Apesar da recente volatilidade dos mercados e do questionamento sobre o excepcionalismo americano, Naureen Hassan, CEO da DriveWealth, acredita haver ventos favoráveis para investimentos nos Estados Unidos e permanece confiante em relação à independência do Federal Reserve (Fed, banco central americano). Em entrevista ao Valor durante passagem pelo Brasil, ela destacou que na DriveWealth, que oferece serviços de corretagem para outras empresas, ainda há forte demanda por ativos americanos e vê uma tendência positiva para os mercados emergentes no longo prazo.
“Não vimos uma fuga das ações dos EUA. Essa narrativa está circulando há um ano, mas o dinheiro não saiu”, afirmou.
A DriveWealth, que oferece serviços para empresas de diferentes países, processa cerca de 3 milhões de negociações por dia e tem visto forte demanda por ativos americanos. Na visão dela, embora haja muitos “ventos contrários” vindos do noticiário nos Estados Unidos, com dúvidas dos investidores em torno das mudanças na política e na economia, também há ventos favoráveis, como a desregulamentação e a inteligência artificial.
“Continuamos a ver uma demanda contínua e até crescente por ações americanas. Os títulos dos Tesouro americano continuam fortes. Houve muita conversa sobre se o dólar deixará de ser a moeda de reserva global, mas tenho muita confiança em Jerome Powell e no Federal Reserve”, disse a executiva, que também serviu como vice-presidente da distrital do Fed de Nova York entre 2021 e 2022. “O Fed tem conduzido a política monetária com mão firme, e acredito que essa independência do banco central tornou os Estados Unidos mais fortes.”
Hassan está confiante com a indicação do ex-diretor do Fed Kevin Warsh para a assumir a presidência do banco central americano a partir da saída do atual presidente, em maio. “Kevin Warsh tem um excelente histórico. Ele é ex-dirigente do banco central, muito experiente, e estou curiosa para ver o que fará.”
A executiva também disse acreditar que a atual divergência de opiniões entre os membros do Fed, que tem levado a um placar dividido nas votações, tende a ser um ponto positivo. “Esse debate fortalece, em vez de enfraquecer, a abordagem geral dos Estados Unidos”, disse. “A independência do Fed é um pilar do sistema financeiro dos Estados Unidos que não vejo mudar.”
O Fed tem sido alvo de uma série de críticas por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que argumenta que os juros deveriam estar mais baixos. Warsh compartilha da mesma opinião, assim como o diretor Stephen Miran, também indicado por Trump, enquanto outros membros do comitê enfatizam sua preocupação com uma inflação que está quase 1 ponto percentual acima da meta da autoridade monetária.
Além do temor com uma possível ameaça à independência do Fed e da incerteza sobre a política tarifária nos EUA, dúvidas sobre a tese de investimentos em inteligência artificial também têm causado forte volatilidade nos mercados americanos. Hassan reconhece os debates em torno da nova tecnologia, mas defendeu que os investidores adotem uma abordagem de longo prazo. “Acho que ainda estamos nos estágios iniciais do que será a inteligência artificial e de como vai funcionar. É cedo demais para concluir algo”, afirmou, descartando temores de uma possível bolha. “Há exageros, mas essas tecnologias fazem diferença real. Pode haver elementos de euforia excessiva, mas acredito que a inteligência artificial terá um impacto duradouro.”
A executiva também destacou o interesse de investidores estrangeiros pelo Brasil e mercados emergentes de uma forma geral. “O Brasil é um dos principais mercados comentados no mundo hoje. Então, todos estão animados com a ideia de investir no Brasil”, disse.
Questionada se essa tendência se manterá mesmo com as eleições presidenciais em outubro, ela afirmou que é preciso esperar para ver. “Estabilidade, inflação baixa e moderada: é isso que os investidores querem ver”, ressaltou. “Os fluxos para mercados emergentes vêm se construindo há anos. Podem passar por ciclos, com altos e baixos, mas é uma tendência de longo prazo.”
A DriveWealth atua no modelo de “brokerage as a service”, oferecendo infraestrutura completa de corretora, via API, para que outras companhias possam incorporar investimentos dentro de suas próprias plataformas. No Brasil tem entre seus clientes nomes como BTG Pactual e Nomad. Também é parceria do britânico Revolut e da coreana Toss. No caso brasileiro, o Banco Central aprovou recentemente novas regras para provedores de banking as a service, deixando mais claras as responsabilidades dos elos da cadeia.
Para Hassan, trata-se de é um avanço. “Acho que essas regras realmente ajudam a esclarecer e facilitar a realização de negócios, porque se você souber quais são as regras, haverá clareza. Quando você tem uma regulamentação que fornece as regras, é realmente mais fácil avançar mais rápido. Porque você sabe o que fazer. E você sabe como se manter longe de problemas”, disse.
Sobre as mudanças trazidas pela IA para a indústria de investimentos, a executiva afirmou que é preciso se adaptar. “Quem enfiar a cabeça na areia [fingir que não está acontecendo nada] vai ser o perdedor. Então, se você é um consultor financeiro que apenas escolhe ações, se essa é a sua proposta de valor… bem, o ChatGPT ou Gemini podem fazer isso. Eles podem fazer isso para você agora mesmo, e então você pode se conectar por meio de APIs para executar essas negociações e gerenciar esse portfólio. Mas os vencedores serão aqueles que investirem no que não pode ser automatizado, que é o relacionamento e a psicologia por trás da gestão financeira.”
A DriveWealth detém a patente de negociação fracionada de ações – ou seja, a tecnologia que permite a qualquer um comprar um “pedacinho” de uma ação de uma empresa. Alguns papéis chegam a custar centenas ou mesmo milhares de dólares cada, e essa tecnologia permite tornar os investimentos mais acessíveis. “Estamos trazendo os investimentos para as massas, com essa negociação fracionada de ações. Temos visto interesse em todo mundo por esse tipo de negociação.”
Fonte: Valor Econômico
