A implacável recuperação de Wall Street neste verão (no hemisfério norte) levou os preços das ações a níveis próximos a recordes, gerando alertas de que mercados “eufóricos” estão entrando em território de “bolha”.
O índice S&P 500 quebrou uma série de picos históricos em julho, enquanto os custos de empréstimos corporativos dos EUA em relação à dívida pública se aproximam do nível mais baixo em décadas, em uma reviravolta dramática em relação à queda de abril desencadeada pela guerra comercial de Donald Trump.
Mesmo com o presidente assinando acordos que confirmam as tarifas de importação dos EUA em seu nível mais alto em décadas, os sinais de entusiasmo do mercado se multiplicaram. Ações de tecnologia altamente valorizadas atingiram novas máximas – tornando a Nvidia a primeira empresa de capital aberto de US$ 4 trilhões – enquanto a febre das “ações meme” de 2021 ressurgiu, com investidores de varejo comprando ações da fabricante de câmeras GoPro e da rede de donuts Krispy Kreme.
“Acho que você começa a ver, talvez, alguns paralelos muito preliminares com o que vimos no ‘boom’ de internet no fim dos anos 90, início dos anos 2000”, disse Dan Ivascyn, diretor de investimentos da Pimco, gestora com US$ 2,1 trilhões em ativos. “Há uma mentalidade de bilhete de loteria que tende a existir… É uma situação perigosa”, completou.
As ações do S&P 500 são avaliadas agora pelos investidores em mais de 3,3 vezes o valor de suas vendas, de acordo com dados da Bloomberg, um recorde histórico.
Um indicador de “euforia das ações” do Barclays, composto por fluxos de derivativos, volatilidade e sentimento do investidor, subiu para o dobro do seu nível normal, entrando em território associado no passado a bolhas de ativos.
“[O indicador] está mostrando claramente que o mercado está eufórico”, disse Stefano Pascale, chefe de estratégia de derivativos de ações dos EUA no banco britânico.
Os investidores receberam com alívio um acordo entre os EUA e o Japão que estabelece tarifas sobre as importações do Japão em 15% e a perspectiva de um acordo semelhante com a União Europeia (UE). Embora esses impostos estejam muito acima dos níveis vigentes antes da chegada de Trump à Casa Branca, eles são menos extremos do que aqueles ameaçados por seu anúncio do chamado “Dia da Libertação”, que derrubou os mercados.
“Esses primeiros acordos são ruins, mas os investidores estão satisfeitos com tudo, menos com uma guerra comercial completa”, disse Luca Paolini, estrategista-chefe da Pictet Asset Management.
Os mercados de ações têm se mantido imunes às preocupações com o endividamento excessivo do governo dos EUA e a independência do Federal Reserve (Fed, banco central americano), que prejudicaram os títulos do Tesouro e o dólar, que se desvalorizou quase 10% este ano em relação a uma cesta de moedas rivais.
Você começa a ver paralelos com o que vimos no ‘boom’ de internet no fim dos anos 90, início dos anos 2000”
Muitas das ações de tecnologia de grande capitalização, responsáveis pela maior parte da alta do mercado americano nos últimos anos, impulsionaram a recuperação da liquidação no início do ano. Os papéis da fabricante de chips Nvidia e da Meta, controladora do Facebook, subiram 100% e 50% desde suas mínimas intradiárias de abril.
Em todo o S&P, “preço sobre vendas, preço sobre fluxo de caixa, preço sobre valor contábil, preço sobre dividendos, todos estão próximos de níveis recordes”, disse Rob Arnott, fundador e presidente do grupo de gestão de ativos Research Affiliates, que comparou o investimento no pequeno grupo de ações de tecnologia que dominam o índice a ganhar moedas na frente de um rolo compressor.
“O mercado está precificando os atuais players dominantes de inteligência artificial (IA) como se eles não tivessem concorrência no futuro”, disse ele. “Ao mesmo tempo, há cautela em se afastar de nomes populares e efêmeros, porque se você agir cedo demais, terá problemas.”
Um grupo de empresas menores se saiu ainda melhor. As fortes vendas de contratos governamentais ajudaram o grupo de defesa Palantir a subir 140% desde que suas ações atingiram o fundo do poço em abril. As ações da corretora de criptomoedas Coinbase subiram quase 180%, impulsionadas por uma onda de otimismo no setor de ativos digitais desencadeada pela vitória eleitoral de Trump em novembro. O bitcoin ultrapassou US$ 120 mil pela primeira vez em meados deste mês, à medida que empresas e investidores continuam a investir em criptoativos que estão sendo incorporados ao mercado financeiro tradicional.
A euforia se espalhou para o crédito corporativo, segmento em que a taxa de juros adicional sobre empresas americanas com alta classificação de crédito em relação aos títulos públicos de referência caiu para 0,8 ponto percentual, perto do menor nível desde 2005.
Analistas do Deutsche Bank, em nota na quinta-feira, questionaram se o aumento nos empréstimos para financiar a compra de ações seria um sinal da “euforia mais intensa” desde 1999 e 2007.
Fonte: Valor Econômico
