NOVA YORK – O Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) voltou a cortar os juros em plena paralisação da máquina pública americana, como já se esperava, mas não garantiu que voltará a usar a tesoura em dezembro. O sinal fez Wall Street recalibrar os cenários para as taxas, mas casas como Morgan Stanley, Pimco, Capital Economics e ING mantêm a previsão de nova redução de 25 pontos-base (0,25 ponto porcentual) na última reunião de 2025.
O Fed anunciou nesta quarta-feira, 29, corte de 0,25 ponto porcentual nos juros americanos, para o intervalo entre 3,75% e 4,00% ao ano. Trata-se da segunda queda consecutiva das taxas no atual ciclo de flexibilização monetária do Banco Central dos EUA.
“As perspectivas para o emprego e a inflação não mudaram muito desde nossa reunião em setembro. As condições no mercado de trabalho parecem estar esfriando gradualmente, e a inflação permanece um pouco elevada”, disse o presidente do Fed, Jerome Powell, ao justificar a decisão de outubro, em coletiva de imprensa, nesta quarta-feira.

A decisão de novo corte de juros nos EUA foi anunciada em pleno shutdown (paralisação da máquina pública) no país, que causou um apagão de dados sobre a maior economia do mundo. A paralisação se estende há 29 dias, o que a posiciona como a segunda maior da história americana. O único indicador divulgado em caráter excepcional foi a inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) em setembro, que subiu abaixo das projeções do mercado.
Dirigindo no nevoeiro
Segundo Powell, não é possível saber qual será o efeito do shutdown sobre as taxas na reunião de dezembro, mas ele afirmou que um novo corte não é “inevitável”. O dirigente comparou a situação a um motorista que dirige numa estrada com nevoeiro, em que a recomendação é reduzir a velocidade, sinalizando que o Fed pode desacelerar o ritmo das reduções. Mas avaliou que se a economia americana estivesse indo mal, seria possível saber mesmo durante o shutdown.
“Uma nova redução nos juros na reunião de dezembro não é uma conclusão inevitável, longe disso. A política (monetária) não está em um curso predefinido”, disse o presidente do Fed, ao responder às questões dos jornalistas.
‘Houve opiniões fortemente divergentes, e a conclusão é de que não tomamos uma decisão sobre dezembro’, diz Powell Foto: Jim Watson/AFP
Para a economista da Pimco, Tiffany Wilding, o BC dos EUA ainda deve cortar os juros em 0,25 ponto porcentual em dezembro, mas admite que essa é uma “decisão difícil”. Um novo corte de juros na última reunião deste ano depende de novos dados que indiquem a deterioração contínua do mercado de trabalho nos EUA. “Em 2026, as perspectivas para cortes adicionais do Fed são mais incertas”, avalia.
As falas de Powell foram interpretadas no mercado como chances menores de um corte de juros em dezembro, mas este ainda segue sendo o cenário base do mercado, conforme levantamento da plataforma americana CME Group. Casas como Morgan Stanley, ING e Capital Economics também reafirmaram a expectativa de uma nova redução de juros nos EUA na reunião do Fed de dezembro.
“Powell sinalizou explicitamente uma pausa entre esta e as futuras reuniões. Ele se opôs às expectativas do mercado de um corte em dezembro”, avalia o economista da Oxford Economics, Michael Pearce. Na sua visão, o Fed mantém os juros estáveis até março, à medida que os riscos de queda para o mercado de trabalho diminuem.
O presidente do Fed disse que os dois movimentos de reduções de juros foram para apoiar a demanda e não deixar a situação laboral piorar nos EUA. O dirigente afirmou que o BC americano segue comprometido em apoiar o mercado de trabalho, mas deixou na mesa a possibilidade de uma pausa. “Há um coro crescente agora de sentimento de que, talvez, este seja o ponto onde deveríamos pelo menos esperar um ciclo (antes de retomar cortes)”, acrescentou.
Quais foram as divergências
Segundo Powell, as tensões existentes nos dois lados do mandato do Fed levaram às opiniões diferentes dos dirigentes do Comitê Federal do Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) a um “nível intenso” sobre como o Fed deveria proceder na reunião de dezembro. “Houve opiniões fortemente divergentes, e a conclusão é de que não tomamos uma decisão sobre dezembro”, reforçou.
A própria decisão de outubro não foi unânime, com dois votos dissidentes. O diretor Stephen Miran defendeu o corte de 0,5 ponto porcentual, enquanto o presidente da distrital de Kansas City, Jeffrey Schmid, votou pela manutenção dos juros americanos na faixa de 4% a 4,25% ao ano.
Apesar disso, Powell minimizou as divergências de opiniões entre dirigentes do Fomc. De acordo com ele, isso é normal, mas o Fomc tem sido “cuidadoso” diante de circunstâncias “bastante desafiadoras”. “Não seria apropriado simplesmente ignorar ou presumir que o problema da inflação não existe”, disse.
Na sua visão, o impacto das tarifas do presidente dos EUA, Donald Trump, na inflação americana ainda está por vir, e esse risco tem de ser monitorado pelo Fed. “Haverá algum aumento adicional na inflação, porque leva um tempo para que as tarifas percorram a cadeia de produção e finalmente cheguem aos consumidores”, avaliou, alegando que esse impacto não deve ser “grande”, mas “modesto”.
O BC americano anunciou ainda que encerrará o processo de redução do seu balanço patrimonial de US$ 6,6 trilhões, conhecido como aperto quantitativo (QT, da sigla em inglês), a partir de 1º de dezembro.
Algumas casas em Wall Street esperavam que esse movimento ocorresse agora, ainda no fim de outubro. O balanço do Fed foi inflado durante a covid-19 para suportar a travessia do mercado pela crise. A decisão “faz sentido” e veio em linha com as expectativas do ING.
Fonte: Estadão

