Por Augusto Decker e Matheus Prado — De São Paulo
09/01/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
Os ativos brasileiros podem até alcançar desempenho positivo em 2023, mas o foco do investidor de emergentes migrou para a Ásia, mais especificamente China e Coreia do Sul, afirma Caesar Maasry, chefe da área de mercados emergentes e investimentos globais do Goldman Sachs, em entrevista ao Valor. Além da performance superior à da maioria dos pares em 2022, o que faz com que o ponto de partida para o mercado local seja inédito este ano, o executivo coloca questões domésticas – fiscais e macroeconômicas – como possíveis impeditivos de um melhor posicionamento ao fim de 12 meses.
“Nunca vimos, nas últimas duas décadas, um ano em que o S&P 500 caiu 20% e o Ibovespa avançou, e isso ocorreu em 2022. Então, os ativos brasileiros partem de uma base elevada. Foram os fundamentos durante a alta das commodities e a ação do Banco Central para realizar o ciclo de aperto rapidamente que impulsionaram a participação estrangeira e os ativos durante o ano, assim como algum entusiasmo em torno da eleição por parte do investidor internacional. Mas acredito que isso já passou”, diz.
O executivo diz que ainda não está claro qual será o efeito econômico, e consequentemente nos resultados das empresas, da transição governamental, mas lembra que já houve um crescimento nos prêmios de risco dos ativos domésticos, o que é difícil consertar. Em sua visão, já que não é plausível precificar novas reformas, a melhor possibilidade é que não haja mais expansão fiscal e nem alteração das reformas existentes. Só assim, aponta, o preço dos ativos pode voltar a chamar a atenção.
“Queremos ter clareza em relação às manchetes políticas, se vão se acalmar. Apesar de não ter opinião forte sobre o tema, sempre que um mandatário aparenta ter muita autoridade e poucos contrapesos em um governo, é um sinal de alerta para investidores”, diz. “É claro que, se não houver movimento nesse sentido, os ativos parecem atraentes, mas não acho que deve haver mudança de narrativa no curto prazo. Estamos focados na reabertura da China. É uma história mais plausível para o primeiro semestre de 2023 em termos de fundamentos e ‘valuations’.”
Apesar de ser conhecida por alavancar o crescimento de parceiros comerciais, ele argumenta que o movimento esperado para 2023 na China é diferente. O Goldman Sachs acredita que o impulso será mais concentrado em setores como turismo e serviços domésticos, muito menos relacionados ao impulso de crédito que proporciona grandes demandas de commodities e ajuda a sustentar, em parte, os mercados latino-americanos.
Maasry cita ainda que, no início de 2023, entre os fundos com mandato para investir em emergentes e com o MSCI do grupo como “benchmark”, 68% tinham exposição acima do consenso em Brasil e apenas 29% estavam “overweight” (acima da média) em China. Outro sinal de que o ponto de partida para o ano é diferente e que, na opinião dele, pode haver alguma competição por capital entre as regiões.
“Mas, dado o mercado de baixa pelo qual passamos, a coisa mais importante que ocorrerá com os fluxos é que, quando tivermos estabilidade nos fundamentos, veremos dinheiro voltando a entrar na classe de ativos emergentes como um todo, e isso realmente beneficia todas geografias”, afirma.
Ele acrescenta que a economia global ainda está em um estado fraco, de baixo crescimento e inflação inaceitavelmente alta, o que seguirá impactando os mercados. No meio do segundo trimestre, no entanto, entende que os preços vão ter se acalmado nos EUA e o Fed vai poder ao menos pausar seu ciclo de aperto, dando um ponto de partida para os mercados.
Sem a China sustentando uma forte valorização das commodities e com menor prioridade que alguns mercados desenvolvidos que sofreram mais em 2022, o executivo espera que, para alcançar os 116 mil pontos projetados pelo Goldman Sachs ao fim de 2023, o Ibovespa se aproveite da recuperação de alguns papéis ligados à economia doméstica, mesmo com uma provável revisão de lucros para baixo ao longo do ano. Setorialmente, aposta em consumo e bancos após a correção mais recente, por estarem “descontados para além dos fundamentos”.
Caso a tese para a economia americana se confirme, e após um curto prazo desafiador, Maasry enxerga uma possível desvalorização do dólar até o “preço justo” de R$ 5. Mas ele vê isso como uma fraqueza do dólar, e não como um sinal de força do real. Ao analisar algumas moedas asiáticas, como o won sul-coreano, diz, espera mais valorização frente à moeda americana. Ele diz que o real tem um “carry trade” forte, que dá apoio aos preços e diminui o espaço de queda. Por outro lado, como acha que os termos de troca não devem melhorar, também não vê grande “upside”.
“Quando olhamos para os juros no Brasil em comparação a outros emergentes, é um dos poucos em que as taxas reais estão acima da média em comparação com os EUA e ainda há alguma gordura. Isso também vale para outras partes da América Latina, mas menos para emergentes europeus e asiáticos. Da perspectiva de valor justo, ainda parece atrativo. E os juros reais no Brasil parecem mais atrativos do que o mercado de ações. Entretanto, dado o ambiente de preocupação fiscal, não defenderíamos ‘trades’ táticos agora.”
Fonte: Valor Econômico
