Por Amy Bell, Harry Dempsey e Shotaro Tani Nome — Financial Times, de Londres
20/12/2023 05h02 Atualizado há 6 horas
Navios porta-contêineres estavam abandonando ontem uma das rotas mais comerciais mais movimentandas do mundo, enquanto os EUA organizam uma força-tarefa para evitar ataques de rebeldes houtis iemenitas no mar Vermelho e nas proximidades do Estreito de Ba-el-Mandeb. O secretário de Defesa americano, Lloyd Austin, advertiu que a navegação na área não estará segura até que uma patrulha esteja formada.
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“O secretário reiterou que a comunidade internacional enfrenta um desafio global sem precedentes e exige uma ação coletiva de seus aliados”, disse o Pentágono após a videoconferência.
Ontem, os cargueiros começaram a evitar o mar Vermelho em meio aos crescentes ataques de rebeldes apoiados pelo Irã na região. A AP Møller-Maersk, que opera a segunda maior frota de navios de transporte de contêineres do mundo, é a mais nova a redirecionar suas embarcações em torno da África, via Cabo da Boa Esperança, em razão da “situação de segurança altamente agravada”.
“Os ataques que temos visto contra navios comerciais na área são alarmantes e representam uma ameaça significativa à segurança e proteção dos marinheiros”, disse a companhia em um comunicado. “Esta decisão foi tomada para garantir a segurança de nossas tripulações, embarcações e cargas dos clientes à bordo”.
Dados da MariTrace, um serviço de rastreamento de navios, mostraram que ontem à noite apenas 210 navios atravessaram o mar Vermelho, rota para o Canal de Suez, em um das maiores mudanças nas itinerários marítimos comerciais internacionais desde a invasão da Ucrânia pela Rússia há quase dois anos. Em comparação, havia cerca de 330 navios atravessando a região no mês passado.
Rota alternativa deve estender a viagem da Ásia para a Europa em 3 ou 4 semanas
As mudanças começaram a ocorrer quando os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, intensificaram sua campanha contra os navios que passam pelo estreito de Bab-el-Mandeb, uma via navegável no sul do mar Vermelho que pode ser facilmente alcançada por mísseis e drones do Iêmen. Os líderes houthis já disseram que sua campanha é uma resposta à ofensiva de Israel contra o grupo terrorista Hamas. Já houve mais de dez ataques contra navios na área desde que o conflito começou e a Marinha dos EUA relatou ter frustrado ao menos o mesmo número de ataques de drones.
A decisão da Maersk coincide com iniciativas parecidas de outros grupos. A Evergreen Marine, baseada em Taiwan, disse esta semana que decidiu “parar temporariamente de aceitar cargas israelenses com efeito imediato” e instruiu seus navios de contêineres a “suspender a navegação pelo mar Vermelho até segunda ordem”.
A alemã Hapag-Lloyd desviou todos os navios na segunda para o cabo da Boa Esperança, ao sul da África. A MSC decidiu na sexta redirecionar alguns de seus serviços e a CMA CGM, de Marselha, está adotando uma posição parecida.
A CMA CGM disse que redirecionou alguns navios para passarem pelo extremo sul da África e instruiu outros a irem a áreas seguras e pausar suas viagens até novo aviso. A Wallenius Wilhelmsen disse ontem estimar que a decisão de redirecionar os navios ao redor da África acrescente uma ou duas semanas à duração das viagens.
Os ataques na área ameaçam interromper cadeias globais de suprimentos que dependem do mar Vermelho e do Canal de Suez. A hidrovia é responsável por 30% de todo o tráfego de navios porta-contêineres e é um canal vital para o transporte de petróleo.
Comerciantes também já começaram a alertar para as perturbações nas cadeias de abastecimento que poderão ocorrer com os desvios. A Ikea, maior varejista de móveis do mundo, disse que a situação “resultará em atrasos e poderá causar problemas de disponibilidade em certos produtos”.
Michael Aldwell, vice-presidente-executivo do grupo suíço de logística Kuehne+Nagel, disse que cerca de 19 mil navios passam pelo Canal de Suez todos os anos, geralmente levando de 30 a 40 dias para completar uma viagem da Ásia à Europa. “A escolha da rota alternativa da Ásia para a Europa poderá estender a viagem em três a quatro semanas”, acrescentou.
A Maersk disse que na segunda-feira tinha cerca de 20 navios parados, metade deles esperando a leste do Golfo de Áden e os demais aguardando ao sul ou ao norte do Canal de Suez. Anteontem, a BP tornou-se a primeira grande companhia de petróleo a interromper todos os embarques pela área.
Fonte: FT / Valor Econômico
