Gustavo Ribeiro antecipa debates do 28º Congresso da Associação Brasileira de Planos de Saúde, como danos causados por judicialização e pelas perdas bilionárias em fraudes, que colocam a sustentabilidade do setor em risco
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Das 670 operadoras de planos médico-hospitalares com beneficiários registradas em setembro de 2024, 277, ou 43,15%, apresentam resultado negativo. Nos últimos três anos, o setor como um todo registrou prejuízo: foram R$ 920 milhões negativos em 2021, R$ 10,65 bilhões em 2022 e R$ 5,94 bilhões em 2023, totalizando R$ 17,51 bilhões no período.
Os números indicam que o setor de saúde suplementar do Brasil está correndo um enorme risco. “Quando fazemos alertas sobre os fatores que pressionam as empresas, parece que os reguladores e legisladores não conseguem vislumbrar que existe um risco real de o setor colapsar. Mas, como mostra o exemplo do Chile, é possível, sim, que as empresas quebrem de forma definitiva. E a saúde privada se aproxima perigosamente do modelo malsucedido do Chile”, alerta Gustavo Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge). “Mas há soluções, e o caminho é um diálogo propositivo com base em evidências”, diz.
Diferentes fatores pressionam as organizações que atuam na área. Por exemplo: apesar de, em 2023, o setor receber apenas uma reclamação a cada 13.568 procedimentos realizados, a judicialização indevida se tornou um grave fator de pressão. A esse problema se somam as fraudes, a falta de integração entre os sistemas públicos e privados e a ausência de uma agência única de incorporação de tecnologias de saúde.
Na entrevista a seguir, Ribeiro explica por que o contexto brasileiro afasta o setor do exemplo bem-sucedido do Reino Unido. E explica que essas questões serão abordadas no 28° Congresso Abramge. Realizado na Bienal de São Paulo, em 21 e 22 de novembro, o evento vai reunir lideranças nacionais e internacionais, dirigentes do setor e especialistas nos sistemas de saúde público e privado.
Como o Congresso Abramge vai refletir a respeito dos desafios que se apresentam sobre o setor?
Gustavo Ribeiro: O intuito é trazer ideias, saídas e soluções para um estagnamento que abate o setor. A realidade é que não conseguimos gerar acesso a mais de um quarto da população brasileira. Existe uma série de fatores que nos impedem de romper essa marca. A proposta, no evento, é trazer a expertise de outros modelos e sistemas, bem e mal sucedidos, e debater as lições que podemos aprender com eles. Além de mostrar que o setor está, sim, disposto a um diálogo com os diversos outros agentes da sociedade, mas em uma discussão pautada por evidências e na visão de futuro. Por isso traremos líderes nacionais e internacionais que conhecem o setor, não só do Brasil como de outros países.
Qual é o exemplo que poderia inspirar o setor e, em especial, os legisladores e reguladores?
Ribeiro: O do Reino Unido. O serviço público inglês, o NHS, tem como marca a busca incessante por sustentabilidade. Para acessar o sistema, o cidadão passa por um médico de família, dali para uma clínica, e, apenas se for o caso, vai para o hospital. Essa disciplina de acesso ajuda a manter o equilíbrio do custo e a segurança clínica do paciente. Outro ponto é que não se vê por lá a situação de insegurança regulatória experimentada no Brasil, onde uma lei de 2022 tornou o rol de medicamentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) apenas um detalhe. Então, não existe judicialização do sistema, assim como em nenhum outro país o setor é obrigado, por judicialização indevida, a fornecer medicamentos em fase experimental, não aprovados pelos agências regulatórias. Esse é um dos raros setores em que o avanço da tecnologia torna a prestação de serviços mais cara, e os reguladores britânicos ainda assim garantem a sustentabilidade e a previsibilidade.
Por outro lado, qual é o caso recente que não deveria ser seguido?
Ribeiro: O modelo de prestação em serviços de saúde do Chile era muito parecido com o brasileiro, até que uma legislação aumentou as responsabilidades das empresas privadas, sem foco na sustentabilidade financeira. O país chegou a um ponto em que as responsabilidades do sistema público migraram para o privado, que colapsou. Simplesmente não havia orçamento para atender a todos. Com a quebra das empresas, naturalmente o sistema público foi pressionado a ponto de também colapsar. O Chile então precisou voltar atrás. Agora o sistema está se reestruturando.
Como a judicialização indevida e as fraudes pressionam o setor no Brasil?
Ribeiro: O sistema de saúde suplementar gerencia o dinheiro investido por seus clientes. Quando uma ação judicial exige a compra de um medicamento de, por exemplo, R$ 20 milhões de reais, ela compromete o atendimento a muitas pessoas. E ainda provoca risco à saúde, já que muitas vezes esses produtos sequer foram aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). É um cenário que provoca falta de segurança jurídica, já que a obrigação do setor é cobrir o que está na lei, na regulação e no contrato, sem colocar em perigo a saúde dos pacientes. Por sua vez, as fraudes provocam uma série de perdas financeiras, com clínicas que declaram tratamentos que não ofertaram. A cada ano, mais de R$ 30 bilhões são perdidos pelo setor em decorrência de fraudes, o que ajuda a explicar os resultados financeiros negativos.
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De que forma incorporar as novas tecnologias oferecendo, de forma financeiramente sustentável, as soluções em saúde que vêm surgindo?
Ribeiro: Com uma maior integração entre os setores público e privado, como já acontece no Reino Unido. E com a criação de uma agência única de incorporação de tecnologia de saúde. Hoje existe a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que faz a adoção de tecnologia para o Sistema Único de Saúde (SUS). Mas, com a lei de 2022, essa agência também perdeu relevância, enquanto o sistema privado é pressionado a incorporar novas soluções. Precisamos encurtar esses espaços. A agência única poderia permitir que as novas tecnologias fossem incorporadas de forma segura e que beneficiassem a todos, garantindo a sustentabilidade do sistema. Todos esses temas serão debatidos em profundidade no 28º Congresso Abramge.
SERVIÇO:
28º Congresso Abramge
Data: 21 e 22 de novembro
Horário: Na quinta (21) das 8h às 17h30 e na sexta (22) das 9h às 13h30
Local: Pavilhão da Bienal – Parque do Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/n (acesso pelo portão 3)
Mais informações: congressoabramge.com.br
Fonte: Valor Econômico