Por Gideon Rachman — Financial Times
27/04/2023 05h03 Atualizado há 4 horas
Ao visitar Washington na semana passada, foi impressionante ver como se tornaram corriqueiras as conversas sobre uma guerra entre EUA e China. Essas discussões têm sido alimentadas por declarações indiscretas de generais americanos imaginando as eventuais datas de um início das hostilidades.
Os comentários, embora imprudentes, não sugiram do nada. São reflexo de uma discussão maior em Washington sobre a China – dentro e fora do governo. Muitas pessoas influentes parecem pensar que uma guerra entre EUA e China não só é possível, mas provável.
A retórica que vem de Pequim também é beligerante. Em março, o ministro das Relações Exteriores da China, Qin Gang, disse que “se o lado dos EUA não pisar no freio e seguir no caminho errado, o conflito” entre os países é inevitável.
Enquanto tenta estabilizar as relações com a China, autoridades americanas agora estão pensando na época da Guerra Fria – não como um alerta, mas como possível modelo. Muitos citam o período da “détente” dos anos 70 como exemplo de estabilidade estratégica – no qual duas superpotências hostis, armadas até os dentes, conviveram sem entrar em guerra.
Apenas foi possível chegar à contenção após perigosas crises no início da Guerra Fria. Foi depois do que um oficial americano descreve como “a experiência de quase morte” da crise dos mísseis cubanos de 1962 – talvez o mais perto que mundo chegou de uma guerra nuclear total – que Washington e Moscou reconheceram a necessidade de estabilizar a relação.
A Casa Branca e o Kremlin criaram uma “linha direta” de comunicação em 1963. Militares soviéticos e americanos começaram a conversar de forma mais frequente para dissipar receios de exercícios militares e lançamentos de mísseis. Os EUA pediram à China para criar barreiras similares para vitar riscos de conflitos acidentais.
Pequim, no entanto, não mostra muito interesse. Os comentários do cnanceler da China sobre os perigos de conflito e confrontação se deram no contexto de uma rejeição explícita às barreiras sugeridas pelos EUA, que, segundo ele, são apenas uma forma de tentar forçar a China “a não responder quando caluniada ou atacada”.
A objeção básica do governo de Xi é que o governo de Joe Biden tenta institucionalizar operações militares americanas consideradas essencialmente ilegítimas pela China. Na opinião dos chineses, os EUA não deveriam prometer defender Taiwan (uma província rebelde na opinião deles). Como disse uma autoridade em Washington: “Eles acham que nossa conversa sobre barreiras é como dar um cinto de segurança a um motorista indo acima da velocidade”.
Por sua vez, os EUA veem a China como o motorista imprudente. Autoridades americanas falam sobre as décadas de expansão militar chinesa, com o forte crescimento do arsenal de armas nucleares.
A avaliação dos EUA quanto às intenções políticas e estratégicas por trás dessas atitudes é das piores. Autoridades americanas acreditam que Xi Jinping decidiu que a “reunificação” da China continental e de Taiwan deveria ser a peça central de seu legado. Também acham que, para garantir isso, ele está preparado para usar a força – e que ele disse a seus militares para estarem prontos até 2027. Se for verdade, colocar “barreiras” não será suficiente para garantir a paz.
Dessa forma, além de tentar retomar um diálogo regular, os americanos tentam mudar os cálculos de Xi sobre quais seriam seus custos e benefícios se optasse por usar a força militar. Isso significa trabalhar com aliados para reforçar o poder militar no Indo-Pacífico.
O governo Biden acredita estar indo bem nessa frente. Destaca o forte aumento nos gastos militares do Japão; a assinatura do tratado Aukus entre Austrália, Reino Unido e EUA; a proximidade cada vez maior no relacionamento entre Washington e Déli; o reforço do Quad (unindo EUA, Índia, Japão e Austrália); e a decisão das Filipinas de permitir mais acesso dos EUA a bases perto de Taiwan.
Ao mesmo tempo, os americanos tentam minimizar os receios da China de que eles estariam tentando prejudicar a economia do país. Os fortes elos econômicos entre EUA e a China são uma diferença óbvia entre as rivalidades atuais e as da Guerra Fria.
Ainda assim, os preparativos para um conflito continuam em ritmo acelerado, em ambos os lados. Nessa rivalidade militarizada, o poder dissuasão de um lado leva a uma escalada no outro. O risco óbvio é que Washington e Pequim estejam ficando presos em um ciclo de ação e reação que os aproximaria da iminência de um conflito direto.
Isso, por si só, já é perigoso. Também torna cada vez mais improvável que Pequim e Washington cooperem nos problemas mundiais enfrentados por todos os países – desde a prevenção da próxima pandemia até as mudanças climáticas e o gerenciamento da inteligência artificial (IA). Os possíveis usos militares dessa tecnologia são tão dramáticos que tanto Washington quanto Pequim terão enorme cautela em compartilhar seus conhecimentos, embora ambos os lados consigam ver os possíveis riscos para a humanidade decorrentes do desenvolvimento de uma IA “semelhante a Deus”.
As pessoas encabeçando estratégia dos EUA insistem que o objetivo de longo prazo é alcançar uma “estabilidade estratégica” com a China. Isso ainda parece estar muito distante.
Fonte: FT / Valor Econômico
