O tamanho desse desafio ficou nítido nos primeiros anos da pandemia de covid-19, quando alguns países, especialmente o Brasil, fizeram de tudo para evitar o necessário isolamento social para conter a disseminação da doença – no caso, a alternativa foi incentivar um “tratamento precoce” à base de medicamentos próprios para combater a malária (a cloroquina) e a infestação de piolhos (a invermectina). Não deu certo, claro, mas ainda assim o governo brasileiro dobrou a aposta quando foram anunciadas as primeiras vacinas: colocadas sob suspeita, dada a rapidez com que foram desenvolvidas, demoraram a chegar no país.
As fake news também podem ser usadas por pesquisadores inescrupulosos, capazes de adulterar dados para conseguir financiamentos ou uma projeção efêmera. “Um caso clássico, descoberto em 2017, envolveu o médico ítalo-americano Piero Anversa, que apregoava a regeneração do tecido do coração por células-tronco. Ele falsificou dados em artigos científicos para demonstrar a sua tese, mas acabou desmentido por uma investigação da Universidade de Harvard e do Hospital Brigham and Women, de Boston [EUA], que o patrocinavam”, conta o biomédico Samuel Goldenberg, membro da Academia Brasileira de Ciências e conselheiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Quanto mais desafiadoras as pesquisas médicas, mais sujeitas estão a fake news, nota Goldenberg. “No ano passado foram publicados cerca de 290 mil artigos relacionados ao tratamento do câncer. Não há como controlar a qualidade de um volume tão grande assim. Muitas vezes, algum resultado que se mostra promissor em testes com camundongos logo é alardeado como uma solução à vista. Mas é preciso considerar que nós não somos camundongos”, alerta.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/s/O/EwUBouROidz2RXydsVHQ/048-gustavo-20mendes-instituto-20butantan.jpg)
No caso da fraude de Piero Anversa, o prejuízo foi a frustração causada por uma pesquisa que parecia animadora para pacientes cardíacos, mas não era. Já no caso da resistência a vacinas – que não é de hoje, mas alimentada por um movimento antivacina global –, o dano das fake news é ainda pior, por atingir muito mais gente. “As vacinas desenvolvidas com a técnica inovadora do RNA mensageiro, que se mostraram tão eficazes contra a covid, foram as que mais sofreram com a desinformação. Circulava na rede que podiam provocar o autismo, um absurdo total”, lembra Goldenberg.
É possível que esse preconceito já tenha atrasado, de alguma forma, as pesquisas de novas vacinas baseadas no RNA mensageiro, como as que estão sendo desenvolvidas contra alguns tipos de câncer pelos principais laboratórios mundiais. O Instituto Butantan, por exemplo, que é o maior produtor de vacinas do Brasil, admite dificuldades nas pesquisas de novos imunizantes por causa das fake news.
“Nossos estudos clínicos foram muito prejudicados pelo medo dos falsos efeitos colaterais propagados nas mídias sociais. Está mais difícil recrutar voluntários”, revela Gustavo Mendes, diretor de regulatório, controle de qualidade e estudos clínicos do Instituto Butantan. “Durante a pandemia fomos prejudicados por fake news que colocavam em dúvida a efetividade da CoronaVac, a vacina chinesa que nós finalizávamos no Brasil e distribuíamos. Agora, enfrentamos a desconfiança de pessoas convidadas a participar dos testes. Tudo por causa de notícias falsas”, lamenta. Para combater a desinformação, o instituto pouco pode fazer, além de publicar notícias verdadeiras no próprio site e enfatizar a necessidade de verificação das fontes do que circula na internet. É pouco.
As fake news relacionadas a tratamentos de saúde aumentaram de tal forma com a pandemia de covid-19 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a cunhar um novo termo para caracterizar esse fenômeno: infodemia. Trata-se, segundo a OMS, do “excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2023/m/8/nASqkxQ3iWbFGe2wXB5w/048-samuel-20rosenberg-sbpc.jpg)
Esse é o nó: a grande dificuldade de separar o que é fato do que é invenção mal-intencionada, delírio ou simples equívoco em circulação na rede. Um levantamento feito em 2021 pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostrou que cerca de 70% dos brasileiros de 15 a 24 anos acham difícil, muito difícil ou impossível identificar se um conteúdo sobre ciência e tecnologia é falso. Outro estudo recente, conduzido pelo professor de psicologia e ciência neural Jay Van Bavel, da Universidade de Nova York, mostra que isso acontece porque a tendência natural das pessoas é buscar informações que confirmem as próprias crenças – o que as leva a não só assimilar as notícias falsas como também a espalhá-las com prazer.
Notícias falsas até podem partir de visões individuais ingênuas e distorcidas da realidade, mas em geral são articuladas por interesses políticos ou econômicos e multiplicadas com a ajuda de robôs. “Algumas pessoas sentem-se mais confortáveis negando o aquecimento global, por exemplo. Mas esse é um risco muito grande que estamos correndo atualmente e que só interessa a um setor: o de petróleo e gás”, nota Petrônio Souza, tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Em 2019, imagens de satélite, acompanhadas pelo Inpe, mostraram um avanço preocupante de queimadas na Amazônia – o que, em vez de provocar um reforço na fiscalização, gerou uma grave crise entre a instituição e o governo. Irritado, o então presidente Jair Bolsonaro transferiu para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), subordinado ao Ministério da Agricultura, a missão de monitorar o desmatamento na região e demitiu o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, atropelando um processo de indicação ao cargo que há anos estava estabelecido na instituição por critério técnico. Vale reforçar que as imagens de satélite usadas pelo Inpe são auditáveis e não sofreram contestação técnica na época.
Fake news relacionadas a ciência e tecnologia correspondem a cerca de um terço do total que é despejado na internet, na estimativa de Alexandre Aragão, editor-executivo da agência de checagem Aos Fatos. “As plataformas virtuais preferem dar guarida a notícias falsas, sob o argumento de estarem preservando o direito de expressão”, diz. O editor da Aos Fatos chama a atenção também para a falta de ações efetivas por parte de plataformas que anunciam controles mais cuidadosos, mas não cumprem a promessa.
Edgard Matsuki, editor do Boatos.org, fornece dados mais precisos. “O site já publicou mais de nove mil casos de fake news, dos quais 1.050 estão relacionados a questões de saúde, 114 a estudos científicos e 874 a tecnologia. Destes últimos, a maioria diz respeito a crimes cibernéticos e golpes on-line”, relata.
De acordo com Matsuki, depois do tsunami de informações falsas nas áreas de ciência e tecnologia nos anos mais críticos da pandemia, principalmente em relação à eficácia das vacinas e do chamado tratamento precoce, o volume de fake news regrediu. “Entre 2012 e 2016, não havia nenhum obstáculo à circulação de fake news, porque esse era um tema subestimado. A preocupação em controlar as informações falsas veio com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e com o Brexit, o referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, ambos ocorridos em 2016. Atualmente há um certo refluxo na disseminação de fake news, em razão de uma participação mais atenta de órgãos reguladores e da Justiça”, afirma.
Fonte: Valor Econômico