Segundo subsecretário americano, fornecimento de insumos para vacinas e capacidade de produção de imunizantes fazem do Brasil parceiro estratégico para os Estados Unidos
Por Marsílea Gombata — De São Paulo
29/04/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
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Jose Fernandez: “As cadeias de suprimento têm de ser diversificadas” — Foto: Silvia Zamboni/Valor
O Brasil pode ser um líder regional no processo de reorganização das cadeias globais de valor. O fornecimento de insumos para vacinas e a capacidade de produção de imunizantes fazem do Brasil um parceiro estratégico para os Estados Unidos, afirma o subsecretário de Estado americano para Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente, Jose Fernandez.
Em uma visita de três dias ao Brasil, Fernandez se reuniu com representantes dos ministérios da Economia e da Saúde, em Brasília, e de empresas como a Vale e a CSN, farmacêuticas, da Fiocruz e do Instituto Butantan, em São Paulo. “O Brasil é o líder regional na produção de vacinas. Precisamos ter certeza de que na próxima pandemia teremos as vacinas certas e os medicamentos necessários”, disse em entrevista ao Valor, no consulado americano em São Paulo.
“Aprendemos com a pandemia que não podemos ser dependentes de uma ou duas fontes de qualquer coisa que precisamos. Vimos isso com a pandemia. E isso ocorre em qualquer área, como semicondutores, em que basicamente há quatro ou cinco países responsáveis pela maior parte da produção”, disse. “Estamos aprendendo que, de maneira geral, as cadeias de suprimento têm de ser diversificadas. E essa guerra com a invasão da Rússia deixou isso claro.”
Leia trechos da entrevista:
Valor: A visita foi motivada por preocupações sobre autossuficiência que tem crescido desde o governo Trump, com a covid-19 e com a guerra entre Rússia e Ucrânia? Os Estados Unidos estão buscando fontes alternativas de energia e também commodities? Brasil e América Latina têm oportunidade quando se trata de aumentar essa oferta?
Jose Fernandez: Estamos planejando essa visita muito antes de ela acontecer, que era para ter sido em janeiro. E não pudemos fazer por causa da covid. Essa viagem é inusual porque vieram dois subsecretários do Departamento de Estado: Victoria Nuland [Assuntos Políticos] e eu. Isso nunca aconteceu. Primeiro de tudo, falamos sobre comércio. Os números estão crescendo, e 2021 foi um ano recorde. No primeiro trimestre deste ano, o nosso comércio cresceu 44% em relação ao mesmo período do ano passado [segundo dados da Câmara Americana de Comércio, Amcham]. E esse comércio não é somente de produtos primários. Mais da metade, na verdade, 55% são de bens de valor agregado. É um bom comércio que cria empregos no Brasil e ajuda nossa relação.
E tratamos de cadeias de suprimento. Todo mundo está falando sobre isso. Mas como fortalecermos nossas cadeias de valor? Por exemplo, passamos muito tempo com o Ministério da Economia e também conversamos com representantes da Fiocruz e do Instituto Butantan. E acabei de me reunir com produtores de vacina.
Discutimos com o governo brasileiro o que podemos fazer juntos para ambos estarmos preparados para a próxima pandemia. E também criar melhores cadeias de suprimento para quando tivermos a próxima pandemia As empresas brasileiras podem produzir as vacinas certas.
Falamos sobre energia limpa. É um setor no qual o Brasil é líder. Acredito que das grandes economias da região, o Brasil tem o maior percentual [de energia limpa], de 80%. A Costa Rica tem 100%. Falamos sobre planos para expandir a produção de energia eólica offshore.
E conversamos sobre a Cúpula das Américas, que ocorrerá em junho, em Los Angeles. Falamos sobre como trabalhar juntos lá e expressamos o desejo de que o presidente [Jair] Bolsonaro possa ir. Espero que lá, por exemplo, possamos discutir saúde, cadeias de suprimento, a situação de direitos humanos na região, e uma série de outras coisas nas quais o Brasil pode ser líder.
Valor: Mas há preocupação com a oferta de commodities, em meio à guerra em curso?
Fernandez: Sim. Temos o direito de estarmos preocupamos agora e tínhamos antes também. Então isso não é novo. Aprendemos com a pandemia que não podemos ser dependentes de uma ou duas fontes de qualquer coisa que precisamos. Por exemplo, na Europa, onde 40% do gás que consomem vem da Rússia, estão aprendendo a necessidade de diversificar. Vimos isso com a pandemia. Estamos aprendendo que, de maneira geral, as cadeias de suprimento têm de ser diversificadas. E essa guerra com a invasão da Rússia deixou isso claro. Para energia, para fertilizantes.
Valor: Aumentar essa oferta de commodities é importante para reduzir a inflação global? A inflação é um problema hoje para os EUA, para o Brasil e muitos outros países.
Fernandez: A inflação está muito alta. Mas o que tivemos nos EUA é diferente da inflação em outros países. Temos uma crise de oferta. Por causa dos estímulos do presidente [Joe] Biden e ajuda para famílias, crianças, reduzimos a pobreza, tornamos [a crise] menos difícil para essas pessoas. Então eles têm um poder aquisitivo que não foi reduzido. O que foi reduzido foi a oferta. No passado era o oposto. As pessoas não tinham o dinheiro, mas havia produtos. E isso levou à recessão, as pessoas a passarem fome, nas ruas, perdendo seus empregos e seus lares.
No último trimestre de 2021 os salários dos 25% mais pobres cresceram mais do que os dos 25% mais ricos. Reduzimos a diferença. Sim, temos inflação. Mas é uma inflação diferente. Eu diria que, se nos acusam de alguma coisa, é de priorizar as pessoas que mais precisam em vez daquelas que menos precisam.
Valor: Recentemente, em um encontro impressionante, EUA e Venezuela falaram sobre produção de petróleo. Foi surpreendente porque há poucos anos o governo americano anunciou sanções contra o governo venezuelano.
Fernandez: E elas ainda estão em vigor.
Valor: Sim, mas queria abordar dois pontos em relação a isso. Essa reaproximação para falar de petróleo e as sanções não são posturas contraditórias? E, uma vez que a oferta de petróleo é uma preocupação dos EUA e do mundo todo, os EUA também estão cortejando o petróleo brasileiro? No último trimestre de 2021, 9% das nossas exportações petroleiras foram para os EUA, enquanto mandamos 38% para a China. Há alguma perspectiva de aumentar essas cifras?
Fernandez: Em relação à Venezuela, não há diálogo agora [entre o governo americano e o governo venezuelano]. Lembre-se que fomos lá para conseguir tirar dois reféns americanos.
Sobre a segunda parte, os EUA são praticamente autossuficientes em petróleo. Então, importamos muito pouco. Espero que haja mais petróleo exportado para a Europa. E espero que o Brasil aumente sua produção de petróleo. Também ficamos muito gratos com a declaração do Brasil de que aumentará sua produção de petróleo em 10% para lidar com a crise atual. Esperaria mais exportações para a Europa. Mas não mais para os EUA. Nós produzimos o que precisamos.
Valor: O senhor mencionou cadeias de suprimento. O Brasil tem perdido espaço nas cadeias de valor. O Brasil é parte dos planos de regionalização que os EUA vêm buscando, junto com o movimento de reshoring? Como poderíamos ter melhor inserção nas cadeias globais e ser parceiro dos EUA nisso?
Fernandez: O Brasil pode ser um líder, não apenas um parceiro, em termos de cadeias de suprimentos. Naquilo que estamos chamando de near shoring [regionalização] e reshoring [de volta para o país], para trazer produtos e componentes para perto dos EUA. No diálogo de alto nível passamos muito tempo falando sobre cadeias de suprimentos em saúde. O Brasil é o líder regional na produção de vacinas. Precisamos ter certeza de que na próxima pandemia teremos as vacinas certas e os medicamentos necessários. O Brasil tem oportunidade com parceiros e empresas nos EUA, mas também com empresas europeias para ser parte de cadeias de produção e produzir vacinas e ingredientes necessários nesta parte do mundo.
Fonte: Valor Econômico