Enquanto o governo dos EUA avalia planos para um ataque ao Irã, o regime dos aiatolás prometeu ontem julgar e punir com rapidez manifestantes detidos na onda de protestos que tomou conta do país desde o fim do ano passado, embora tenha descartado planos para enforcá-los. Os EUA seguem retirando parte do efetivo de bases no Oriente Médio, após um alto funcionário iraniano dizer que Teerã alertou seus vizinhos de que atacará bases americanas em caso de uma investida militar de Washington.
Depois ameaçar o Irã na terça-feira com ações militares em resposta à morte de manifestantes pacíficos, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse ontem ter sido informado de que a repressão tinha diminuído. Mas mais uma vez se recusou a descartar completamente um possível ataque. “Disseram-nos que as mortes no Irã estão parando – pararam”, disse Trump a repórteres no Salão Oval da Casa Branca. “E não há plano para execuções.”
Trump afirmou que foi “informado por fontes muito importantes do outro lado” sobre a decisão de não prosseguir com as execuções e que ficaria “muito chateado” se a informação se provasse falsa e a repressão violenta continuasse.
Os comentários de Trump parecem ter o objetivo de sinalizar uma redução cautelosa dos temores de que a crise no Irã pudesse evoluir para um confronto regional mais amplo.
Mesmo assim, Trump não descartou uma possível ação militar dos EUA, dizendo que “vamos observar como será o processo”, antes de mencionar que o governo americano recebeu um “posicionamento muito bom” do Irã.
Disseram-nos que as mortes no Irã estão parando – pararam”
A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Activists News Agency (Hrana) contabilizava 18.137 prisões até ontem. A Hengaw, um grupo de direitos dos curdos iranianos, relatou na terça-feira que um homem de 26 anos, Erfan Soltani, preso em conexão com os protestos na cidade de Karaj, seria executado ontem. No entanto, o cumprimento da sentença foi adiado, de acordo com a organização não governamental, que atribuiu a informação a parentes de Soltani.
Diante do aumento das tensões regionais, os Estados Unidos estavam retirando ontem parte do seu pessoal de bases importantes na região como medida de precaução.
O jornal The i Paper informou que o Reino Unido também estava removendo alguns membros de sua equipe de uma base aérea no Catar antes de possíveis ataques americanos. O Ministério da Defesa britânico não comentou imediatamente o assunto.
“Todos os sinais indicam que um ataque dos EUA é iminente, mas é assim que este governo age para manter todos em alerta. A imprevisibilidade faz parte da estratégia”, disse ontem um oficial militar ocidental, sob condição de anonimato.
Dois funcionários europeus disseram que uma intervenção militar dos EUA poderia ocorrer nas próximas 24 horas. Um funcionário israelense também afirmou que parecia que Trump havia decidido intervir, embora o alcance e o momento ainda não estivessem claros.
O Catar afirmou que as reduções de efetivo em sua base aérea de Al Udeid, a maior base dos EUA no Oriente Médio, estão “sendo realizadas em resposta às atuais tensões regionais”.
Os distúrbios no Irã começaram duas semanas atrás como manifestações contra as péssimas condições econômicas e escalaram rapidamente nos últimos dias – como os mais violentos desde a Revolução Islâmica de 1979, que instaurou o sistema de governo clerical xiita no país.
Um funcionário iraniano afirmou que mais de duas mil pessoas morreram. Um grupo de direitos humanos estimou o número em mais de 2,5 mil. O Irã “nunca enfrentou esse nível de destruição”, disse ontem o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Abdolrahim Mousavi, culpando inimigos estrangeiros.
Em visita a uma prisão em Teerã onde manifestantes estão detidos, o chefe do Judiciário do Irã, Gholamhossein Mohseni-Ejei, afirmou ontem que a rapidez no julgamento e na punição daqueles que “decapitaram ou queimaram pessoas” era fundamental para garantir que tais eventos não aconteçam novamente.
Os comentários de Mohseni-Ejei foram feitos em um vídeo compartilhado on-line pela televisão estatal iraniana. “Se quisermos fazer um trabalho, devemos fazê-lo agora. Se quisermos fazer algo, temos que fazer rapidamente”, disse. “Se demorar – dois meses, três meses depois – não tem o mesmo efeito. Se quisermos fazer algo, temos que fazer rápido.”
No entanto, em entrevista ontem ao canal Fox News, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que “não há plano” do Irã para enforcar pessoas, ao ser questionado sobre os protestos antigovernamentais.
Mais de 2,5 mil pessoas haviam morrido em meio à repressão violenta do governo às manifestações até ontem, segundo a Hrana. Do total de mortos, 2.403 eram manifestantes e 147 agentes de segurança. Doze crianças foram mortas, assim como nove civis que, segundo a entidade, não participavam dos protestos.
Fonte: Valor Econômico

