LONDRES, 24 de junho (Reuters) – Os guardiões de trilhões de dólares em reservas de bancos centrais ao redor do mundo estão considerando uma migração do dólar para o ouro, o euro e o yuan chinês, à medida que a fragmentação do comércio global e as turbulências geopolíticas provocam uma reavaliação dos fluxos financeiros.
De acordo com um relatório do Official Monetary and Financial Institutions Forum (OMFIF), com publicação prevista para esta terça-feira, um em cada três bancos centrais que gerenciam um total combinado de US$ 5 trilhões pretende aumentar a exposição ao ouro nos próximos um a dois anos (já descontados aqueles que planejam reduzir), o maior nível em pelo menos cinco anos.
A pesquisa, realizada entre março e maio com 75 bancos centrais, oferece um primeiro retrato das repercussões das tarifas do “Dia da Libertação”, de 2 de abril, impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump — evento que desencadeou turbulência nos mercados e uma desvalorização do dólar, tradicional porto seguro, e dos títulos do Tesouro dos EUA.
O ouro, que os bancos centrais já vinham acumulando em ritmo recorde, foi apontado como um ativo com benefícios ainda maiores no longo prazo, com 40% líquidos dos bancos centrais planejando aumentar suas reservas do metal precioso na próxima década.
“Após anos de compras recordes de ouro por bancos centrais, os gestores de reservas estão dobrando a aposta no metal precioso”, afirmou o OMFIF.
O dólar, que havia sido a moeda mais popular na pesquisa do ano passado, caiu para a sétima posição este ano, segundo o OMFIF, com 70% dos entrevistados alegando que o ambiente político dos EUA os desestimula a investir na moeda — mais que o dobro da proporção observada no ano anterior.
No universo das moedas, o euro e o yuan são os que mais devem se beneficiar com a diversificação em relação ao dólar.
Uma parcela líquida de 16% dos bancos centrais entrevistados pelo OMFIF afirmou que planeja aumentar a alocação em euro nos próximos 12 a 24 meses, tornando-o a moeda mais demandada, frente a 7% no ano anterior, seguido pelo yuan.
Mas, no horizonte de dez anos, o yuan é o mais favorecido, com 30% líquidos dos bancos centrais planejando aumentar sua exposição, e sua participação nas reservas globais prevista para triplicar, alcançando 6%.

Separadamente, três fontes que mantêm contato direto com gestores de reservas disseram à Reuters que enxergam o euro com potencial para recuperar, até o final desta década, a participação de mercado que perdeu após a crise da dívida da zona do euro em 2011. Essas fontes citaram um sentimento mais positivo entre os gestores de reservas em relação ao euro após o “Dia da Libertação”.
Isso significaria uma recuperação para cerca de 25% de participação nas reservas cambiais globais, frente aos atuais 20%, representando um marco importante na recuperação do bloco da crise que ameaçou a existência do euro.
Max Castelli, chefe de estratégia e consultoria para mercados soberanos globais na UBS Asset Management, disse à Reuters que os gestores de reservas fizeram muitas ligações após o “Dia da Libertação” para perguntar se o status do dólar como porto seguro estaria em risco.
“Pelo que me lembro, essa pergunta nunca havia sido feita antes — nem mesmo após a grande crise financeira de 2008.”
A expectativa média para a participação do dólar nas reservas cambiais globais em 2035 é de 52%, segundo a pesquisa do OMFIF — mantendo-se como principal moeda de reserva, mas em queda frente aos atuais 58%.
O MOMENTO DO EURO?
Os respondentes da pesquisa do OMFIF esperam que o euro atinja cerca de 22% de participação nas reservas globais dentro de 10 anos.
“A participação do euro nas reservas globais quase certamente aumentará nos próximos anos — não tanto porque a Europa seja vista de forma muito mais favorável, mas porque o status do dólar está diminuído”, afirmou Kenneth Rogoff, professor de Harvard e ex-economista-chefe do FMI, em e-mail à Reuters antes da publicação do OMFIF.

No entanto, a Europa poderia atrair uma fatia maior das reservas mais rapidamente se o bloco conseguir ampliar sua oferta de títulos, que atualmente é muito inferior aos US$ 29 trilhões do mercado de Treasuries dos EUA, além de integrar seus mercados de capitais, disseram fontes próximas aos gestores de reservas à Reuters.
A presidente do BCE, Christine Lagarde, também tem defendido medidas para fortalecer o euro como alternativa viável ao dólar.
“O euro é a única moeda alternativa real, no momento, com capacidade de provocar uma mudança significativa no nível das reservas”, disse Bernard Altschuler, chefe global de atendimento a bancos centrais no HSBC, acrescentando que vê como “realista” o euro alcançar 25% de participação nas reservas globais em dois a três anos, caso essas questões sejam endereçadas.
A União Europeia é o maior bloco comercial do mundo. Sua economia é muito maior do que a de outros rivais do dólar. Os controles de capital limitam o apelo do yuan.
O ímpeto por mudanças tem se intensificado, com a Europa sinalizando disposição para reduzir sua dependência dos EUA por meio do aumento nos gastos com defesa, inclusive com mais emissões conjuntas de dívida na UE. A Alemanha está aumentando seus gastos, enquanto a UE tenta retomar os esforços para integrar seus mercados de capitais.
Fundos de pensão públicos e fundos soberanos, também incluídos na pesquisa do OMFIF, apontaram a Alemanha como o mercado desenvolvido mais atrativo.
Castelli, da UBS Asset Management, disse que tem recebido muito mais perguntas sobre o euro, estimando que a moeda possa recuperar 25% de participação nas reservas até o fim da década de 2020.
No cenário mais otimista, Francesco Papadia — que comandou as operações de mercado do BCE durante a crise da dívida — estima que o euro pode recuperar os 25% em apenas dois anos.
Papadia, hoje pesquisador sênior do think tank Bruegel, afirmou que os gestores de reservas com quem conversa estão mais dispostos a considerar o euro do que no passado.
Zhou Xiaochuan, presidente do banco central da China entre 2002 e 2018, concorda que o papel do euro como moeda de reserva pode crescer. No entanto, ele afirmou à Reuters, à margem de uma conferência recente, que “ainda há lição de casa a ser feita”.
Fonte: Reuters
Traduzido via ChatGPT

