O espaço das empresas de tecnologia nas carteiras de recomendações resistiu ao pânico inicial em Wall Street com uma possível bolha da Inteligência Artificial (IA). Demorou alguns meses e foi mais gradual, mas o movimento enfim chegou às orientações de alocação para o brasileiro. Em fevereiro, analistas de grandes casas traçaram uma linha para a Nvidia, preocupados de a ação ter batido num teto. Agora em março, foi a vez da Microsoft de perder espaço nos portfólios.
Este movimento marca o fim (por ora) do cheque em branco para as teses ligadas a IA, empresas que tinham encarecido nos últimos anos e cujas ações estavam negociando nas máximas históricas de preço e múltiplos. Mas outras gigantes também foram afetadas pela urgência de reduzir as concentrações nas carteiras.
A Amazon dominou o ranking como queridinha dos analistas brasileiros. Neste mês, depois de mais de um ano, a empresa perdeu essa coroa. E a ironia é que o posto vago foi ocupado justamente pela Microsoft.
Mas a exposição das carteiras a ambas caiu. A mudança reflete um esforço por diversificar as alocações, o que mexeu no topo da lista.
Carteira de recomendações de investimentos no exterior
| Classificação | Ação | Recomendações em março/2026 | Pesos em março/2026 | Variação (em ponto percentual)* | Status |
| 1 | Microsoft (MSFT34) | 4 | 30,00% | -8 | 🔴 Redução Forte |
| 2 | Amazon (AMZO34) | 4 | 28,00% | -12,5 | 🔴 Redução Forte |
| 3 | Nvidia (NVDC34) | 3 | 25,50% | 0 | ⚪ Estável |
| 4 | Alphabet (GOGL34) | 2 | 23,00% | 5 | 🟢 Aumento Forte |
| 5 | Apple (AAPL34) | 3 | 22,00% | 14 | 🟢 Aumento Forte |
| 6 | Visa (VISA34) | 2 | 20,00% | 4 | 🟢 Aumento |
| 7 | JP Morgan (JPMC34) | 2 | 18,00% | 0 | ⚪ Estável |
| 8 | TSMC (TSMC34) | 3 | 16,00% | -5 | 🔴 Redução Forte |
| 9 | Meta (M1TA34) | 2 | 15,00% | 0 | ⚪ Estável |
| 10 | Novo Nordisk (N1VO34) | 1 | 15,00% | 0 | ⚪ Estável |
| 11 | Eaton (E1TN34) | 2 | 12,00% | 1 | 🟢 Aumento |
| 12 | Alibaba (BABA34) | 2 | 10,00% | 0 | ⚪ Estável |
| 13 | Baidu (BIDU) | 2 | 10,00% | 0 | ⚪ Estável |
| 14 | Aura Minerals (AURA33) | 1 | 10,00% | 0 | ⚪ Estável |
| 15 | Berkshire Hathaway (BERK34) | 1 | 10,00% | -5 | 🔴 Redução Forte |
| 16 | Coinbase (C2OI34) | 1 | 10,00% | 0 | ⚪ Estável |
| 17 | Ishares MSCI Eurozone (BEZU39) | 1 | 10,00% | 0 | ⚪ Estável |
| 18 | iShares MSCI USA Equal Weighted (BEUW39) | 1 | 10,00% | 10 | 🟢 Aumento Forte |
| 19 | Ishares Russel 2000 (BIWM39) | 1 | 10,00% | 0 | ⚪ Estável |
| 20 | JBS (JBSS32) | 1 | 10,00% | 0 | ⚪ Estável |
Fonte: Ágora, BTG Pactual, Empiricus, Santander e XP | *Evolução dos pesos da carteira compilada de fevereiro para março de 2026
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A Amazon segue entre as recomendações de quatro das cinco instituições financeiras consultadas pelo Valor Investe (Ágora, BTG Pactual, Empiricus, Santander e XP), mas perdeu espaço. Seu peso no portfólio compilado, que por quatro meses permaneceu inalterado, caiu de 40,5% para 28% neste mês, fruto dos cortes nessas alocações.
E a Microsoft, que roubou a coroa, também perdeu relevância nas carteiras: desceu de 38% em fevereiro para 30% de exposição no somatório das carteiras neste mês. A mudança é fruto das reduções promovidas pelo BTG, Santander e XP.
A XP, que cortou o peso de ambas as ações na sua carteira, justificou uma estratégia deliberada de “reduzir posições ligadas a IA“. Já o Santander alega estar abrindo espaço para teses “menos esticadas”, ou seja, com preços mais interessantes.
- O investidor deve olhar esse quadro não como um evento isolado, mas um sintoma agudo da inflexão macroeconômica que atinge as economias, principalmente o ambiente para investimentos nos Estados Unidos.
Afinal, após um longo período de otimismo concentrado na IA, as principais casas de análise do país decidiram que é hora de parar de pagar qualquer preço pelo crescimento futuro do setor.
O mantra no mercado financeiro desde o começo deste ano tem sido evitar a concentração e caçar múltiplos mais palatáveis.
Fratura nas Sete Magníficas
A Ágora, por exemplo, zerou sua posição no índice S&P 500 neste mês. Só que a casa não abriu mão da exposição ao mercado dos EUA, apenas trocou a cesta que reúne os papéis das 500 maiores companhias americanas – excessivamente concentrado nas Sete Magníficas (Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta, Nvidia e Tesla) – pelo índice USA Equal Weighted, que segue todas as empresas do MSCI USA, porém dando pesos iguais aos ativos.
O índice preferido pela Ágora tira o poder de distorção das gigantes de tecnologia sobre a rentabilidade geral. A tese por trás dessa troca é a de que as bolsas americanas passam pelo chamado broadening (quando o rali se espalha para empresas menores e setores tradicionais) para que os ativos – mesmo aqueles ligados a teses de IA – continuem subindo.
Em relatório, a casa justificou a troca, “dado a grande exposição do índice S&P 500 a big techs, o que permite ao investidor estar alocado no mercado americano, mas, agora, com uma que depende menos de teses específicas.”
Esse alargamento do horizonte dos analistas também é sensível nas movimentações das ações escolhidas (ou excluídas) a dedo para março.
A exemplo, a passagem da Tesla pelas carteiras recomendadas brasileiras, por exemplo, foi mais rápida que seus carros elétricos. A ação havia entrado na carteira internacional do BTG em fevereiro, surfando uma tese de melhora estrutural ligada a robôs humanoides e direção autônoma.
No entanto, para o mês de março, a Tesla foi excluída do portfólio. Segundo o relatório do BTG, a saída da empresa não se deu por uma deterioração profunda dos fundamentos, mas sim por uma necessidade tática de “abrir espaço para teses com melhor assimetria de valuation [valor de mercado]”. O banco preferiu usar esse capital para dar lugar a novidades de tech no mês, como a Apple e a fabricante de semicondutores Micron.
Por fim, já a reboque da guerra entre EUA e Irã, a XP aumentou o peso em energia tradicional, elevando o peso da ExxonMobil na carteira de recomendações, enquanto o BTG trouxe o Bank of America para o jogo, apostando em teses cíclicas.
A tentativa é capturar a resiliência da economia americana sem depender de que um único tema carregue os lucros. Em meio às incertezas sobre o impacto econômico do conflito no Oriente Médio, as alterações caem bem.
Apple no radar
Mas a prova de que a rotação das carteiras não é uma fuga generalizada da tecnologia, e sim uma busca por valores mais atraentes, é o salto da Apple nas preferências. A fabricante do iPhone, que vinha sendo preterida no ciclo de empolgação com chips e algoritmos generativos, ressurgiu em março como a tese de desconto atraente na ação.
O peso da Apple disparou de 8% em fevereiro para 22% no portfólio compilado para este mês, um aumento puxado por adições em carteiras como a da XP e a do BTG.
A leitura dos analistas é que a empresa oferece um porto mais seguro frente à volatilidade das empresas de software e infraestrutura em nuvem. Além disso, num ritmo aquém das outras gigantes nessa corrida da IA, seu papel é menos afetado pelos questionamentos sobre os investimentos em infraestrutura, que têm penalizado ações como a da Nvidia e a Microsoft.
Ainda em hardware, a Micron fez sua estreia no compilado deste mês como escolhida pelo Santander e pelo BTG para diversificar o risco na cadeia de semicondutores para além da estabilizada Nvidia.
A Micron não é propriamente uma substituta da gigante de IA, mas preenche um pedaço das lacunas deixadas pelas concorrentes após a diminuição dos pesos da Nvidia e da Microsoft nas carteiras ao longo dos últimos dois meses.
Fonte: Valor Investe
