O enorme progresso obtido no combate à inflação nos Estados Unidos, em conjunto com a economia resiliente do país, tirou a urgência do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de iniciar os cortes de juros no curto prazo, na avaliação do economista-chefe do Goldman Sachs, David Mericle. Em entrevista ao Valor durante visita ao Brasil, Mericle disse acreditar que a economia dos EUA deverá seguir firme, com ganhos salariais, taxa de desemprego baixa e gastos com consumo elevados.
“Se temos renda alta e desemprego baixo, as pessoas acabam gastando mais e poupando menos”, disse. Para ele, esse conjunto de dados é um sinal de que “o pouso suave já aconteceu”.
Abaixo, os principais trechos da entrevista:
Valor: Apesar dos juros elevados, a economia americana segue forte. Isso vai atrasar os cortes nos juros?
David Mericle: A queda da inflação de 6% para níveis próximos de 2% seria um motivo para o Fed cortar os juros. Mas se a economia vai bem, os cortes são menos urgentes e mais opcionais. Como os membros do Fed não veem urgência, e algumas autoridades querem estar completamente certas de que a inflação está controlada e na meta de 2%, é melhor esperar um pouco. O Fed vai começar a cortar os juros em breve, mas sem urgência, provavelmente em maio.
Valor: A previsão é de quantos cortes ao longo deste ano?
Mericle: Cinco cortes de 0,25 ponto percentual a partir de maio, seguindo em junho, julho, setembro e depois dezembro. Estamos prevendo mais cortes que a projeção do Fed [de três reduções] porque nossa expectativa para a inflação medida pelo índice de preços de gastos com consumo, o PCE, é menor que a do Fed. Enquanto eles acham que o núcleo do PCE vai cair para 2,4% no quarto trimestre, nós projetamos 2,2%. Existe a possibilidade de o Fed acelerar os cortes caso, por exemplo, o aperto monetário fique desequilibrado em relação à economia. Por exemplo, se no meio do ano os juros estiverem ainda em torno de 5%, 250 a 300 pontos-base acima do que eles consideram ser a taxa neutra, mas a inflação e o mercado de trabalho estiverem mais equilibrados, isso poderá levá-los a cortar mais rapidamente.
O fim dos choques de oferta da pandemia derrubou a inflação e, assim, a ‘última milha’ acabou sendo mais fácil”
Fonte: Valor Econômico
