O momento decisivo ocorreu em julho, quando o governo federal se tornou o maior acionista da MP Materials, uma mineradora californiana de elementos de terras raras usados em ímãs frequentemente ignorados, mas críticos, que ajudam a conectar a economia global.
A incursão incomum do governo na iniciativa privada veio acompanhada de novas regras que estabeleceram preços mínimos de mercado nos EUA para alguns desses materiais — um piso de preços que, segundo o governo, era necessário para proteger a MP Materials de concorrentes chineses acusados de “dumping” [venda de produtos a preços artificialmente baixos] no mercado.
Isso marcou o início de uma campanha da administração Trump para reverter o domínio de 30 anos da China no comércio de muitos minerais críticos, cada vez mais essenciais para produtos — de drones e automóveis a data centers e mísseis — que impulsionam a economia americana e ajudam a fortalecer sua segurança nacional.
“Trata-se realmente de um esforço ao estilo do Projeto Manhattan, com intensidade máxima”, disse o CEO da MP Materials, James Litinsky, à Fortune. A MP está expandindo suas operações de mineração, refino e reciclagem em Mountain Pass, na Califórnia, e sua nova planta de ímãs no Texas, nessa “Guerra Fria 2.0”.
Em questão estão 60 elementos naturais considerados “minerais críticos” pelo governo dos EUA, incluindo as 17 chamadas terras raras, bem como materiais-chave usados em baterias. Os Estados Unidos não produzem absolutamente nada de mais da metade deles.
Se faz tempo que você não estuda a tabela periódica, terras raras são elementos que compartilham características de metais pesados macios, de cor branco-prateada. Embora nenhum seja um nome familiar por si só, eles são ingredientes fundamentais nas comodidades da vida moderna. Ímãs de neodímio-ferro-boro (NdFeB) são usados praticamente em tudo o que se movimenta. As “quatro principais” terras raras para ímãs, motores, turbinas e outros equipamentos são neodímio e praseodímio, bem como as mais raras disprósio e térbio, que deixam os ímãs mais resistentes ao calor.
O paradoxo das terras raras é que elas são abundantes, mas difíceis de produzir em razão dos desafios de extrair, separar e refiná-las em grandes quantidades. É mais difícil encontrá-las em altas concentrações, e a infraestrutura e o know-how técnico para refiná-las são extremamente difíceis de construir do zero sem serem minados pelas vantagens de custo subsidiadas da China.
A China extrai a vasta maioria das terras raras e de muitos minerais críticos, mas seu maior ponto de estrangulamento está no refino, em que domina com 90% de participação no mercado global, chegando a 99% em alguns casos. São os controles de exportação ameaçados pela China sobre disprósio, térbio e ímãs que causam maior preocupação entre formuladores de política e empresas nos EUA.
Mesmo com a corrida apoiada pelo governo para desenvolver instalações domésticas de mineração e refino, os EUA não podem seguir sozinhos. O país corre para firmar parcerias internacionais a fim de contornar as cadeias de suprimento controladas pela China. Também são necessárias indústrias emergentes de reciclagem e alternativas na química de ímãs.
“A administração Trump não está deixando nenhuma ferramenta de fora da mesa para salvaguardar nossa segurança nacional e econômica”, disse a Casa Branca à Fortune. O novo esforço é palpável, mas não apaga décadas de superioridade chinesa e de falta de planejamento antes do início de uma guerra tarifária — mesmo agora que foi firmada uma trégua temporária.

O que vem a seguir?
O consenso na indústria é que — com um esforço coordenado — os EUA e seus aliados podem causar um impacto relevante no controle chinês em menos de cinco anos. Mas serão necessários pelo menos dez anos para eliminar a dependência global da China. Em três anos, a capacidade americana de produção de ímãs poderia atender uma pequena maioria das necessidades domésticas, segundo a consultoria de energia Wood Mackenzie. No entanto, gargalos no refino de terras raras ainda podem desacelerar a produção por anos.
Jeff Dickerson, principal advisor da consultoria Rystad Energy, teme que investidores e parceiros estrangeiros desconfiem do comprometimento de longo prazo exigido por parte dos EUA.
“Atenções são volúveis, e me preocupa que o foco atual em resolver esses desafios se dissipe”, disse Dickerson. “Estamos tentando cavar uma saída de um buraco sem um plano discernível, com ferramentas limitadas para agir rapidamente e aliados céticos quanto à nossa confiabilidade.”
Na situação atual, espera-se que a demanda global por ímãs feitos de terras raras aumente 25% nos próximos cinco anos e continue crescendo após isso.
O apoio financeiro federal está fluindo em ritmo crescente à medida que mais empresas desenvolvem minas, instalações de refino e plantas de ímãs nos EUA. A administração Trump, operando como um fundo soberano não oficial, com apoio vindo de várias fontes financeiras, recentemente adquiriu participações acionárias na canadense Lithium Americas e em seu projeto de mineração Thacker Pass, em Nevada, e na Trilogy Metals e em seus projetos minerais no Alasca.
Os EUA também firmaram um acordo histórico com a Austrália para ampliar o acesso a terras raras e outros minerais críticos. E o presidente Trump fechou recentemente vários acordos na Ásia. Em outros lugares, a Ramaco Resource pretende extrair terras raras de sua mina de carvão Brook, em Wyoming. A Energy Fuels adicionou processamento de terras raras à sua planta de urânio em Utah e está planejando minas no exterior. A USA Rare Earth planeja minerar terras raras no oeste do Texas e produzir ímãs em Oklahoma.
No lado do refino e dos ímãs, a Noveon está produzindo ímãs no Texas e reciclando-os, com metas de expansão, e a e-VAC Magnetics está abrindo uma planta na Carolina do Sul. A canadense Ucore Rare Metals iniciou recentemente a construção de uma planta de processamento na Louisiana. A britânica Pensana acabou de abandonar planos de uma refinaria de terras raras na Inglaterra para desenvolver uma nos EUA. E a líder do setor, a australiana Lynas Rare Earths, quer construir uma planta de processamento no Texas, mas ainda busca mais apoio do governo americano.
Uma série de projetos domésticos está em andamento, mas nem todos se concretizarão. A refinadora Phoenix Tailings acaba de inaugurar sua primeira planta em New Hampshire, com grandes expansões planejadas.
“Este é o nosso momento Sputnik, em que os EUA finalmente acordaram e viram que alguém está simplesmente nos esmagando nessa corrida”, disse o CEO Nick Myers.

Líder no clube
Há uma década, a mina de Mountain Pass, na Califórnia, estava em dificuldades por causa do elevado endividamento e do dumping de preços da China no mercado global de terras raras.
Gestor de hedge fund que havia comprado títulos durante o processo de falência, Litinsky formou a MP Materials e adquiriu os ativos de Mountain Pass em 2017. Desde então, a MP tem ampliado de forma constante suas capacidades, incluindo a abertura da — não perdendo a oportunidade de marketing — planta de ímãs “Independence” em Fort Worth, Texas.
Litinsky não previu o boom da IA, mas antecipou a necessidade em rápida expansão de ímãs e de todas as etapas da cadeia de suprimentos.
“Você pode ter todas as terras raras do mundo, mas, se não tiver a capacidade de fabricar ímãs, você ainda estará enviando tudo para a China. É realmente necessário ter todas as peças desse quebra-cabeça para resolver o problema”, disse. “Cadeias de suprimentos de múltiplos bilhões de dólares não se movem da noite para o dia, e era muito claro que isso levaria muito tempo. Fizemos tudo isso de forma cuidadosa, em etapas.”
Em razão da propriedade da MP sobre a única mina dedicada a terras raras nos EUA e de sua crescente integração vertical na produção de ímãs, o Departamento de Defesa americano comprou neste verão uma participação de 15% na empresa por US$ 400 milhões, fazendo seu valor de mercado disparar.
MP e Apple rapidamente anunciaram uma parceria de US$ 500 milhões para fornecer ímãs totalmente fabricados a partir de materiais reciclados, um compromisso que envolve expansões de reciclagem tanto em Mountain Pass quanto em Fort Worth. O acordo com o governo dá confiança à MP para avançar com expansões porque as ameaças de dumping de preços pela China são em grande medida eliminadas graças ao mecanismo de preço piso.
“Eles tiraram da mesa exatamente as coisas de que precisávamos para acelerar nossos investimentos em velocidade de dobra”, disse Litinsky. “Isso é realmente bastante único.”
MP Materials founder and CEO James Litinsky.
A corrida para construir
A NioCorp Developments pretende iniciar a construção no próximo ano da grande mina de minerais críticos e terras raras Elk Creek, em Nebraska. Enquanto isso, a empresa aguarda uma decisão sobre um empréstimo pendente de US$ 780 milhões do Export-Import Bank e espera firmar um acordo de preço piso com o governo.
“As necessidades são imediatas. Vamos ter de encarar o problema de frente e construir essas instalações”, disse o CEO da NioCorp, Mark Smith, à Fortune. “Com a mensagem de alerta que a China nos enviou, os mercados se abriram, e agora vamos conseguir lidar com o onshoring dessas cadeias de suprimentos.”
Não há dúvida de que a NioCorp e outras empresas estão buscando acordos semelhantes ao que a MP fechou com o governo federal, ainda que seja apenas um acerto sobre preços. Mas também está claro que nem todos terão sucesso em garantir tais arranjos.
“Quando vou a Washington, faço questão de chamar aquele [acordo da MP] de precedente, e ninguém discorda”, disse Smith. “Sou um americano de carteirinha. Quando o acordo saiu, fiquei extremamente feliz. Por outro lado, gosto da nossa sociedade democrática e capitalista, e os apoios de preços pelo governo não soam muito bem. Mas, quando você entende o que isso vai fazer para interromper aquele MO [modus operandi] chinês perverso que eles praticam há 30 ou 40 anos, é algo realmente positivo.”
O mesmo vale para projetos internacionais, especialmente em territórios que Trump diz querer anexar.
O CEO da Critical Metals, Tony Sage, está desenvolvendo a enorme mina de terras raras Tanbreez, na Groenlândia, e recebeu recentemente uma carta de intenções para um empréstimo de US$ 120 milhões do Ex-Im Bank. Sage quer trabalhar com os EUA para fornecer as cobiçadas terras raras pesadas, como térbio.
“No século 19, houve o boom do ouro. O século 20 foi o boom do petróleo”, disse Sage. “Estamos agora no boom das terras raras, mas esse boom vai financiar tudo pelos próximos 30 a 50 anos. Tudo na sua vida precisa de terras raras.”
Muitas propostas vêm de empresas jovens sem integração vertical. Isso pode tornar mais difícil para elas firmar contratos de offtake [contratos de compra de longo prazo] suficientes para chegar às decisões finais de investimento e iniciar a construção, disse Dickerson, da Rystad. “Tudo isso grita risco para financiadores que também têm a experiência de ciclos voláteis de preços na maioria dos mercados de commodities minerais nos últimos 30 anos.”
Uma possível exceção é a líder em mineração de urânio Energy Fuels, a terceira maior mineradora e refinadora de terras raras listada em bolsa, depois de Lynas e MP. Quando os mercados de urânio enfrentaram dificuldades alguns anos atrás, a Energy Fuels começou a processar terras raras em sua usina White Mesa, em Utah.
Agora, a Energy Fuels pretende desenvolver minas de minerais críticos na Austrália e em Madagascar. Muitos projetos de mineração domésticos carecem da qualidade de minério e da viabilidade econômica necessárias, disse o CEO da Energy Fuels, Mark Chalmers. Será preciso a combinação de refino doméstico e produção de ímãs, juntamente com mais parcerias internacionais de mineração e separação, para que os EUA vençam no longo prazo, afirmou.
“Você precisa desses próximos cinco anos para realmente fazer o pêndulo oscilar na direção certa de forma material”, disse Chalmers.
E pode não atrapalhar o fato de que o projeto de mineração da Energy Fuels na Austrália se chama Donald Project — batizado em referência a um depósito de minerais, não ao presidente Trump. “Já tivemos alguns sorrisos e risadas com isso”, acrescentou, rindo.
Reciclagem e outras alternativas
Uma forma de evitar os desafios de minerar e refinar terras raras é simplesmente não usá-las. A Niron Magnetics, de Minnesota, é uma das empresas que buscam caminhos alternativos, tendo iniciado recentemente a construção de sua primeira planta com ímãs feitos de nitreto de ferro — utilizando ferro da siderurgia doméstica e nitrogênio da indústria de fertilizantes.
“Vamos precisar triplicar o número de ímãs no mundo”, disse o CEO da Niron, Jonathan Rowntree. “Há terras raras suficientes apenas para dobrar a produção em relação ao que está sendo ativamente minerado hoje e às novas minas que estão entrando em operação. Isso sempre seria um problema.”
A tecnologia levou bem mais de uma década para ser desenvolvida, e a Niron ainda trabalha para aumentar ainda mais a força dos ímãs. Mas a empresa já tem uma parceria com a grande montadora Stellantis para desenvolvimento de motores.
“Nascemos e crescemos para competir com a China, mas estamos jogando um jogo diferente, no qual não há estrangulamento sobre a oferta de matéria-prima ou sobre o equipamento para fazer nosso produto”, disse Rowntree.
A outra abordagem fundamental para desestabilizar as cadeias de suprimento de minerais críticos é a reciclagem. Nos EUA, o cofundador da Tesla e CEO da Redwood Materials, JB Straubel, lidera o setor de reciclagem de baterias em Nevada e em uma nova planta de US$ 3,5 bilhões na Carolina do Sul.
O objetivo é pegar baterias antigas de veículos elétricos (EVs) e de outros equipamentos e essencialmente “minerá-las” por seus minerais críticos centrais — lítio, cobalto, níquel e cobre. A meta final é criar uma economia circular em que a reciclagem — e não a mineração — se torne a principal fonte desses minerais.
“É algo meio óbvio, mas não muito intuitivo, que quase todos os materiais dentro das baterias são reutilizáveis”, disse Straubel à Fortune. “À medida que EVs e outros produtos de armazenamento de energia proliferam no mercado, temos essa oportunidade incrível de evoluir para uma economia de materiais para esses produtos, que serão 98% ou 99% remanufaturados ao longo do tempo.”
O resultado final é que a Redwood já é a principal “mineradora” de cobalto do país, de forma não oficial, por meio de seus esforços de reciclagem, e está entre as primeiras colocadas em lítio e níquel.
A MP Materials, por exemplo, planeja seguir a mesma rota de reciclagem com ímãs e terras raras. Na fabricação de ímãs, mais de 20% dos materiais se perdem durante o processo e podem ser reciclados, disse Litinsky. Será necessário somar todos esses esforços para quebrar as práticas monopolísticas da China e impedir que o país reconstrua seu domínio, afirmou.
“Independentemente de como isso evolua, Humpty Dumpty não vai ser colado de volta”, disse Litinsky. “É claro que as cadeias de suprimentos estão mudando, aconteça o que acontecer.”
Uma versão deste artigo aparece na edição de dezembro de 2025/janeiro de 2026 da Fortune com o título “How rare earths became ground zero in the U.S.-China rivalry” [Como as terras raras se tornaram o epicentro da rivalidade entre EUA e China].
Fonte: Fortune
Traduzido via ChatGPT

