Apesar dos ruídos capitaneados pelo governo Lula em duas grandes companhias listadas na bolsa, com a tentativa de impor um nome ao comando da Vale e de reter os dividendos extraordinários da Petrobras, empresas que podem sofrer com ingerência política ainda compõem a carteira de gestores de ações. O barulho atrapalhou o desempenho de estatais de maneira geral e foi mais uma razão para afastar o capital estrangeiro do Brasil.
Em evento do Bradesco BBI, Leonardo Linhares, diretor da SPX Investimentos, disse ter uma pequena posição em Banco do Brasil, uma ação que “comporta muito desaforo e não dá para não ter”. Em Petrobras, o gestor acredita que a companhia vá acabar pagando metade do dividendo extraordinário porque isso “não atrapalha em nada qualquer plano de crescer investimentos, uma situação muito diferente do passado”, comentou. “Não tem pré-sal, houve melhoras nos controles da empresa, mérito de administrações passadas, a opinião pública aprendeu.”
Mas com o governo como controlador pode haver um processo de piora, mas devagar, continuou Linhares. “É provável que nos próximos dois anos, a empresa pague dividendos aos acionistas.”
“Eu sofro carregando estatais há bastante tempo”, comentou Felipe Campos, sócio-fundador e gestor da Navi Capital. Ele disse que os fundos de ações da casa têm posição relevante em Petrobras há quatro anos e sempre teve barulho, sob o governo Lula ou Jair Bolsonaro. “A empresa sempre foi alvo de discursos, uma assimetria de informação grande, a dos dividendos foi só mais uma, mas tem que separar o que é preço e o que é geração de valor.”
O gestor citou que é muito questionado se as ações da Petrobras poderiam passar por um processo de revisão. Ele até achou que sim, mas a gestão da estatal gastou tempo para explicar para os investidores o que não ia fazer e quais as razões estratégicas. Campos acrescentou que 95% dos planos de investimentos da Petrobras qualquer empresa privada aprovaria.
“Acho difícil uma empresa privada conseguir o retorno que o pré-sal tem, não consigo ver o Banco do Brasil fazendo uma alocação de carteira errada por causa da discussão do governo, a geração de valor está lá”, afirmou. “O que se perde com o barulho é a mudança de preço, do ‘valuation’, precisa ter paciência que o valor vem. A Petrobras tem geração de caixa, vem diminuindo a alavancagem e a ação traz retorno, seja pela menor alavancagem ou pelos dividendos.”
O gestor acrescentou que quando viu Gleisi Hoffmann, presidente do PT, tuitando na rede X sobre a reação das ações da Petrobras ganhou mais confiança. “Se ela está preocupada com o preço, isso me dá um conforto grande.”
As revisões de lucros para baixo, observadas nas empresas de uma maneira geral, não ocorre com as estatais, disse Carlos Eduardo Rocha, executivo-chefe (CEO) e gestor da Occam Investimentos. “Não só Petrobras, mas Banco do Brasil, Sabesp, Cemig e outras entregaram resultados acima da média”, afirmou. “As estatais são grandes empresas no Brasil, representam grande parte da bolsa, é para estar comprado nelas.”
Se houver recuperação do fluxo de capital externo para o mercado acionário local serão as maiores empresas as primeiras a atrair esse dinheiro, não as de menor capitalização na bolsa, disse Rocha. “Petrobras, com a discussão dos dividendos, caiu mais do que se pegasse todo o valor que seria distribuído e queimasse com óleo”, comparou.
Fonte: Valor Econômico
