Por Costas Mourselas, Financial Times — Londres
07/02/2024 21h09 Atualizado há 10 horas
Uma das mais conhecidas e antigas estratégias de fundos hedge sofreu retiradas de clientes de quase US$ 150 bilhões nos últimos cinco anos, com os investidores cansados da incapacidade desses fundos de aproveitar as fases de alta do mercado e protegê-los nos períodos de baixa.
Os chamados fundos de ações “long-short”, que tentam comprar papéis que provavelmente se sairão bem e apostam contra nomes que os gestores acreditam que terão fraco desempenho, tiveram um desempenho inferior ao da média do mercado de ações dos Estados Unidos em nove dos últimos dez anos, segundo a Nasdaq eVestment, depois de não conseguirem se adaptar aos mercados dominados, em grande parte, pelos bancos centrais.
O fraco desempenho e as retiradas marcam o fim melancólico de uma estratégia conhecida por seus grandes farejadores de ações promissoras, como Julian Robertson da Tiger Management, Pierre Lagrange da GLG e John Armitage da Egerton.
“Dez anos atrás, as pessoas costumavam falar sobre os grandes farejadores de ações”, diz Donald Pepper, presidente-executivo adjunto da gestora de fundos hedge Trium, que administra cerca de US$ 1,7 bilhão. “Ainda há algumas celebridades como Chris Hohn [da TCI], mas não há muito mais delas por aí.”
Lançados em 1949 pelo investidor Aldred Winslow Jones — visto como o primeiro gestor de fundo hedge do mundo —, os fundos long-short foram concebidos como forma de “proteção” contra as flutuações gerais do mercado, por meio de suas apostas tanto em ações vencedoras como perdedoras.
A estratégia resultou em retornos de dois dígitos em quase todos os anos do “bull market” dos anos 90, segundo o grupo de dados HFR, com muitos fundos então lucrando com a venda a descoberto de grupos pontocom valorizados demais na crise que se seguiu. Durante a crise financeira global, fundos como o Lansdowne Partners ganharam milhões apostando contra o condenado banco britânico Northern Rock.
Mas desde então, muitos fundos vêm tendo problemas, malogrando em mercados dominados pelas compras de bônus pelos bancos centrais e pelos juros baixos. Enquanto isso, eles ficaram muito atrás dos fundos passivos que seguem índices (ETFs) e obtiveram ganhos enormes com o bull market.
Um investidor que colocou US$ 100 em um fundo de ações long-short dez anos atrás, teria hoje em média US$ 163, segundo uma análise do “Financial Times” de números fornecidos pela Nasdaq eVestment. Se ele tivesse investido no fundo de índices da Vanguard que acompanha o Standard & Poor’s 500, com dividendos reinvestidos, ele teria conseguido US$ 310.
“Não é preciso que os seus fundos hedge superem o S&P 500 todos os anos, mas você vai querer que eles o superem ao longo do tempo, por exemplo, ao longo da última década”, afirma o consultor de um fundo de pensão que aloca bilhões de dólares em fundos hedge.
Os grandes fundos vêm sofrendo. Alguns dos chamados “Tiger cubs” (filhotes de tigre) — gestores cujas raízes remontam à firma de Robertson — estão entre os que foram duramente atingidos na queda do mercado em 2022, incluindo o outrora bem-sucedido Tiger Global, de Chase Coleman, e o Maverick Capital, de Lee Ainslie.
Em outubro, o “Financial Times” anunciou retiradas de bilhões de dólares do fundo hedge Pelham Capital, baseado em Londres e administrado pelo ex-gestor de portfolio da Lansdowne Ross Turner, e em 2022, o “FT” revelou que a Adelphi Capital, de Roderick Jack e Marcel Jongen, iria devolver capital e se transformar em escritório de gestão de ativos de famílias ricas.
Quando a Lansdowe fechou seu principal fundo de ações de mercados desenvolvidos em 2020, após admitir que havia se tornado difícil encontrar ações para vender a descoberto, muitos viram a decisão como um sinal de um problema profundo no setor.
Os gestores long-short queixaram-se durante anos que as taxas de juros ultrabaixas permitiram que companhias mais fracas — que antes teriam sido excelentes alvos para posições a descoberto — cambaleassem por mais tempo e, em alguns casos, que os preços de suas ações disparassem. Isso, segundo eles, tornou seus lucros mais difíceis.
Mas um aumento acentuado nas taxas de juros nos últimos dois anos não ajudou a reanimar a sorte da estratégia. Após grandes perdas na queda do mercado de 2022, os fundos deveriam ter uma reação no ano passado, à medida que os juros mais altos separaram as empresas mais fortes das mais fracas. Mas os fundos ganharam em média 6,1%, comparado à alta de 26,3% do S&P 500.
Adam Singleton, diretor de investimentos da gestora Man Solutions, que aplica em outros fundos hedge, diz que a baixa volatilidade e o mercado em alta do ano passado tornou difícil para os gestores long-short provarem seu valor.
“Os juros mais altos deveriam levar ao sucesso das melhores empresas e ao fracasso das ruins, mas eu acho que os mercados estavam voltados demais para o que autoridades como o Federal Reserve iriam fazer.”
Depois de mais de uma década de desculpas, os investidores estão perdendo a paciência. Richard Byworth, sócio-gestor da Syz Capital, diz que suas carteiras não investem em fundos long-short há quase dois anos. “Com as taxas elevadas, os gestores long-short simplesmente não estão com um desempenho nem perto de um nível que justificaria uma posição em nosso portólio. É simples assim”, diz ele.
Após 23 meses consecutivos de retiradas dos investidores, os ativos dos fundos de ações long-short caíram para US$ 723 bilhões, abaixo dos níveis de cinco anos atrás, segundo a Nasdaq eVestment. Parte desse dinheiro fluiu para os fundos hedge multigestão, que distribuem o dinheiro dos clientes por uma série de estratégias, incluindo ações long-short. Esses fundos investem pesadamente em gestão de risco e são bem menos afetados pelo desempenho de um grande farejador de ações.
Nem todo mundo está pessimista. Há sinais iniciais de que as operações a descoberto estão finalmente se tornando “mais frutíferas” à medida que as taxas de juros mais altas atingem as empresas de qualidade fraca, segundo afirma um executivo, enquanto alguns alocadores como Kier Boley, chefe adjunto de soluções alternativas de investimentos da gestora suíça UBP, acreditam que os fundos irão lucrar à medida que as atenções do mercado de voltarem novamente para os fundamentos das empresas.
“Estou otimista com as perspectivas para as estratégias long-short”, diz Mario Unali, um gestor de portfólio da firma de investimentos Kairos. “Os fundos long-short provavelmente voltarão aos níveis de performance do período pré-2008”, diz.
Mas um executivo de um grande fundo long-short se mostra menos otimista, afirmando que uma queda amplamente esperada nas taxas de juros globais afetará o setor. “Qual fundo hedge já disse que a próxima década não será excelente [para sua estratégia em particular]? Mas os fundos hedge long-short continuarão definhando se as taxas voltarem a zero”, diz ele.
Fonte: FT/Valor Econômico
