
A principal preocupação dos grandes investidores é por quanto tempo os preços mais altos do petróleo e do gás podem durar, incluindo a extensão da interrupção no Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento no Golfo que é crucial para o comércio marítimo de commodities.
“Quanto mais tempo durar o conflito, mais os bancos centrais terão que incorporar essas pressões inflacionárias em suas previsões, exercendo pressão ascendente sobre as taxas de juros”, disse Nicolas Trindade, gestor sênior de portfólio da BNP Paribas Asset Management.
Fonte: Valor Econômico
