A crise no Oriente Médio alimentará uma disparada da inflação nos EUA para 4,2 por cento neste ano, a mais alta do G7, de acordo com uma previsão da OCDE que destaca o custo da guerra dos EUA e Israel contra o Irã.
A organização sediada em Paris previu que a alta dos preços de energia aumentaria acentuadamente a inflação ao redor do mundo, com “riscos significativos de queda” para o crescimento caso as perturbações nas exportações de energia se agravassem.
Embora a OCDE espere que a inflação norte-americana salte dos 2,6 por cento registrados em 2025, países como China, Coreia do Sul e Índia também enfrentam um aumento acentuado no crescimento dos preços por conta do choque energético.
“A amplitude e a duração do conflito são muito incertas, mas um período prolongado de preços de energia mais elevados adicionará custos de forma expressiva às empresas e elevará a inflação dos preços ao consumidor, com consequências adversas para o crescimento”, previu a organização em seu relatório econômico provisório [interim economic outlook].
A pressão crescente sobre os consumidores prejudicaria o crescimento econômico dos EUA, que deve desacelerar para 2 por cento neste ano e 1,7 por cento em 2027, afirmou a OCDE. O crescimento global deve desacelerar de 3,3 por cento no ano passado para 2,9 por cento em 2026, antes de se recuperar para 3 por cento no ano que vem.
Antes da guerra com o Irã, o crescimento global vinha se mostrando resiliente, impulsionado em parte por um salto nos investimentos de capital [capex] em inteligência artificial, bem como pela alta dos mercados acionários.
Mas o prognóstico mudou radicalmente desde que os EUA e Israel lançaram ataques contra o Irã no final de fevereiro, elevando os preços do petróleo e do gás natural e gerando efeitos em cadeia sobre outras commodities, incluindo metais e fertilizantes.
Os planos de investimento das grandes empresas de tecnologia listadas em bolsa nos EUA e na China vinham aumentando no início deste ano, à medida que o sentimento empresarial mais amplo melhorava. No entanto, “a resiliência da economia global está agora sendo testada”, disse a OCDE, observando que as exportações pelo Estreito de Ormuz representam um quarto do comércio marítimo global de petróleo e um quinto do comércio global de gás natural liquefeito (GNL).
A organização acrescentou que os fertilizantes representam um risco particular, com os Estados do Golfo respondendo por 34 por cento das exportações globais de ureia e metade de todas as exportações de enxofre. O Oriente Médio também produz mais de um terço do suprimento mundial de hélio e dois terços do bromo global, que são importantes nas cadeias de suprimentos industriais, inclusive para semicondutores.
“Um período prolongado de perturbações também poderia resultar no surgimento de escassez significativa de energia, o que reduziria ainda mais o crescimento”, constatou a OCDE.
No início deste ano, indicadores apontavam para uma revisão para cima de 0,3 ponto percentual nas projeções de PIB global, mas o conflito no Oriente Médio havia apagado inteiramente esse impulso, disse a organização.
A inflação cheia [headline inflation] no G20 foi revisada para cima em 1,2 ponto percentual em 2026, para 4 por cento, e em 0,2 ponto no ano que vem, para 2,7 por cento, em comparação com as projeções de dezembro da OCDE.
O crescimento da zona do euro deve ser marcadamente mais fraco, de 0,8 por cento neste ano, antes de se recuperar para 1,2 por cento no ano que vem.
Nos EUA, uma desaceleração nos gastos das famílias minaria o impulso econômico ao longo de 2026, previu a OCDE. Ainda assim, espera-se que o Federal Reserve [banco central dos EUA] mantenha as taxas de juros inalteradas, enquanto o Banco Central Europeu provavelmente realizará uma única elevação.
A maioria dos membros do FOMC [Comitê Federal de Mercado Aberto], responsável pela definição de juros, declarou na semana passada que ainda espera cortar as taxas neste ano — embora o presidente do Fed, Jay Powell, tenha alertado que suas previsões eram muito mais incertas do que o habitual por causa da guerra com o Irã.
O FOMC elevou apenas ligeiramente suas projeções, afirmando que agora espera que a inflação cheia e o núcleo do índice de gastos com consumo pessoal [PCE, personal consumption expenditures] encerrem o ano em 2,7 por cento, ante estimativas anteriores de 2,4 por cento e 2,5 por cento, respectivamente.
Autoridades norte-americanas também revisaram para cima as estimativas de crescimento dos EUA neste ano, de 2,3 por cento para 2,4 por cento, em meio a sinais de fortes ganhos de produtividade nos EUA.
A projeção da OCDE para a inflação norte-americana está marcadamente acima da do Fed e de muitos analistas do setor privado, em parte porque a organização espera um choque de preços de energia mais persistente e projetou um impacto contínuo dos aumentos tarifários norte-americanos do ano passado.
A OCDE também considera que a economia dos EUA já se encontra apertada [com pouca capacidade ociosa] devido à menor imigração. A OCDE reporta uma média anual para a inflação, em vez de focar no quarto trimestre, como fazem alguns outros economistas.
A OCDE afirmou que, em um “cenário adverso” [downside scenario], com os preços do petróleo girando em torno de US$ 135 por barril no segundo trimestre, a produção global poderia ser 0,5 por cento mais fraca do que a previsão-base da organização, enquanto os preços ao consumidor seriam quase 1 por cento mais altos.
Embora alguns países estejam considerando medidas emergenciais de apoio para famílias que enfrentam contas de energia mais altas, a OCDE disse que essas medidas precisam ser “bem direcionadas” para as famílias mais necessitadas e “empresas viáveis”.
Fonte: Financial Times
Traduzido via Claude
