Por Financial Times, Valor
05/12/2022 21h34 Atualizado há 11 horas
É uma das intervenções mais fortes da história no mercado mundial de petróleo. Desde a última segunda-feira (5), a União Europeia (UE) proíbe as importações de petróleo da Rússia por via marítima. Ela também se junta aos EUA, ao Reino Unido e ao Ocidente de forma geral na proibição de que suas empresas transportem petróleo russo para qualquer lugar do mundo ou forneçam serviços como seguros, a menos que Moscou venda seu petróleo por um preço inferior a um teto estabelecido por eles.
Juntos, o embargo, as proibições de fornecimento de serviços e o teto de preço representam uma reestruturação política sem precedentes dos fluxos mundiais de petróleo.
Mas o impacto dessas sanções dependerá das próximas ações da Rússia, do Ocidente e dos países emergentes que tentam permanecer neutros em relação à invasão da Ucrânia pelo presidente russo, Vladimir Putin.
No curto prazo, é possível que pouca coisa mude. Como o teto de preço de US$ 60 por barril está próximo do valor pelo qual o petróleo russo já era negociado (as restrições financeiras e as sanções autoimpostas por empresas provocaram um forte desconto nos preços mundiais), muita coisa pode continuar como antes.
Em especial, é pouco provável que o teto de preço atinja seu objetivo declarado de cortar as receitas russas o suficiente para restringir a capacidade de Putin de continuar a guerra.
A Rússia anunciou que se recusará a vender petróleo para os países que obedeçam ao acordo de teto de preços. Se volumes significativos de petróleo forem retirados do mercado, os preços podem disparar.
Nesse caso, porém, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), avaliará se um novo pico é de seu interesse. No fim de semana, o cartel decidiu não alterar sua produção e sugeriu que prefere manter as coisas estáveis.
E a ameaça russa pode ser uma bravata, a depender do que o país considera como “obediência”. Boa parte de suas exportações foi reorientada para compradores de mercados emergentes, como China e Índia. Não há nenhuma perspectiva de que esses países adotem formalmente a política UE-G7 — mas isso não significa que não a usarão para barganhar condições mais vantajosas com Moscou. Isso é precisamente o que o Ocidente espera. A pressão diplomática por um alinhamento “suave”, com base no fato de que é bom para os países importadores comprarem petróleo mais barato, provavelmente conseguirá mais cooperação do que a ferramenta mais agressiva das sanções secundárias.
Os aliados ocidentais da Ucrânia têm mais trabalho pela frente. Eles precisam fazer um esforço diplomático para garantir o respeito generalizado, mesmo que informal, ao teto de preços. A Rússia usará qualquer acordo que fechar por valores superiores ao teto — mesmo que marginalmente — para alardear uma vitória. Eles também precisam alocar recursos suficientes para monitorar e fazer cumprir sua política. As empresas ocidentais de transporte marítimo e serviços sem dúvida se verão diante de tentativas de driblar o teto como, por exemplo, por meio de documentos falsificados.
As difíceis realidades práticas refletem a dificuldade do dilema político que os governos ocidentais enfrentam ao tentar reduzir as receitas da Rússia e ao mesmo tempo limitar o custo disso para eles. O teto surgiu das preocupações dos EUA de que as sanções que a UE promulgou primeiro — que não previam exceções para o petróleo vendido abaixo de um determinado preço — iam longe demais. O salto nos preços que poderia acontecer caso os mercado globais perdessem acesso a uma parte demasiado grande do petróleo russo era a última coisa que o governo do presidente Joe Biden gostaria às vésperas das eleições legislativas realizadas em novembro nos EUA.
O resultado é o desejo um tanto contraditório de que o petróleo continue a fluir, mas a receita não flua para os cofres da Rússia. A ideia original da UE prejudicaria ainda mais a Rússia, mas também imporia custos grandes às economias ocidentais. A autoproteção dos EUA prevaleceu. Tal como acontece com o apoio militar e as sanções financeiras, o Ocidente fica de novo um pouco aquém de sua promessa de fazer tudo em seu poder para ajudar a Ucrânia. Nas previstas revisões regulares, a coalizão deve ter a meta de reduzir o preço máximo, se necessário.
Mesmo assim, este último ato de união ocidental pela Ucrânia, ainda a um custo significativo para os aliados, não é coisa pequena. As sanções ao petróleo podem ser vistas, e com razão, como dois passos para a frente e um para trás — mas na direção certa.
Fonte: Valor Econômico
