No ano passado, o governo Joe Biden lutou para evitar uma guerra regional no Oriente Médio, temendo que isso pudesse atrair os EUA ou causar estragos na economia mundial.
Esta política está agora muito perto de fracassar. Pela segunda vez neste ano, o Irã disparou mísseis contra Israel, e os EUA ajudaram Israel a derrubar os mísseis. Jake Sullivan, o conselheiro de segurança nacional dos EUA, prometeu que haverá “consequências severas” para o Irã e disse que os EUA “trabalharão com Israel” para garantir que este seja o caso. Isso soa como uma ameaça de ação militar conjunta EUA-Israel contra o Irã.
Em abril, Israel foi persuadido a limitar sua retaliação a um nível que os iranianos pudessem aceitar tacitamente — e a troca de retaliações parou. Desta vez, parece muito menos provável que se possa impedir uma escalada na troca de hostilidades entre o Irã e Israel.
Israel acaba de lançar uma segunda frente em sua guerra contra seus inimigos regionais, com uma invasão terrestre no Líbano na sequência dos ataques mais devastadores já desferidos contra o Hezbollah, a força militante apoiada pelo Irã. O governo de Benjamin Netanyahu sente que colocou seu inimigos para correr. Pode querer revidar duramente o Irã, esperando causar danos duradouros à República Islâmica e talvez ao seu temido programa nuclear.
Os iranianos certamente entenderam os riscos da contraescalada israelense, e alguns em Teerã podem temer que estejam entrando em uma armadilha ao disparar mísseis contra Israel mais uma vez. Mas não responder aos ataques de Israel ao Hezbollah — que se seguiram ao assassinato em julho de Ismail Haniyeh, o líder do Hamas, em Teerã — também pareceu um risco sério para o Irã.
A lógica da guerra e da dissuasão sugere que um poder que é incapaz de defender seus amigos ou de responder a ataques em sua capital parece fraco. E a fraqueza convida a novos ataques, ao mesmo tempo em que leva à perda de influência e prestígio.
Por trás de seu discurso duro, a Casa Branca ainda pode estar pedindo a Israel que calibre sua resposta e não revide tão duramente que o Irã se sinta compelido a aumentar a aposta. Depois de se retirar do Afeganistão, o governo Biden não deseja ser arrastado para outro conflito no Oriente Médio.
Com as forças israelenses já lutando em Gaza e no Líbano, o governo Netanyahu pode ter suas próprias razões para não intensificar o conflito direto com o Irã agora. Mas se os israelenses decidirem que querem tomar uma ação direta muito mais dura, eles já mostraram que estão perfeitamente felizes em ignorar os apelos do governo Biden por contenção. A Casa Branca pode achar que, ao trabalhar com Israel, poderia exercer mais influência sobre a força e a natureza da resposta israelense.
Os EUA vinham pedindo a Israel há meses que não lançasse um ataque ao Hezbollah. Depois que Israel iniciou os ataques em setembro, Biden se juntou ao Reino Unido, França e outros para pedir um cessar-fogo imediato no Líbano. Foi ignorado mais uma vez.
A prontidão do governo Netanyahu em simplesmente ignorar os desejos de seu aliado mais próximo e garantidor de segurança decorre de um paradoxo no cerne da política dos EUA. O governo Biden pode e pede que Israel mostre contenção em Gaza e no Líbano. Mas também sempre protegerá Israel das consequências da escalada, citando o compromisso abrangente de defendê-lo do Irã e de seus outros inimigos regionais.
Como resultado, Netanyahu entende que desafiar Biden é quase isento de riscos. Na verdade, pode até haver alguns benefícios se isso levar os EUA a empregar o seu poderio militar contra o Irã.
As chances de os EUA se recusarem a apoiar Israel em uma crise — sempre pequenas — são ainda mais minimizadas pelo fato de que os EUA estão a pouco mais de um mês da eleição presidencial. Kamala Harris flertou em adotar uma linha mais dura com Netanyahu em Gaza. Mas ela também vai querer parecer dura e totalmente solidária a Israel em um momento de perigo. E ela não pode arriscar parecer branda com o Irã, com o qual os EUA têm sua própria longa história de antagonismo, que remonta à crise dos reféns de 1979-81.
Mas a atual situação perigosa pode ser uma má notícia para Kamala. Donald Trump gosta de alardear que o mundo estava em paz durante sua Presidência, mas que a “fraqueza” de Biden levou a guerras na Europa e no Oriente Médio. Esta última escalada se encaixa perfeitamente em sua narrativa.
Toda vez que há uma eleição presidencial nos EUA, há especulações sobre uma possível “surpresa de outubro” que vira a disputa a apenas algumas semanas da votação. Israel e Irã acabaram de entregar a surpresa de outubro desta eleição, e Trump pode ser o beneficiário.
Fonte: Valor Econômico

