O Estado de S. Paulo.16 Aug 2022EDUARDO RODRIGUES THAÍS BARCELLOS
O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse ontem que o desempenho fiscal do País tem sido uma surpresa muito positiva, mas alertou para o risco de continuidade do aumento de benefícios sociais além de 2022. Segundo Campos Neto, cujo mandato no BC vai até 31 de dezembro de 2024, será uma “questão crucial” discutir a continuidade dos programas sociais e a maneira como o governo vai financiá-los no próximo ano.
“Na pandemia, o mercado esperava uma dívida bruta de 100% no fim da crise, e a gente vai terminar este ano perto de 78%. No curto prazo, teve uma surpresa muito grande”, afirmou ele, em evento promovido pelo Instituto Millenium. Campos Neto reconheceu que o impacto da inflação sobre a arrecadação é parte da razão da melhora fiscal, mas destacou que o governo não caiu na tentação de indexar salários do funcionalismo.
“Há uma preocupação com fiscal do ano que vem pela continuidade de medidas recentes, e escrevemos isso na comunicação do Copom (Comitê de Política Monetária, que define a taxa básica de juros, a Selic). Há preocupação de como vai ser resolvida a continuidade de medidas, se continuar, e como vai ser financiado”, completou.
Na ata da mais recente reunião do Copom, que subiu a Selic para 13,75% ao ano, o BC manifestou preocupação com o aumento de gastos promovido por meio da PEC Kamikaze, que turbinou benefícios sociais. “Então, isso é sempre alguma coisa que nos aflige”, afirmou Campos Neto. “O que hoje o mercado tem uma ansiedade em entender é como vai ser o fiscal do ano que vem. Se forem continuados, como vão ser financiados? Existe uma ansiedade se tem de ter uma compensação fiscal, e se vai vir com uma reforma tributária. E como vai ser uma política tributária.”
Os dois candidatos à Presidência da República mais bem posicionados na corrida eleitoral deste ano, o presidente Jair Bolsonaro e o petista Luiz Inácio Lula da Silva, prometem manter em R$ 600 o patamar mínimo para o Auxílio Brasil em 2023. Lula tem falado em terminar com o mecanismo do teto de gastos, que limita o crescimento das despesas à inflação, enquanto a equipe econômica de Bolsonaro realiza estudos para uma meta atrelada à dívida pública.
CAIXA VAZIO. Como mostrou o Estadão, o próximo presidente da República vai receber o “tanque” do caixa do governo mais vazio em pelo menos R$ 178,2 bilhões com o efeito, em 2023, das medidas adotadas pelo governo Bolsonaro e pelo Congresso – a maior parte de olho nas eleições.
A perda de recursos sobe para R$ 281,4 bilhões com a redução do caixa dos governadores e dos prefeitos com a desoneração permanente do ICMS sobre combustíveis, energia, transporte e comunicações e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Com a inclusão de um possível reajuste no salário dos servidores federais, o valor pode chegar a R$ 306,4 bilhões. •
“O que hoje o mercado tem uma ansiedade em entender é como vai ser o fiscal do ano que vem. Se forem continuados (os benefícios), como vão ser financiados?” Roberto Campos Neto – Presidente do Banco Central
Fonte: O Estado de S. Paulo
