Por Álvaro Campos, Valor — Nova York*
14/05/2024 14h22 · Atualizado há 13 horas
O consultor econômico chefe da Allianz, Mohamed El-Erian, afirmou que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) errou ao acreditar que a inflação em 2021 era transitória e perdeu tempo ao elevar os juros. E agora está em uma situação complicada. “Transitório é a pior palavra que se pode usar. O Fed perdeu seis meses na batalha com a inflação e depois teve de elevar mais os juros, perdeu credibilidade”.
Segundo ele, como o Fed perdeu confiança na sua própria capacidade de prever a economia, agora se diz “data dependent” (tomar decisões com base em dados). O problema é que as ferramentas do BC tem um atraso e usá-las para tentar lidar com questões futuras pode levar a erros.
“Hoje, com a inflação persistente, o Fed poderia não cortar juros este ano. E isso seria um erro enorme, para os EUA e o mundo, porque aí a economia americana iria desacelerar ainda mais”.
Mudar meta
Para ele, o ideal seria o Fed admitir que a meta de inflação de 2% está errada, foi adotada em um contexto completamente diferente na década de 1990 pela Nova Zelândia e acabou virando o padrão para os países desenvolvidos. “Mas era um mundo deflacionário, completamente diferente de hoje. […] Se essa meta fosse decidida hoje, seria mais perto de 3%”.
Ainda assim, El-Erian explica que nenhum BC do mundo que descumpre a meta de inflação pode elevá-la logo em seguida. “Então isso não vai acontecer [o Fed alterar a meta]”.
Para ele, isso deve levar a um certo descasamento (decoupling) entre o Fed e outros BCs, mas há limites para isso. Na visão do economista, Banco Central Europeu (BCE) e Banco da Inglaterra (BoE) podem ter uma diferença de 50, no máximo 100 pontosbase, daquilo que o Fed faz. Para os emergentes, a situação é parecida, com aqueles
com BCs com menor credibilidade tendo menos espaço. “Se o BC tem alguma credibilidade, e começou cedo a subir os juros no ciclo anterior, como o Brasil, há um grau de liberdade maior”.
Para ele, em geral o Brasil está em uma boa posição, mas precisa resolver algumas questões. “O Brasil está indo bem relativamente na gestão macroeconômica, mas também é preciso ter um bom ambiente regulatório e ter noção das três revoluções que estamos vivendo: energia limpa, inteligência artificial generativa e ciências biológicas [life science]. Ou você embarca no trem dessas revoluções ou será atropelado por ele, dolorosamente”.
Para ele, o Brasil está indo bem na gestão macro, mas ainda precisa lidar com as outras duas. De qualquer forma, ele explica que o novo mundo é benéfico para o Brasil, onde você precisa ter recursos naturais e amplo mercado interno. É diferente de décadas atrás, quando o ideal era ter uma economia pequena e bastante aberta para o mercado global.
Dificuldade para fazer previsões
O consultor econômico chefe da Allianz, Mohamed El-Erian, afirmou que a economia global passa por diversas mudanças e até a economia dos EUA, que é a mais madura e previsível do mundo, está difícil para fazer previsões. Segundo ele, ainda há 35% de chance de recessão nos EUA, com 50% de chance de um “soft landing” (inflação voltando para a meta sem sacrificar tanto o crescimento) e 15% de “no landing” (crescimento forte e inflação caindo).
Segundo ele, a diferença entre um eventual governo Donald Trump ou uma continuação da administração Joe Biden seria pequena em termos de políticas econômicas, com ambos adotando uma postura dura em relação à China, elevando os estímulos fiscais, e políticas para o setor industrial. “Mas com Trump haveria mais ruído”.
Segundo ele, em um mundo que passa por transformações, da globalização para a fragmentação, e com inovações tecnológicas e necessidades de energia limpa, alguns países podem se beneficiar, como Brasil e Índia. Para El-Erian, esses países se caracterizam como “swing states”, ou seja, podem se adaptar seja em um governo Biden ou Trump.
O economista explicou que a Europa está estagnada, a China está passando por uma transição e o Japão, mesmo em um bom momento, não tem força para ajudar a economia global. Para ele, cada vez mais a Índia se tornará o principal destino para os investidores globais.
Fonte: Valor Econômico

