Por Roberto Lameirinhas — De São Paulo
10/08/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
O FBI e o Departamento de Justiça dos EUA estavam ontem sob intensa pressão para que explicassem com mais detalhes as razões da operação de busca e apreensão da véspera na mansão do ex-presidente dos EUA Donald Trump, em Mar-a-Lago, na Flórida.
Enquanto as autoridades mantinham silêncio, analistas sugeriam que o empenho de Trump em ocultar o conteúdo dos documentos oficiais deve ter motivado a ação dos agentes.
“Os advogados de Trump estavam negociando com o Departamento de Justiça e o Arquivo Nacional a devolução dos documentos”, disse ao Valor o cientista político Norman J. Ornstein, acadêmico do American Enterprise Institute, um centro de estudos conservador de Washington. “Mas tinha ficado claro que ele havia mentido e tentado destruir alguns documentos. Foi isso que motivou a busca surpresa, em vez de um simples pedido para que os papéis fossem entregues”, prosseguiu Ornstein.
A medida provocou a reação dos republicanos, que a retrataram como um ataque politicamente motivado a um opositor do governo democrata de Joe Biden que repetidamente tem levantado a perspectiva de tentar reconquistar a Casa Branca em 2024.
Para Ornstein, no entanto, o temor de que provas fossem destruídas explicaria a pouco comum ação policial. “Há poucas dúvidas de que os documentos [apreendidos na busca] são particularmente sensíveis, seja porque ameaçam à segurança nacional ou porque são incriminatórios para Trump – ou ambos”, analisou Ornstein, coautor de “It’s even worse than it looks” (é ainda pior do que parece), sobre a ascensão do extremismo ideológico na política dos EUA.
“Ainda que seja possível que tenhamos um resultado como o do caso de Al Capone, na qual se obtém a condenação de alguém por um delito menor, é preciso observar que a violação perpetrada por Trump já é suficientemente grave. Ele deixou a Casa Branca levando consigo ilegalmente pelo menos 15 caixas de documentos confidenciais”, afirmou.
Todos os registros oficiais de um presidente, por mais triviais que sejam, são considerados propriedade pública, pela Lei de Registros Presidenciais, de 1978. Quando o presidente deixa o cargo, esses papéis vão para o Arquivo Nacional.
A lei de 1978 substituiu uma regra de 1974 que se aplicava especificamente ao ex-presidente Richard Nixon para impedi-lo de destruir 42 milhões de páginas de documentos e 880 gravações, muitas relativas ao Caso Watergate.
“Nunca tinha ouvido histórias sobre Bill Clinton, George W. Bush ou Barack Obama se apropriando de documentos secretos”, afirmou à Bloomberg David Priess, que era encarregado de levar o briefing diário confidencial a esses líderes. “Até Trump, não tinha ouvido membros da equipe presidencial relatarem essa preocupação”, disse. (Com agências internacionais)
Fonte: Valor Econômico
